O mar
por Ana Cecília Del Mônaco


O MAR é um filme violento.  Explora as pessoas que carregam consigo feridas profundas. Ramallo, Tur e Francisca, testemunham, quando ainda crianças, uma vingança brutal de um colega sobre outro, em razão da morte do pai. É uma cena chocante. Infância prejudicada. Marcas profundas.

O pano de fundo da vingança infantil é a guerra civil espanhola, década de trinta. As três testemunhas dessa tragédia, acabam se encontrando, dez anos mais tarde, num sanatório masculino para tuberculosos. Francisca está lá porque é freira e trabalha como enfermeira.

O ambiente é depressivo, os garotos caminham para a morte. Ramallo e Tur são dúbios em sua sexualidade. Ramallo é viril, sua culpa encontra válvula de escape na violência. Tur é frágil, e por sua vez se apega à religião de forma distorcida e fanática.. As cenas possuem plasticidade e força.  
 

As atitudes extremas dos dois rapazes provocam mais tragédias. Não poderia ser diferente, afinal, como bem me lembro daquela situação em “Perdas e Danos”, onde Juliette Binoche fala que ‘pessoas feridas são perigosas’. Perigosas, como uma caldeira a ponto de explodir. 

A água é sempre convocada para acalmar os ânimos, mais exatamente o mar. Estar submerso (em várias cenas Tur e Ramallo estão submersos em banheiras) num lugar de profundo silêncio onde toda a tranqüilidade apagaria a dor do passado e a culpa atual, sugerem a  volta ao útero.

O MAR (EL MAR)
Espanha, 1999, 107 min.

Direção: Augustín Villaronga
Elenco: Bruno Bergonzini, Roger Casamajor, Antonia Torrens, Juli Mira, Simon Andreu, participação de Angela Molina.