Um Filme Para Corações Sensíveis.
por hugo
Em primeiro lugar um aviso: esse filme não é para qualquer um. Mas entenda, isso não é um juízo de valor. É apenas uma constatação.
Bom, lembro que achei esse filme em exibição no centro de São Paulo em um domingo vagabundo qualquer. Entrei pensando que iria dar umas boas risadas já que pelas fotos do cartaz, parecia ser um sub-Tarantino e pelos nomes dos atores principais, parecia latino-americano (torcia para que fosse mexicano; mas, na verdade, é uma co-produção Espanha/EUA).

Já na seqüência inicial (quando Perdita dá um fora em um babaca que tenta lhe passar uma cantada) vi que o filme prometia. Comecei a prestar atenção nos créditos iniciais e para minha surpresa, achei no elenco Alex Cox e ninguém menos do que o lendário Screamin' Jay Hawkins (tomei um puta susto pois nem sabia que ele ainda estava vivo! Se bem que pelo seu aspecto não deverá ser por muito tempo ... Ele não segurou o rojão como ator, é verdade, mas a sua contribuição na trilha sonora foi excelente, como sempre, dando o clima certo de desespero à seqüência final).

Ok, excelentes credenciais iniciais. Quanto ao filme (que conta a história de Perdita Durango e Romeo Dolorosa, um casal de perigosos bandidos que agem na fronteira EUA/México e são contratados para enviar uma misteriosa carga pelos dois países), é uma mistura de Um Drink no Inferno e Assassinos Por Natureza 

(sem os exageros de ambos, felizmente), com a vantagem de que é possível torcer e simpatizar com o casal de "heróis" deste filme já que eles são só imorais e não amorais como Mickey e Mallory.

Mas, o mais legal é que o que menos importa aqui é a história. Durante o filme, além das dificuldades para se proteger a carga (aliás: inesquecível a seqüência da emboscada ao caminhão, com uma cena de atropelamento que deve ser uma das mais "trash" da história do cinema. Guardem o nome desse diretor: Alex de La Iglesia), temos contato com a "ideologia" e estilo de vida do casal, principalmente quando raptam um casal de namorados adolescentes bem classe média e se dedicam a dar um nó na cabeça deles, tentando mostrar-lhes a vida limitada e bundona que levavam (com uma tortura psicológica interessante, levando-os a experimentarem alguns prazeres sujos - principalmente sexuais - que os agradam mesmo que contra a vontade), ao mesmo tempo em que eles próprios, carrascos, se "torturam" mutuamente. Nada para estômagos muito fracos, nem para pessoas de bom gosto. Principalmente as seqüência que mostram as sessões de "santeria".

Mas o que eu queria dizer é que Perdita Durango é um filme sobre ser o que se é, da maneira que se quer, sem se importar com convenções, tradições ou opiniões. Ou só um puta filme de aventura. Você decide. 

Bom, depois de tão edificante experiência, saí do cinema satisfeito. Mas aquele era mesmo o dia das surpresas: fui abordado por um pesquisador da Folha de S. Paulo que queria saber minha opinião sobre o filme (foi um choque pois nunca acreditei que essas criaturas existissem. Achava que eram uma espécie de lenda urbana). Dei ao filme nota máxima em todos os quesitos, claro. E qual não foi minha alegria ao saber depois que, apesar de Perdita Durango ter sido o filme com a menor nota entre os avaliados pelos espectadores, 20% haviam lhe dado, também, a cotação máxima. Gostei, e ... sei lá, acho que me senti um pouco menos só no mundo. 

Podem me chamar de sentimental pois eu admito: sou mesmo.

hugo ( hugolt@hotmail.com ) colabora com este zine e até acha legal essas assinaturas no final das matérias, mas às vezes (como agora) ele não sabe o que escrever, e aí, isso é foda.