A Vida
em Preto & Branco
Por
Alexandre Petillo
Existem
filmes, músicas, livros, palavras, que de alguma maneira, mexem
com sua vida. Quando isso acontece, eles deixam de ser peças de
arte e passam a fazer parte de você, marcando momentos, fases, histórias.
Pleasantville A vida em preto e branco, pode não determinar momento
algum em minha vida, mas agora, nesse ano, foi o filme que mais mexeu comigo,
que me fez repensar a minha existência, minhas perspectivas. E pode
me chamar de sentimental, eu não ligo não.
Pleasantville que passou pelos cinemas
brasileiros sem muito alarde e chegou a ser indicado a três
Oscars, chega agora às locadoras. É, sem dúvida, uma
das fábulas mais fascinantes do cinema e com certeza uma dos meus
cinco filmes favoritos da década.
Em linhas gerais, A vida em preto
e branco, mostra dois irmãos, David (Tobey Maguire, de Tempestade
de Gelo, outro excelente filme) e Jennifer (Reese Whitespoon, de Segundas
Intenções, que é legalziinho) que magicamente são
transportados para dentro da série Pleasantville, ambientada nos
anos 50 e, óbvio, toda rodada em preto e branco. Na cidade-título
tudo é perfeito. Ninguém tem problemas financeiros, todos
sorriem abundantemente, todos tem emprego fixo, casas, o time de basquete
da escola ganha todas, não há conflitos, contestações
e as pessoas, claro, não sabem o que significa sexo.
David, um tradicional loser, adora
a série e acha isso tudo um paraíso, enquanto a sua irmão
Jennifer é o tipo de garota que chama a atenção dos
caras populares da escola, enfim, uma piranhinha.
Porém, o mundo perfeito de
Pleasantville está prestes a acabar quando os dois irmãos
deixam de interpretar os papéis que lhe foram criados na série
(ele, Bud e ela, Marie Sue), causando, acidentalmente, uma revolução
de valores naquele
universo, subvertendo a ordem estabelecida.
O início de toda a revolução
de valores começa quando Jennifer/Marie Sue mostra a seu namorado
na série que um relacionamento tem mais - muito mais do que apenas
pegar na mão.
O resultado é que a cada demonstração
de sentimentos amor, coragem, alegria, tristeza, bravura, raiva a cidade
e seus habitantes começam a ganhar cores, vida.
De uma certa forma, Pleasantville
é uma crítica romanceada e sutil dos nossos valores mesquinhos
e egoísta. Do nosso medo em conhecer o novo, da nossa tendência
a cair na rotina, ao habitual e se acomodar. O filme mostra o prazer imenso
em fazer coisas novas, arriscar, em sair um pouco da linha reta, de dar
um pouco de vida para nossas almas.
É claro que nem todos gostam
de mudanças. Nem todos querem mudar. Então, acontece uma
ruptura entre aqueles que querem continuar vivendo em preto-e-branco e
aqueles que desejam cores.
A partir do momento em que as pessoas
vão se apaixonando liberando emoções reprimidas
e/ou desconhecidas a cidade e o filme ganham cores que, magistralmente,
contrastam com o preto-e-branco de época, deixando incríveis
imagens e transmitindo uma idéia do que seria da vida se ela fosse
monocromática.
É memorável a seqüência
que Marie Sue ensina a sua "mãe televisiva" a sentir prazer sexual.
A cena começa com a mãe de Marie se masturbando na banheira
e termina com uma liberação exagerada de prazer daquela recatada
senhora culminando numa combustão espontânea de uma árvore
em frente a casa.
Ainda, para escancarar a revolução
de Pleasantville, advém o RockNRoll, aquela música do diabo.
Com a sua dança frenética e suas letras e ritmos transgressores,
os jovens da pacata cidade aceleram seu desejo pela experimentação
e distribuem mais cores pelo ambiente. Falando em Rock, a trilha, fantástica,
traz clássicos dos 50s através de monstros como Elvis, Gene
Vincent, Lloyd Price, Pat Boone, Miles Davis, e representando os anos 90,
Fiona Apple, numa regravação interessante de Across the Universe,
dos mestres Lennon/McCartney.
O roteiro de Gary Ross (de Dave
Presidente por um dia e Quero ser grande) é um dos mais criativos
dos últimos tempos, ao lado do Show de Truman de Peter Weir.
O filme, mais uma vez, consagra a
idéia de que o bom cinema é feito das idéias mais
simples.
Pleasantville A vida em preto e
branco, é uma experiência gratificante, é de te deixar
com um sorriso no rosto e injetar um pouco de esperança nos corações.
Te faz feliz, e hoje em dia, isso já é muito.
E, ainda, mostra que se você
quiser cores mais novas para melhorar a sua vida, seja em Pleasantville
ou em Guararema: love is all you need! |