"Tudo bem, Até Logo"
por Marcelo Silva Costa
 
Eu não gostava de cinema francês. Ok, ok, ok. Eu lá nem sabia o que era cinema, ainda mais francês, quando pensava que não gostava de cinema francês. Mas era uma verdade adolescente flutuando na minha memória de sonhador.  

Alguns anos depois, alguns filmes depois, declaro a minha paixão. "Uma relação pornográfica" foi um dos melhores filmes que vi o ano passado. "Lavagem a Seco" foi um dos mais arrepiantes que vi esse ano. E "Tudo bem, até logo" (Tout va Bien, On S’en Va) junta-se aos dois, apesar de não ter a delicadez do primeiro nem a força do segundo. É um tanto mais inocente e simples, mas tão bonito quanto os citados.  

Conta a história de três irmãs. Laure (Miou-Miou, de "Lavagem a Seco")  é a irmã mais velha, que administra a casa e a escola de tango herdada do pai. Beatrice (Sandrine Kiberlain) é a do meio. Atingiu o sucesso financeiro e é rica, generosa e, por isso, se considera indispensável. Claire é a caçula. Eximia pianista, mora sozinha é um velho apartamento num squat (prédios ocupados/tomados por artistas, na Europa) 

Entre as três percebe-se uma união inabalável. Cada uma das três irmãs se sente absolutamente essencial à felicidade das outras. Único problema: o passado.  

Inevitável não lembrar a frase chave de "Magnólia", de Paul Thomas Anderson: "O passado saldou suas contas conosco, mas nós não o deixamos para trás".  

O passado, para as três irmãs, é um pai que as abandonou 15 anos atrás. E que, agora, bate a porta. A partir desse momento,  é cada uma por si. Como é natural, cada um delas recebe "essa volta" de sua forma. A mais nova, Claire, o abriga. A do meio, Beatrice, o nega. Laure, a mais velha, assusta-se e não sabe como agir.  
  
Louis (Michel Piccoli), o pai, está perdido. Resume em uma fala, seu personagem: "Se foi difícil ir embora, é mais difícil ainda voltar". O não arrependimento pela escolha feita 15 anos mostra um traço forte de sua personalidade: a coragem. Para ele, essa era a escolha certa a ser feita, e foi a que fez.  

O diretor Claude Mouriéras filma, assim, o perdão. E o amor (ou ódio, o que é a mesmíssima coisa). O filme é simples, tão simples quanto os dois sentimentos acima. E o final é bonito. E triste. Como, alias, muitas vezes é o perdão... e o amor.