Os incompreendidos
por
Renata Gonçalves
“A
enorme diferença que existe entre o universo dos adolescentes e
dos adultos é expressa de maneira admirrável nessa frase
de Cocteau em Les enfants terribles: ‘Como nas escolas não havia
pena de morte, expulsaram Dargelos"
entrevista de François
Truffaut, Arts, 3 de junho de 1959
No tempo em que a expressão
“filmes de diretor” tinha validade, notava-se, a cada quadro, pedaços
da vida – real ou idealizada – do autor. Um dos maiores exemplos é
Os Incompreendidos, de François Truffaut, em cartaz no Cinesesc.
A história do garoto oprimido pelos pais, pelo professor – pelo
mundo, em última análise - rendeu ao diretor francês
o prêmio máximo em Cannes logo em sua estréia, em 1959.
A vida do menino Antoine Doniel,
interpretado por Jean-Pierre Léurd, é a própria vida
do cineasta. Em várias cenas, o personagem sofre a mesma infância
dolorosa de Truffaut - pais que não o compreendiam, professores
que o castigavam e a eterna paixão pelo cinema.
Para os fãs da sétima
arte, Os Incompreendidos é uma forma de se conhecer um pouco mais
a fundo a vida, ou pelo menos a infância, de François Truffaut.
Assim como Antoine, o cineasta foi criado até os oito anos pela
avó e depois devolvido aos pais quando a “ama de leite” morreu.
Pais ocupados e nervosos demais para prestar atenção em um
garoto de onze anos. Pais que mal se falavam.
Como característica do cineasta,
o filme não mostra cenas de raiva ou violência –exceto pelos
tapas na cara que Antoine levava ora dos pais ora dos professores (a cena
em que o pai de Antoine dá um tapa na cara do filho na frente de
toda a classe tem um quê hitchcockiano interessante, e que demonstra
a admiração de Truffaut pelo cineasta).
Mas a questão central
vai além de uma infância triste e incompreendida e parte da
indiferença dos adultos (visão do próprio Truffaut)
pelas crianças de um modo geral. As coincidências entre vida
e obra são nítidas. Antoine se assemelha em quase tudo a
Truffaut, que assim como o menino foi preso por “vagabundagem e roubo”
e passou dois dias na prisão ao lado de prostitutas. .
A fuga constante do menino, sempre
correndo em quase todas as seqüências do filme, é a fuga
de Truffaut, que afirmava guardar da infância uma angústia
terrível. Sempre solitário, Antoine- alter ego de Truffaut-
tinha um único amigo que tentava ajudá-lo em vão nas
horas mais difíceis.
A tomada em que René
tenta visitar o garoto no reformatório e é impedido de entrar,
emociona o expectador- as duas crianças se olhando através
de um vidro e sem poder dizer uma palavra.
Como a obra imita muitas vezes
a vida, Truffaut passou pela mesma experiência quando seu amigo Robert
Lachenay atravessou toda a Alemanha para tentar revê-lo num asilo
e assim como René, foi impedido. As peculiaridades não param
por aí: quem conhece um pouco a vida do cineasta francês certamente
reconhecerá em Antoine a figura de Truffaut, até mesmo na
adoração por Balzac.
O expectador que já foi criança
com certeza reconhecerá na obra traços também de sua
própria vida, que pode não ter sido tão dolorosa,
mas que traz imagens de desprezo, gozação e horas infinitas
de solidão.
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