Fatos da Vida Real
por Carmela Toninelo

Garotos incríveis, uma história de prosa elegante e precisa. A soma do notável senso de humor e as qualidades literárias do autor de Mistérios em Pittsburgh, com a magia independe de efeitos especiais do diretor do filme Los Angeles, Cidade Proibida.
Chabon viveu parte da realidade de seu personagem principal, Grady Tripp (Michael Douglas). Um professor de inglês e escritor talentoso que, aos 50 anos de idade, é autor de um só sucesso.

Seu primeiro livro foi saudado como um acontecimento. Passaram-se sete anos e ele não consegue concluir o segundo. Esse
homem em crise relaciona-se com um jovem e talentoso aspirante a escritor, com um editor meio histérico e uma amante, casada com seu chefe, que lhe revela estar grávida. Vítima de um bloqueio criativo, empacado no meio de um romance de mais de 2500 páginas, Grady tenta de todas as formas encontrar novamente a razão de sua vida, seus valores perdidos e sua intelectualidade nata.

Uma fábula sobre os sacrifícios feitos por jovens escritores para atingir o sucesso, o absurdo dos comportamentos humanos e os limites entre realidade e sonho. O que é descrito nessa obra-prima do cinema e da literatura é o isolamento do artista, fazendo um paralelo entre o poder da palavra e a solidão do poder. Fatos da vida real.


Michael Douglas e Tobey Maguire juntos em uma trilha sonora de torta de creme
por Manuela Martini Colla

Há certos mitos no rock and roll. Ok, há MUITOS mitos, no sentindo amplo da palavra. Um deles, é a rabugice e fama de ‘difíceis’ de alguns artistas. Aqui, entra Bob Dylan, do ladinho de Neil Young. Não que eles não gravem muitos discos – e aí está a vasta discografia dos dois, que não me deixa mentir. Mas daí a dar entrevistas, aparições em público, zilhões de shows.. é outra história. E escrever músicas pra trilhas sonoras também. 

Recentemente Bob Dylan foi bonzinho com o mundo. Há dois anos atrás, ele já tinha participado da trilha sonora de Hurricane, o Furacão (mas com uma música escrita há muitos anos atrás). No ano passado, ele compôs uma música chamada ‘Things Have Changed’, especialmente para refletir a alma dos wonderboys (e em especial do Wonderboy  Grady Tripp, o talentoso romancista com troubles até a raiz dos cabelos). A canção ganhou o Oscar, não que isso queira dizer alguma coisa, porque é pouco pra Bob Dylan, que vem emocionando gerações e gerações por mais de 40 anos dedicados à música. 

‘Things have changed’ não é uma canção que tapa o sol com a peneira, como ele mesmo disse. O refrão admite: ‘I used to care but things have changed’, para dar lugar a mais uma letra de alguém que já ganhou o Pulitzer (esse, sim, um prêmio mais importante). 

E, numa das melhores cenas do filme, hei-la: a minha música favorita de todos os tempos: ‘Old Man’, de Neil Young. Eu transcreveria toda a letra aqui, mas como isso tornaria o texto longo demais, apenas digo: escutem essa música. É de uma beleza ímpar. 

Leonard Cohen é mais conhecido pela sua voz cavernosa e pela sua participação na trilha sonora de ‘Assassinos por natureza’. Mas ele escreve divinamente bem. ‘Hey that’s no way to say goodbye’ é uma canção que não me deixa mentir. Na trilha sonora de Wonderboys, o canadense aparece com ‘Waiting for the miracle’. Irônica, debochada, densa. 
A trilha sonora é recheada de pérolas country que, apesar de ter muita coisa brega, às vezes fala direto ao coração. ‘There goes another day/ And I keep asking why you and I keep telling lies’, pergunta o Buffalo Springfield. Ás vezes, as respostas não são suficientes.

Essa trilha sonora conseguiu o que parece irrealizável para muitas. Na real, o grande barato de se organizar uma trilha para filmes hoje em dia é somar clássicos (obscuros ou não) à novidades cool. E o melhor é poder dizer: esqueça disso ao ouvir esta soundtrack. O principal objetivo desse tipo de coletânea deveria ser justamente outro. Transformar as reviravoltas do enredo em acordes. Buscar a moldura musical perfeita para cada cena. E essa trilha traduz com perfeição o espírito dos wonderboys.

Que esperam as meninas entrarem em casa antes de ir embora. Que escutaram canções folk demais, mesmo não tendo nenhuma camiseta do Che Guevara, e que às vezes preferem ficar em casa com um robe velho do que sair e  escutar as experimentações daquele DJ que faz trilha sonora de propaganda de shampoo. 
Wonderboys são caras que podem vir a amar mulheres casadas, como o próprio protagonista do filme, ou gostar de tomar um trago de vez em quando. O que importa é entender que os garotos incríveis de que se fala já tiveram muito. Mas não tiveram o bastante.