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A
poesia de "Lavoura Arcaica"
por Angélica
Bito
Escrever uma poesia nunca é fácil,
mesmo para os mais inspirados. É necessário escolher as palavras
certas e colocá-las no lugar correto. Isso na linguagem escrita,
por que em outra o processo é mais complexo ainda. Neste caso, tratemos
da cinematográfica. Luz e sombra, texto e interpretação
devem ser bem colocados, e escolhidos, para que a obra-prima imaginada
na cabeça do diretor seja obtida na telona. E este é o mérito
de Luiz Fernando Carvalho, que leva às telas sua poesia cinematográfica,
Lavoura Arcaica. Carvalho é estreante no cinema. Antes deste
filme, ele dirigiu a bela série Os Maias, na Rede Globo.
Lavoura Arcaica trata-se de
uma família e de como ela pode nos sufocar. André é
um jovem que desde pequeno vive em uma fazenda. Nascido em família
de libaneses, convive com os costumes e com as festas dessa cultura. No
entanto, está sempre sozinho, sente-se constantemente fora de seu
lugar, como se não pertencesse a tudo aquilo. O bosque é
sei refúgio, onde André "escapava aos olhos apreensivos da
família", como explica.
Os sermões do pai antes das
refeições e o excesso de carinhos vindos da mãe acabam
por sufoca-lo e, se não fosse as tardes no bosque, sob a relva seca
e deitado na terra úmida, a loucura viria antes. A paixão
incestuosa pela irmã Ana somente acentua esse sentimento de sentir-se
fora de sintonia em relação aos outros.
André passa seus dias na lavoura
- de onde a família tira seu sustento -, ordenhando carneiros e
brincando no bosque da fazenda. Entretanto, isso não é tudo.
Havia todo um mundo acontecendo fora dos domínios da fazenda, e
era disso que André sentia falta. Ele acaba saindo de casa,
mas Pedro, o irmão mais velho, sai a sua procura para trazê-lo
de volta à família.
Na pele de André está
Selton Mello, um belo exemplo de ator jovem que tem algo a mostrar no cinema.
Mello já disse a que veio em O Auto da Compadecida e segurou muito
bem as pontas ao viver André, um personagem com grande carga dramática.
O olhar de Mello consegue nos passar toda a angústia vivida por
André.
O filme é baseado no livro
de Raduan Rassar. Lavoura Arcaica, junto de Um Copo de Cólera,
são os dois únicos romances escritos por Rassar, e ambos
foram transpostos às telas. Neste caso, o texto do livro foi bastante
preservado. Diálogos, pensamentos, tudo está lá. Como
o livro já é uma obra primorosa, nas telas funciona muito
bem. Tanto que, depois de assistir ao filme, você fatalmente sentirá
vontade de, no mínimo, dar uma passada de olhos no livro, por mera
curiosidade e encantamento pelo roteiro.
Luiz Fernando Carvalho conseguiu fazer
de Lavoura Arcaica o mais belo exemplo de como fotografia, direção
de arte um bom roteiro e talentosos atores podem fazer de um filme uma
verdadeira obra de arte. E nos faz ficar cada vez mais orgulhosos do bom
momento do cinema nacional, seja em quantidade de filmes, seja na qualidade
dos trabalhos.
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