Josie e as Gatinhas
por Leonardo Vinhas
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"Josie E As Gatinhas" era um desenho animado dos anos 70 que mostrava um trio de meninas bonitinhas, legais e simpáticas que tinham uma banda de rock. Fez sucesso pacas na época e depois saiu do ar, não sem antes ter virado um gibi. O filme é mais um na carona das adaptações de cartoons para a tela - vide Mr. Magoo, Inspetor Bugiganga, Rocky e Bullwinkle e o ainda inédito no Brasil Scooby-Doo. Sem ter assistido o filme do cachorro que vive em permanente larica, posso garantir: nenhum deles é tão bom quanto Josie. Entenda porquê.

O pretexto do filme (Josie And The Pussycats, EUA, 2001) é um contrato assinado pela banda com a gravadora Megarecords, a maior do mundo. Eles são tão grandes assim porque funcionam com o auxílio da Casa Branca e do Pentágono, incluindo mensagens subliminares nas canções pop de seus ídolos pré-fabricados. É claro que Josie (a gracinha Rachel Leigh-Cook) e suas amigas Valerie (Rosario Dawson) e Melody (Tara Reid) vão descobrir tudo e desbaratar o esquema. E aí? Aí que entra o absurdo - literalmente. Todos os cacoetes, clichês e estereótipos sobre a adolescência que você conhece estão aqui, exagerados ao máximo e transbordando escracho. Das adolescentes histéricas (os) que aguardam pela boy band Du Jour (quiá, quiá, quiá) no aeroporto até a horda fanática do Metallica, tudo está impecavelmente satirizado e ridicularizado - sem emitir qualquer juízo crítico ou coisa que o valha. Ou seja, se os adolescentes são idiotas, não esquente - dê risada. Você provavelmente foi um idiota também. Ah, sim: o maior hit do Du Juor chama-se Back Door Lover, ou seja, Amante da Porta dos Fundos. Precisa explicar?

O que mais o filme tem? Bem, que tal a escancarada no consumismo nosso de cada dia, através da inserção absurdamente explícita de merchandising de uns trinta (sem exagero) produtos diferentes em cena, uma boa parte deles de uma vez só? Todos, claro, participantes da conspiração subliminar, engendrada por uma tal de Fiona (Parker Posey), uma perua gostosona e sem graça secundada por um assistente maleficamente estúpido (o esquisitaço Alan Cumming, de "Pequenos Espiões", que também estará em "X-Men 2"). Esse mesmo consumismo coloca Beatles, Rolling Stones e Backstreet Boys no mesmo saco, usando de uma lógica (ou algo parecido) que faz muito sentido no meio do nonsense que é essa película.

Mas tem mais, tem mais. Tem os personagens secundários do desenho - o empresário inútil Alexander e sua irmã irritante e feiosa Alexandra, o sem função Alan M. (aqui transformaram-no no amorzinho de Josie e ainda tentam convencer a platéia que ele é galã) - sacaneando sua própria condição de coadjuvantes e ironizando com muita sagacidade o fato de estarem sendo "adaptados" para o cinema. Tem as três menininhas da banda, atrizes dos seus vinte anos vestidas com roupinhas sumárias e fazendo tipinho de adolescente (se você é homem e acha que isso é imoral ou sem graça, reative o TFP). Tem os roquinhos-chiclete da banda, descartáveis e divertidíssimos, muito melhores que metade da produção "séria" e "alternativa", gringa ou nacional (só o tema do seriado que ficou brocha, perde feio para a versão da Tanya Donnely com a Julianna Hatfield). Tem diálogos inacreditáveis, uma trama inverossímil e atuações discretas como a dos coadjuvantes dos Trapalhões ou do A Praça É Nossa.

Há principalmente a inegável idéia de que rock, pop e quase todo o resto é produto, da atitude ao visual. A música é o que menos importa, legal mesmo é o fetiche da aquisição de uma mercadoria "transgressora" (risos), "rebelde" (espasmos e engasgos) e "visceral" (inclinem as cabeças para trás e irrompam em gargalhadas). O "rock'n'roll" ("também conhecido como 'rock'", explica um personagem didaticamente) e sua indústria são uma palhaçada tão grande quanto esse filme, que é bastante inocente, até. 

E essa combinação "bandalheira + inocência" faz com que você chegue ao fim desse filme (que termina com o pior playback da história - avisem as meninas que elas têm que fingir que estão tocando) com vontade de fazer alguma coisa bem idiota. Sei lá, jogar Nescau na cabeça, pular nu num aquário, escrever umas bobagens, comprar a trilha do filme, montar uma indie-guitar-band, tanto faz. Nem vale a pena pensar em teses sisudas ou brincar de "defensor do rock" criticando o filme, prefira servir-se de umas seis cervejas, fast food e ria muito. Quando a estupidez bater no teto, ouça o "Know Your Enemy" dos Manic Street Preachers, e dê um pé no seu próprio traseiro para largar dessas teorias bestas sobre música e fazer algo que preste para o mundo. Rock é diversão, e é melhor que fique assim. Senão, vira esse comércio besta que está dominando o mercado.

Josie E As Gatinhas: o filme mais rock'n'roll do ano.

Como a personagem Melody, Leonardo Vinhas também não sabia que os filhotes cachorros crescem, ficam velhos e morrem. Parece que a mesma coisa acontece com os filhotes de humanos.