O Príncipe
por
Marcelo Silva Costa
"Bem-vindos a São Paulo", deseja
uma aeromoça a tripulação de seu vôo, vindo
da França. Para Gustavo (Eduardo Tornaghi), um dos passageiros,
é um retorno. Gustavo é um ex-estudante de filosofia que
partiu para Paris vinte anos antes, distanciando-se de família,
amigos e sonhos em busca de coisas que, agora, ele reconhece que não
sabia o que era e, assim, não encontrou.
Uma doença em família
traz Gustavo de volta. A primeira coisa que assusta o personagem é
a mudança por que passou a São Paulo que ele deixou para
trás. Logo após, Gustavo sai a procurar os velhos amigos
e um velho amor, para concluir que o tempo, impiedoso, não foi bondoso
com sua geração (ele incluso).
Estas duas verificações
do parágrafo anterior sustentam o roteiro de "O Príncipe",
sexto longa de Ugo Giorgietti, cineasta da excelente comédia "Sábado"
e do olhar poético sobre o futebol em "Boleiros".
Os dois caminhos escolhidos (a cidade
e a pessoa) pelo diretor para amparar seu novo filme infelizmente funcionam
antagonicamente. A forma amarga e dolorida com que Giorgetti apresenta
a São Paulo atual de forma alguma mostra algo que a grande maioria
dos dezenove milhões de pessoas que vivem nessa cidade não
saibam. Mais do que qualquer coisa, a violência de São Paulo
assusta. Porém, no mesmo patamar ou, talvez, alguns degraus acima,
está a São Paulo que quer vencer a todo custo, canalha e
cafajeste, valorizando mais o dinheiro do que os sonhos.
Retratando a perfeição
esse universo representado por coquetéis, lançamentos de
livros, estréias de peças de teatro, ambientes em que o que
importa é ser visto e estreitar relações pessoais,
o diretor aproxima "O Principe" de o "O
Invasor", de Beto Brant. Enquanto o segundo retrata o duro cotidiando
das bibocas paulistanas ganhando voz em gírias e dialetos, o primeiro
assume os interesses que movem os relacionamentos na classe média
culta com citações de Maquiável, José Luiz
Borges, Jean Paul-Sartre e F. Scott Fitzgerald. O veneno se adapta ao envenenado.
Não bastasse expor os pensamentos
culturalmente obscenos de uma São Paulo movida a dinheiro, o diretor
ainda retrata a violência que já não mais assusta (em
uma cena excelente de um assalto a porta de uma academia) e a decadência
da cidade na passagem mais cortante do filme quando, bêbados, Gustavo
e Renato (Otávio Augusto) caminham na madrugada paulistana em um
antigo bairro boêmio, hoje, casa e refúgio de mendigos e pessoas
sem casa, sem futuro, não a toa, como os próprios personagens.
O tempo que foi impiedoso com a cidade (o corpo), também não
perdoou as pessoas (a alma).
Porém, se a mordacidade ganha
forma na representação da cidade, a pessoa é tratada
com distanciamento. Mais. Esse distanciamento acaba prejudicando o roteiro
que fica, assim, com vários vácuos de tempo e espaço.
O primeiro: Gustavo, o personagem principal, aparenta ter mais de 50 anos
e deixou o Brasil 20 anos atrás. Como o filme se passa em 2002,
calculamos que Gustavo tenha deixado o país em 1982, mais ou menos
aos 30 anos. Nessa época, a ditadura começava a afrouxar
e o sonho de um presidente civil já era algo muito próximo
a realidade.
Para uma turma de amigos apoiada em
idéias políticos, abandonar o barco próximo a vitória
é totalmente ilógico, ainda mais se levarmos em conta os
anos de derrota entre 64 e 78. A apresentação da turma também
deixa a desejar. Tal qual um "Forrest Gump" ao inverso, Gustavo apenas
ouve as histórias de seus melhores amigos, representados numa geração
que dividia o mundo em ter ideais ou vender-se ao capitalismo (convenhamos,
haviam outras saídas, mas só estas duas foram levadas em
conta). Dessa forma, de um lado temos o amigo que perdeu mulher, pai e
vive em uma fábrica abandonada (herança da família)
vivendo de ajudar os pobres enquanto do outro temos o que perdeu a mulher,
o filho (distanciado) mas que vive em colunas sociais e com projetos mirabolantes
para ganhar dinheiro com a cultura, afinal, muitos livros estão
sendo vendidos pouco importando se estão sendo lidos. Qual a diferença
entre um e outro? Nenhuma.
Há, também, o professor
de história que quer inventar uma nova história para o Brasil
apoiada em "uma mentirinha aqui, outra mentirinha ali" como também
temos uma fotógrafa que trabalha nas noites registrando em suas
lentes ocorrências policiais ao estilo Notícias Populares.
A oposição de idéias é maior quando descobrimos
que estes dois personagens são casados.
No entanto, na maior parte do tempo,
"O Príncipe" soa frouxo, sem pegada, encenado demais. Por mais que
a desesperança seja um dos trunfos (senão o maior) do filme,
ela também contamina o roteiro causando lapsos cinematográficos.
Dessa forma, falta a obra uma unidade tanto factual quanto de personalidade
dos personagens. Isso não estraga o retrato de deterioração
social e pessoal que Giorgetti flagra em suas lentes como um todo, mas
deixa um q de poderia ser melhor ao fim da projeção.
Eduardo Tornaghi deixa a desejar no
papel principal, frio, distante. Bruna Lombardi interpreta uma ex-namorada
de Gustavo, Maria Cristina, tão perdida quanto ele. Os destaques
acabam sendo Otávio Augusto como Renato, impagávelmente cínico
e amargo na pele de um jornalista que sofreu um acidente de carro e sobrevive
em uma cadeira de rodas, e Marcia Bernardes como Hilda, uma fotógrafa
de caderno policial.
"O Príncipe" surge, finalmente,
como um filme de memórias, dessas que, a certa idade, todos temos
relembrando o que aconteceu com nossos melhores amigos, com nossa casa,
a escola em que estudamos e, sobretudo, com nossos sonhos. Se cinematograficamente
"O Príncipe" peca por algumas falhas, na crítica e na retratação
do tempo perdido, é um filme bonito e melancólico, bastante
melancólico.
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