Uma Relação Pornográfica 
por Marcelo Silva Costa

Ela é conhecida por "ela". Ele é chamado, simplesmente, de "ele". Os dois formam um casal, sem formar. A história é uma história de amor, simples e sublime como o amor deveria ser sempre. E quase sempre acontece do jeito de Frederic Fonteyne retratou em suas lentes.  

Poucas vezes o amor foi tão bem filmado quanto em "Uma Relação Pornográfica". A pornografia do titulo deverá decepcionar um espectador incauto, pois não é a pornografia de sexo explicito. É a pornografia do amor desnudo, brotando do impossível e sustentando-se no inevitável.  

Os cuidados são deliciosamente tomados. Nathalie Baye, ela, não é uma atriz bonita no sentido hollywoodiano do termo. Sua beleza é a beleza das pessoas comuns. No inicio da trama, quando em tom de retrospectiva ela conta como tudo foi acontecendo, nós nem prestamos atenção direito nela. Porém, aos poucos, quando sua imagem volta ao âmago da história, é impossível não resistir a seu charme. Seu sorriso conquista, sua falta de jeito disfarçada em trejeito nos acolhe, sua entrega nos faz feliz, seu medo nos comove, sua história nos faz chorar, mesmo sabendo que ela não sabe de nada do que nós sabemos. E nós sabemos porque também acompanhamos os pensamentos de Sergi Lopez, ele, que também divide a narrativa lembrando de como tudo aconteceu, atuando de um modo desequilibrado, assustado, doce e perfeito.  

Ela não sabe o nome dele, e vice-versa, e por conseqüência, nem nós. Conheceram-se via anúncio em revistas sobre sexo e apenas sabem que querem realizar suas fantasias sexuais. Escolhem um café para o encontro, decidem por todas as quintas-feiras em um hotel que ela já havia reservado. Assim nós, espectadores, os acompanhamos até onde nos é permitido, e ficamos a imaginar o resto. Enquanto a imaginação voa, o amor pousa. Ninguém esperava e todos temos medo. Eles principalmente. Ele assusta-se em ela querer ficar por cima, na cama. Ela assusta-se em imagina-lo olhando-a chegar ao orgasmo. Nós nos assustamos em como deixamos de dizer as coisas. E sempre acontece assim, desse jeito.  

A sutileza dos olhares impressiona quem estava preparado para a violência do sexo fácil.  

Fonteyne enfrenta o desafio de contar uma história de amor em um mundo repleto de histórias de amor. Poderia soar repetitivo, caricato, mas soa sublime, tocável, real. Quando "ela" começa a questionar que os filmes que vê não retratam a vida real, nós sabemos do que ela está dizendo. É bem mais difícil desnudar sentimentos do que desnudar corpos, e essa é a magia de "Une Liason Pornographice".  

Natalhie Bayle recebeu o prêmio de melhor atriz, a Taça Volpi, no Festival de Veneza. Sergy Lopez recebeu o prêmio de ator do ano da European Award. E nós recebemos uma história de amor como não se conta mais. Simples e sublime como o amor deveria ser sempre, só esperando que ninguém espere passar o momento para dizer tudo que sente. Você, caro leitor, diz?  

O tempo passa. O amor.  
E foram felizes para sempre. Foram? 

Marcelo, 30, acredita no amor, ainda  e sempre.