Pelicula
Punkpor
Marcelo Damasomadamaso@terra.com.br Há
duas décadas fazendo filme e música punk, o jornalista-cineasta-vocalista-baterista
(ufa!) Carlos Gerbase não parou de produzir em nenhum momento. Sendo
música ou cinema, este gaúcho de 42 anos trabalhou junto com os
amigos do Replicantes, e da Casa de Cinema
de Porto Alegre colocando em pauta suas idéias para filmes, curtas
e canções.
Mas é sobre cinema que ele fala aqui,
em entrevista exclusiva e, especialmente, sobre Tolerância, seu último
filme exibido no circuito normal dos cinemas brasileiros.
Com temas urbanos, tramas eloqüentes,
ordem sexual aguçada, elenco brilhante e grand finalles, ele coloca na
telona temas ousados e de boas articulações cerebrais que colocam
o expectador com a bunda grudada na poltrona até correrem os créditos
finais. Por
Marcelo Damaso
O
projeto Casa do Cinema existe desde os anos 80, antes da nova explosão
do cinema nacional, você já fazia parte ? Como era trabalhar com
cinema naquela época em que nada de bom e de novo era veiculado em
área nacional?
Sim, em 1988 foi fundada a Casa do
Cinema de Porto Alegre, eram 12 pessoas, uma espécie de condomínio,
projetos individuais em que todos trabalhávamos. "Ilha das flores" de Jorge
furtado, primeiro filme, fez muito sucesso, o que deu bastante reconhecimento,
além de ter sido um filme bem barato. Foi na época que o Collor
acabou com o cinema. Era bem difícil fazer cinema sem dinheiro nenhum!
Lógico. E fazer curta era complicado, também. "Meu Primo" , que
foi meu primeiro filme, foi feito na faculdade, eu e mais dois colegas. Filmado
em Super-8. Cada um dava sua própria grana, e foi totalmente independente.
Vocês trabalhavam
em cima de projetos próprios. Como era feita a captação de
recursos?
Colocando dinheiro nosso, todos os filmes,
na época, davam lucro. Vários festivais, ou com bilheteria. Meu
Primo foi exibido em salas bem pequenas, na época nós vimos que
o público não queria curta metragem. Deu pra ti anos 70, teve 10.000
expectadores. Coisa Na Roda, Inverno, um filme meu, e Deu pra ti anos 70, foram
os filmes que saíram, na época, pela Casa do Cinema, aqui em Porto
Alegre. Nossa equipe era bem dividida. Tínhamos uma equipe quase completa.
Umas pessoas eram responsáveis pela fotografia, outras por direção,
eu escrevia muito roteiro.
Você faz filme
desde 79, entre diversos curtas e três longas, não parou de produzir
em nenhum momento. De que forma o BOOM do cinema nacional favoreceu sua produção?
Nos anos 80, o que mais favoreceu foi a Lei
do Curta. O fim dessa lei nos prejudicou bastante também. Depois de 90,
vieram as primeiras forças do governo do estado,e claro que isso nos favoreceu
bastante.
Você se considera
um cineasta marginal?
Cara... acho que não. Talvez em relação
ao eixo Rio -São Paulo, sim. A cultura do Rio Grande do Sul ela consegue
penetrar no resto Brasil, mais do sudeste pra cá. Já no Nordeste
isso é diferente, eles conseguem mostrar sua cultura muito bem, mas não
é muito diluída pro resto do país. No Rio Grande do Sul,
a Casa de Cinema é referência. As pessoas falam: "Ah, São
aqueles velhos lá que fazem cinema!" (risos). O Rio Grande do Sul é
tido como "O Estado de Cinema". Não somos marginais do cinema brasileiro.
Em vez de sairmos daqui pra fazer cinema, tentar uma carreira em São Paulo
ou Rio, a gente se junta e produz muito cinema por aqui mesmo.
A cultura gaúcha
de auto-suficiência contribuiu para vocês se tornarem independentes?
Acho que isso tem um lado verdadeiro sim.
O gaúcho tem esse lance de ser meio separatista. Eu preferi fazer filmes
na minha cidade, dentro do meu estado.
O que acha da fusão
entre cinema e televisão? Falo, na área de produções.
Acho muito importante. Essa fusão
só não existe no Brasil. Na Europa todinha já existe. Os
filmes na Espanha, França, Inglaterra... contam com apoio dos grandes veículos
de televisão. Nós todos daqui, da Casa do Cinema, temos nossos projetos
voltados para TV. Aqui em Porto Alegre tem a TRS, eu faço alguns trabalhos
para a própria Rede Globo também, e são coisas legais que
nós temos feito.
"Tolerância",
seu último filme, teve a atenção que merecia?
Estou satisfeito com o reconhecimento que
teve. Tenho uma bela coleção de criticas positivas sobre o filme.
A Columbia [distribuidora do filme] fez o tipo de lançamento que tinha
que fazer mesmo, quando ele foi lançado foi como deveria ser. Eles passaram
apenas do sudeste pra cá, mas isso são estratégias da Columbia.
Chegou uma hora em que eu fiquei de saco cheio de dar tanta entrevista, isso logo
que saiu o filme [novembro e dezembro do ano passado], queria ir para casa,
sentar na frente do computador e escrever mais roteiros.
Qual seu mais novo
projeto?
Como estou fazendo minha pós-graduação
agora, em cinema, devo fazer um filme pouco mais experimental, mas isso são
apenas planos, algumas anotações. Da Casa do Cinema, saiu o longa-metragem
do Jorge Furtado "Houve uma vez dois verões".
Está satisfeito
com o reconhecimento que há do seu trabalho? Ou você esperava mais?
Estou satisfeito, faço cinema há
muito tempo, eu vejo o cinema como algo muito importante, não é
a coisa mais importante da minha vida, mas é muito bom fazer filme com
meus amigos. Eu ficaria frustrado se não pudesse mais fazer filmes. Eu
nunca me importei em fazer sucesso, me preocupo em fazer um bom trabalho, escrever
um bom roteiro, fazer um bom filme... |