Uma
questão de família
por
Marcelo Toledo
"Uma questão de família"
(My Kingdom, 2001), tratado simplesmente como uma adaptação
moderna da história "Rei Lear" e ambientada em Liverpool, apesar
de ter em Shakespeare um excelente cartão de visitas, no primeiro
momento talvez não entusiasme o público não habituado
ao dramaturgo inglês. Porém, trata-se de um filme muito bom,
e a interpretação de Richard Harris (o mago de Harry Potter)
está à altura de sua inspiração.
"King Lear" foi publicado no mesmo
período de Hamlet e Otello, quando William Shakespeare já
era conhecido em toda a Inglaterra. No caso destas 3 tragédias,
o mote se repete: um rei traído, seja pelas filhas, seja pelo seu
próprio ciúme, seja pela corte que o cerca, unicamente interessada
no poder.
No filme de Don Boyd, o rei é
Sandeman, chefe do crime organizado em Liverpool, todo-poderoso, mas já
cansado. A interpretação de Richard Harris, ao construir
uma caricatura de soberano, mas sem excessos, é perfeita. Após
a morte de sua esposa, ele rompe a relação com a filha Joanne
– a preferida, e passa o comando de seus negócios às outras
duas filhas, Kath e Tracy – que sintetizam o Mal, tal qual Shakespeare
imaginara para sua peça.
Com a "filha boa" fora do jogo, começam
duas guerras paralelas: a das irmãs pelo controle dos negócios,
e a do velho Sandeman pela verdade sobre a morte da esposa. Ao deixar o
poder para as filhas, o velho perde tudo, inclusive a casa onde morava.
Fugindo de seus fantasmas, o soberano vai se alojar em um hotel de beira
de estrada, e lá, num dos pontos altos do filme, descobre o responsável
pelo assassinato de Mandy, a esposa interpretada por Lynn Redgrave.
Interessante notar como o diretor
trabalhou a tragédia em ritmo crescente, e como ele aproveitou o
clima sombrio de Liverpool para nos mostrar que aquilo poderia acontecer
em qualquer lugar, ao nosso redor, sem que nos déssemos conta. Exatamente
como na obra de Shakespeare, o eixo do filme é o mergulho na alma
humana, e a possibilidade de desvendar até que ponto o ciúme,
a cobiça, a inveja, a luxuria e o ódio pode levar o ser humano.
"Uma questão de família"
merece ser assistido e, mais, merece que o espectador deixe-se encantar
pela história. Observe como a alegoria da foto de Natal no início
do filme revela a verdade sobre a família de Sandeman, e também
a analogia que se pode encontrar no nome do personagem: Sandman – sem a
letra e – é a figura mitológica que vem nos fazer dormir,
naquele momento de vigília que antecede o sono, quando estamos semi-acordados,
e em que realidade e sonho se misturam. Ele joga uma areia mágica
sobre nossos olhos, levando-nos ao mundo dos sonhos. Descubra em "Uma questão
de família" sobre qual areia Sandeman construiu seu reino e seus
sonhos…

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