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Trapaceiros
por
Marcelo Costa
24/05/2001
De
uns anos para cá tem virado rotina descer a lenha em
Woody Allen. Claro, o "descer a lenha em Woody Allen" não
é a mesma coisa que descer a lenha em qualquer outro
diretor, mas quase todo novo filme de Allen vem embalado por
uma corrente de descontentes. O novo, Trapaceiros (Small
Time Crooks - 2001), não foge a regra. Tudo que uma
parte da imprensa internacional tem comentado, e a brasileira
tem levado como verdade, diz que Trapaceiros só
não é o pior filme do cineasta porque ele já
lançou outro (The Curse of the Jade Scorpion -
O Escorpião de Jade), ainda pior.
A frase definitiva diz que toda expectativa positiva a respeito
de um novo filme de Woody Allen se transforma em frustração.
Quem está errado, Woody Allen ou o mundo?
Trapaceiros é tudo aquilo que Woody Allen sempre
fez. Na análise certeira que Eduardo Fernandes fez para
o S&Y da trilogia anterior a este Trapaceiros (a
saber, Desconstruindo Harry, Celebridades e Poucas
e Boas), ele dizia que uma critica a um filme de Allen seguia
um manual prático, que, entre outras questões,
precisava explicitar:
1. Todo filme que ele faz é autobiográfico (aqui
você escolhe as passagens do filme e as da vida pessoal
de Woody que quer comparar em seu texto).
2. O cineasta está se repetindo.
Bem, você com certeza irá ler tudo isso acima sobre
Trapaceiros. E o quanto isso é real?
Uhmmm, há um consenso que os cinco últimos filmes
do diretor norte-americano não são obras-primas
do cinema, principalmente comparadas a sua produção
dos anos 80. Muito embora, esses últimos filmes sejam
melhores que 95% do que Hollywood tenta nos fazer engolir ano
a ano.
Mas Trapaceiros não é autobiográfico
e Woody Allen não está se repetindo. Na verdade,
ele está criando a sua arte do único jeito que
sabe, a lá Woody Allen. Inevitavelmente, é um
estilo e qualquer outro diretor poderia ser malhado por querer
ser Woody Allen, nunca ele mesmo.
Mas, mais do que um mero filme, Trapaceiros é
a resposta para todas as questões abordadas em sua trilogia
anterior. Se em Desconstruindo Harry, Celebridades e
Poucas e Boas Allen discutia a equação
sucesso+poder e amor romântico, aqui ele traduz de forma
brilhante que o dinheiro não traz felicidade e não
fará você alcançar a equação
supracitada, caro amigo.
Trapaceiros conta a história do casal Ray e Frenchy.
Ray (Woody Allen), assaltante de meia tigela que passou uns
bons anos na cadeia, arquiteta um plano para assaltar um banco.
Para isso precisa de um dinheiro que sua esposa Frenchy (Tracey
Ullman) economizou durante anos como manicure.
O plano é cool. Alugar uma loja ao lado de um banco e
fazer um túnel que saísse direto dentro do cofre.
Para que ninguém percebesse os "homens trabalhando" no
porão montam, de fachada, uma loja de cookies. A loja
torna-se um sucesso tão grande que Ray acaba abandonando
a idéia do roubo para se dedicar aos biscoitos. Os cookies
enriquecem o casal, mas de que adianta ter dinheiro se não
se sabe como usufrui-lo com elegância. Ray queria mesmo
era ficar tranqüilo e ir para Miami, mas sua esposa quer
entrar para alta sociedade. Nisso surge em cena David (um Hugh
Grant apenas correto) para tentar auxiliar com aulas de classe
o pobre casal.
Os diálogos deliciosos são, disparados, os melhores
do ano. Seu roteiro, novamente, é um dos grandes destaques
da obra. Woody já foi indicado 13 vezes ao Oscar por
roteiro original e Trapaceiros, mesmo não tendo
sido indicado em 2000, segue o molde de roteiros geniais do
diretor. Tracey Ullman foi indicada ao Globo de Ouro, na categoria
de Melhor Atriz em Comédia/Musical, por sua Frenchy Winkler.
No fim, Trapaceiros é um grande filme que se junta
a outros grandes filmes que Allen já fez. Se entre ele
o mundo, Allen estiver errado, eu estou com ele.
Leia também:
Woody Allen, Uma Trilogia,
por Eduardo Fernandes Poucas e Boas, por Eduardo
Fernandes
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