Treze dias
brincadeira de adultos
por Marcelo Silva Costa

Tudo aquilo que se espera de um filme americano cujo tema central seja a guerra está aqui. Isso quer dizer que se você for assistir Treze Dias que abalaram o mundo (Thirteen Days) terá de aturar 145 minutos de idolatração do povo americano ao mito JFK, manipulação de informações reais e o típico "nós somos bonzinhos, os russos são malvados". 

Ok, você já viu tudo isso antes e vale a pena ver mais uma vez? Sim, vale, e muito. Sublimando as características acima, temos um excelente drama político. É muito mais fácil entender como funciona um governo vendo este filme do que lendo Platão ou Maquiavel.

A história tem pano de fundo real. Aconteceu em outubro de 1962 quando, num domingo, um avião americano fotografa campos militares em Cuba. Seguidas analises do material detectam que a pequena ilha de Fidel Castro estava criando um grande arsenal nuclear que poderia colocar boa parte dos Estados Unidos no ar, cinco minutos depois que alguém em Cuba apertasse o botão. O material bélico estava vindo da Rússia e quando as fotografias chegam a mesa do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, a terceira guerra mundial está para acontecer a qualquer momento.

O filme conta, pela ótica americana, como foram os sete dias que abalaram o mundo, já que a informação ficou circulando na Casa Branca nos primeiros sete dias e só foi informada ao público por John Kennedy, em rede nacional, no oitavo dia. 

O que acontece do primeiro dia em que Kennedy recebe o documento até o amanhecer do décimo terceiro dia, em que um acordo entre as duas partes é acertado, poderia ser chamado de brincadeira de adultos. John Kennedy,e seu irmão Robert, sofrem pressão de todos os lados para que seja realizado um ataque surpresa à ilha. Os dois, mais seu assessor político (Kevin Costner), procuram uma maneira de conseguir a retirada das armas de Cuba sem que seja necessário o uso da força. Essa dúvida cruel dos meninos é a chave do filme e uma aula de politicagem. Flagra muito bem o quanto é preciso ceder para conseguir um objetivo.

O diretor Roger Donaldson pesquisou testemunhas, gravações, documentários da CIA e outros arquivos históricos para realizar a obra. Em contrapartida, sites cubanos (é só pesquisar e você encontrará pelo menos três desses) propõe contar toda a verdade sobre a crise de mísseis de 1962, uma história bem diferente da contada em “Treze Dias”. Na divulgação do filme em Cuba, o ator Kevin Costner assistiu a fita bem perto de Fidel Castro. O líder cubano disse que tinha gostado do filme, principalmente por não ser um documentário. O povo americano provavelmente não achará o mesmo...

Com quem está a verdade? Com ninguém. E com todo mundo. Sabe esconde-esconde. Brincadeira de adultos.