Liam
por Ana Cecília Del Mônaco
anaceciliadmm@hotmail.com

Há uma 'onda' no cinema do Reino Unido de falar sobre a classe operária. "Nó na garganta", "Ou Tudo ou Nada", "Angela’s Ashes", só para citar alguns dos mais recentes filmes que evocam o tema, assim como este "Liam". 'Esquentar'  um pouco o foco deve ser sinônimo de Almodovar para os ingleses. 

Stephen Frears, diretor de "Alta Fidelidade", volta e meia aparece com uma produção 'hollywoodiana', tipo "Herói por Acidente", "Ligações Perigosas", "Mary Reilly". O ponto em comum é o humor irônico, em situações adversas, o que faz dele um tragicômico. Fez também: "A Grande Família", "Minha Adorável Lavanderia" e "Os Imorais". Em "Liam" ele volta à Inglaterra. 

Liam tem 7 anos e é o caçula de sua família. Em Liverpool, nos anos 30, vivem, o garoto e sua família, num bairro da classe operária católica. Seu pai trabalha num estaleiro e sua mãe é dona-de-casa. Os irmãos mais velhos, Con e Teresa, trabalham para ajudar nas despesas da casa.  

Levam uma vida sacrificada, mas pontuada por momentos de comemoração, alegria. Subitamente a música cessa, pois o pai perde o emprego e a situação se torna mais difícil ainda.  

Apesar da desgraça em que se encontra a família, penhorando tudo o que pode, há um aspecto no filme agarra o público sem ser sentimentalista, apesar de uma trilha sonora que aponta para o melodrama: O lado irônico da interpretação infantil sobre a cruel realidade impede que o filme seja um apelo às lágrimas.   

Como estamos diante da ótica do garoto, todos os outros personagens são caricaturais, por vezes a câmera está em 'contra-plongée', ou seja, o garoto assistindo aos conflitos familiares com sua pequena estatura. O tom de nostalgia  também é marcado pela forte granulação da imagem.  

A filha Teresa, trabalhando numa casa de judeus, mostra o lado abundante e ensolarado da cidade, já que,  eles são, em maioria, donos das lojas de penhores, agiotas e ganham muito com a situação das famílias operárias. O pai se revolta contra a abundância destas famílias e encontra no fascismo uma válvula de escape para seu inconformismo.  A  conseqüência do radicalismo em sua nova atitude é desastrosa. 

Ponto forte na história do garoto e da família é a religião. Na escola ele assiste às aulas de catecismo e se prepara para a primeira comunhão. Começam seus questionamentos sobre as diferenças de sexo. Surge a culpa com as  primeiras descobertas. O formato das aulas é o do terror, há constante ameaça do fogo do inferno. A imaginação fértil do garoto produz as seqüências mais engraçadas. 

O ator Anthony Borrows (Liam), é uma graça, desprotegido ao extremo é a personificação da ingenuidade.   

(Liam, Grã-Bretanha, 2000, 90 min) Direção: Stephen Frears  
Elenco: Ian Heart (pai), Claire Hackett (Mãe), Anthony Borrows (Liam), David Heart – IV (Con), Megan Burns (Teresa), Anne Reid (Sra. Abernathy), Russel Dixon (Padre Ryan), Julia Deakin (Tia Aggie), Andrew Schofield (Tio Tom), Bernadette Shortt (Lizzie), David Carey III (marido de Lizzie)