Beijos
Proibidos
por
Renata Gonçalves
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...Pensei em abandonar
o projeto de realização de Beijos Proibidos quinze dias antes
das filmagens, tanta vergonha e desconforto eu sentia. Eu já tinha
escrito o roteiro de O garoto selvagem e o de A sereia do Mississipi. Eu
pensava: tenho dois bons roteiros prontos, há romances magníficos
e, no entanto, dentro de quinze dias vou começar a gravar um filme
que não se diz nada! Eu realmente estava aflito.
Entrevista concedida a Noël
Simsolo, Image et son, revue du cinema, dezembro de 1970.
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Em Beijos Proibidos, filme
do cineasta francês François Truffaut, o garoto Antoine
Doinel, interpretado por Jean Pierre Léaud, de Os
Incompreendidos, volta à cena. Mas desta vez, a criança
“abandonada e desiludida com a vida” cresce. O ar sombrio e triste de Les
400 coups cede lugar para cores, risadas e cenas intrigantes, como
a que Antoine repete dezenas de vezes os nomes de Fabienne Tabard - esposa
de um sapateiro que ele está investigando - de Christine Darbon
- sua antiga namorada - e o próprio, diante de um espelho, numa
espécie de preservação de identidade.
O longa começa com Antoine
na prisão do Exército francês. Logo em seguida é
dispensado, já que não comparecera a nenhuma das chamadas
oficiais. Da prisão, o jovem sai às ruas como se nada houvera
e vai até a casa de Christiane, onde é alegremente recebido
pelos pais da moça. Mais um contraste com o primeiro filme do cineasta:
a família desunida e os adultos “maus” de Os Incompreendidos são
substituídos por personagens carismáticos e gentis.
Durante a trama, Antoine passa por
várias profissões: ora ele é porteiro de um hotel,
ora detetive particular (cenas engraçadas nestas passagens!) e ora
vendedor de sapatos...
Vendedor-investigador que se apaixona
pela esposa do dono da loja que o contratou para descobrir o porquê
de todos o detestarem. Depois de trocar cartas com a esposa do sapateiro,
Fabienne Tabard, e supostamente ter uma manhã de amor com a mesma,
Antoine é mais uma vez despedido e mais uma vez não se abala
por isso.
O garoto segue como se nada na vida
fosse realmente importante e arruma um emprego diferente: desta vez, ele
passa a consertar televisões...
Num dos chamados, reencontra a antiga
namorada e passeia com ela por uma dessas praças tipicamente francesas.
Bem, já estamos quase no final do filme e aí vem uma cena
realmente intrigante e que muitos não entendem o porquê dela
estar inserida no filme, mas deixemos que Truffaut a descreva para não
perder a graça e contar toda a história antes que você
assista: “com o passar dos tempos, tenho pensado que essa última
cena de Beijos Proibidos, que foi realizada em total inocência, sem
que eu soubesse sequer o que ela queria dizer, é na verdade, uma
espécie de chave para quase todas as histórias que eu tenho
colocado na tela”.
Pra finalizar, Beijos Proibidos
foi rodado em 1968, na época em que várias manifestações
ocorriam em torno da saída de Henri Langlois da Cinématèque.
Justamente por isso, o filme é dedicado a Henri e foi filmado em
cima de improvisos... Truffaut sabia escolher elencos e confiava profundamente
no desempenho de seus personagens. Um lado menos triste e mais hollywoodiano
do cineasta. Vale a pena conferir. |