A Comunidade
por
Marcelo Toledo
Decidi escrever sobre este filme,
mas percebi que tinha vontade de escrever sobre outras coisas que o filme
me despertou, e não exatamente sobre a história. Assim, antes
de chegar à parte que me interessa, vamos a parte que deve interessar
aos cinéfilos.
"A Comunidade" ("LA COMUNIDAD" 2000),
dirigido por Alex de la Iglesia e lançado na Espanha em 2000, é
uma comédia de humor negro, com boas doses de sarcasmo e violência
burlesca, que parecem ser as marcas registradas deste jovem diretor. O
filme ganhou prêmios, inclusive de melhor atriz para a excepcional
Carmen Maura, musa de Pedro Almodóvar.
No centro de Madrid, uma corretora
leva clientes a um apartamento muito bem mobiliado, pelo qual ela própria
acaba se encantando. Como o imóvel está vazio, decide aproveitar
a oportunidade para fazer uma festinha com seu marido, e aproveitar a calefação,
a jacuzzi e o colchão de água. No auge da festinha, um vazamento
no andar superior dá início a uma história praticamente
inverossímil, mas engraçadíssima.
O vazamento revela o segredo que prédio
e moradores queriam guardar a sete chaves: um velho solitário, e
em seu apartamento, um tesouro escondido: 300 milhões de pesetas,
bolada arrematada na loteria. O que todos aguardavam ansiosamente, dia
e noite, era a morte do proprietário e a oportunidade para entrar
no imóvel e repartir a fortuna. Só não imaginavam
que uma corretora meio atrapalhada descobriria o dinheiro antes de todos,
e tentaria sair do edifício com ele.
Até que ponto você chegaria
por causa de dinheiro? Que desculpas você arranjaria para justificar
sua cobiça? Esse parece ser o grande questionamento da história,
ao mostrar como pessoas normais tornam-se bestas, sem escrúpulos
ou limites, quando o assunto é dinheiro.
Carmen Maura, no papel da corretora
Julia, mais uma vez demonstra a grande atriz que é. Os outros atores,
mesmo que pouco conhecidos fora da Espanha, fazem um grande trabalho, assumindo
os tipos humanos mais diversos que se pode imaginar – do síndico
falsamente preocupado com o bem estar coletivo até o "nerd" apaixonado
por Darth Vader.
"A Comunidade" merece ser visto, caro
leitor. Se tiver estômago forte, você vai gostar. Digo isto
porque a estética de Alex de la Iglesia é forte. Muitas baratas,
ratos, sujeira, podridão, sangue, violência e seres humanos,
harmoniosamente combinados. Estranho? Mas a idéia é essa,
justamente para mostrar como podemos ser "bestas" quando a cobiça
toma conta dos sentidos.
E neste ponto, começo as minhas
divagações. Não creio que este filme poderia ter sido
rodado por um diretor que não fosse espanhol. Nem mesmo que este
filme pudesse ser ambientado em outro país ou tivesse outra língua.
Definitivamente não. A relação entre o povo espanhol
e a violência, o sangue, a dicotomia homem-besta é mais forte
neles do que em qualquer outra civilização. E só um
diretor espanhol para levar isto às telas, carregando nas tintas
do realismo.
Vamos às touradas. Ali, na
arena, o cheiro de sangue mistura-se ao suor dos homens e ao cheiro da
terra. A vibração da torcida deixa-me em dúvida: torcem
pelo touro, pelo homem, ou pela besta mais forte? Que excitação
é essa em ver um animal sangrando até a morte? Bem, politicamente
corretos que me perdoem, mas até esta característica do povo
espanhol tem a sua beleza e poesia, e merece o meu respeito.
E quanto à língua? Haveria
graça se Carmen Maura disse "merda", "merde" ou "fuck you"? Não,
caro leitor. A força desta atriz está em cada nuance com
que manda o marido "a la mierda". E quando o vizinho tenta convencer a
corretora Julia a abrir a porta do apartamento, com um fogoso "te necesito".
Tinha que ser em espanhol...
Se fosse um filme italiano, teria
mais humor e trapalhadas. Se fosse francês, mais questionamentos
acerca do sentido da vida. Se fosse japonês ou chinês, longos
períodos de silêncio e movimentos lentos. E finalmente, se
fosse uma produção americana, terminaria com um gancho para
a continuação, pois eles nunca sabem quando uma produção
de Hollywood vai estourar nas bilheterias...
Apesar de tudo isto, o diretor parece
deixar uma pista de que aquele realismo ultracruel pode não ser
verdade, e aí entra a escolha pela cidade de Madrid. Ok, somos todos
umas bestas, matamos por dinheiro, e tudo mais, mas é preciso ter
a esperança de que talvez as coisas não sejam exatamente
assim. Por isso, Iglesia ambientou a história em dois ou três
dias de chuva continuada em Madrid. Quem conhece a cidade sabe que isto
é raro, quase irreal. Apenas para ter uma comparação,
nesta São Paulo de clima tão incerto chove quase quatro vezes
mais do que na capital da Espanha...
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