"Uma Lição de Amor"
Por Marcelo Silva Costa

Uma das funções mais crueis de quem gosta de cinema, ou música, ou literatura, e escreve sobre isso, é quando o assunto a ser discutido é cheio de boas intenções, mas, na prática, não funciona. O ditado diria, "de boas intenções o inferno está cheio", mas mesmo assim é cruel demais apontar os defeitos de outro, quando este outro se mostrou cheio de boas intenções em seu projeto. 

Essa introdução lacrimosa é espelho de "I am Sam", tragicamente chamado no Brasil de "Uma Lição de Amor". A história é bonitinha, os atores se saem bem, algumas sacadas empolgam, as citações são ultra-cool, a trilha é sensacional, mas... tudo isso junto não faz o filme empolgar. Culpa de um roteiro cheio de buracos e do abuso de cenas dramaticas que acabaram tornando o filme longo demais (133 minutos). 

A história é bonitinha. Sam Dawson (Sean Penn),  um adulto com a idade mental de uma criança de sete anos, torna-se pai. E, pior, pai solteiro. O filme conta a história das dificuldades de Sam para criar sua filha Lucy. Dramão, né. Você ainda não viu nada. 

Sam é interpretado por Sean Penn, que tem arrancado elogios entusiasmados de todos os lados e é um dos favoritos ao Oscar 2002 de ator principal. Bem, sorry por não fazer parte do lobby, mas a atuação de Penn é um tanto caricata, chegando a enjoar o espectador. Ok, o personagem é caricato, e a atuação de Sean sofre com essa falha de roteiro. Mesmo assim, não me convenceu. Já a garotinha Lucy ganha vida na pele de Dakota Fanning. Sua Lucy é uma criança normal que descobre que é mais esperta que o pai doente. E tudo que surge dessa descoberta soa o mais natural possível. Ponto para a menina. E temos Michelle Pfeiffer... sim. Alias, o melhor momento do filme é dela, um trecho solo histérico em que ela entrega-se ao seu personagem ultra-caricato, como os outros. 

Algum problema há em um filme que parece querer se prestar a elevar as qualidades de pessoas deficientes, mas acaba tendo seus momentos mais engraçados quando alguns desses defeitos são expostos sem a menor intenção de humor negro. Assim, um trecho poético como quando Sam e seus amigos decidem comprar um sapato para Lucy e saem da sapataria, todos, com balões laranjas, a andar pela rua, perde-se na busca do riso fácil. 

Um dos poucos pontos legais dos filmes são as citações de músicas dos Beatles que pintam aqui e ali. Chegam a soar como curiosidade, apenas. Se viessem só as citações, talvez fosse tudo melhor. Alias, as citações e a trilha sonora, claro. Muito pouco, convenhamos. 


Trilha Sonora
Um tributo disfarçado
por Carlos Eduardo Lima

Uma sucessão de 17 covers de canções dos Beatles fazem de I Am Sam um fato incomum na indústria fonográfica moderna. Versões dos Beatles passaram a ser raras desde quando Michael Jackson arrematou os direitos autorais do grupo no início da década de 80. Desde então não vimos uma só música do Fab Four em trilhas de filmes, compilações ou algo no gênero. A grande saída para isso foi convidar artistas contemporâneos para interpretarem as 
músicas, cada um a seu jeito.  

É um tributo disfarçado, mas que guarda grandes revelações. Se você pensa que as músicas escolhidas para a trilha são só os sucessos fáceis do inconsciente coletivo, enganou-se. Pelo contrário, a maioria das músicas são do período pós-65, ou seja, a época em que o quarteto começava a experimentar. Mas, você deve estar se perguntando, por que fazer um tributo aos Beatles na trilha de um filme? Simples. A narrativa levada à tela é uma mistura de "Kramer vs Kramer" e "Forrest Gump".  

Sam, vivido pelo maravilhoso Sean Penn é um sujeito com idade mental de 7 anos, mas que luta na justiça para ter a guarda da filha pequena. Michelle Pfeiffer é sua advogada. Sam, na sua ingenuidade ímpar, acredita que as músicas dos Beatles trazem mensagens de sabedoria e as cita pelo filme adentro, em inesperadas referências à cultura pop. Mesmo que o tema "adulto" nos prive da vivência, é uma delícia ver alguém tendo coragem de dizer que as músicas dos Beatles são tão importantes assim. Se chegam a trazer mensagens de sabedoria ou não, depende de cada ouvinte, mas o deleite de ouví-las traz a sabedoria do ato de ouvir boa música.  

Então, que tal a versão do menino prodígio canadense Rufus Wainwright para "Across The Universe"? Ou a redenção de Paul Westerberg (ex-fundador dos seminais Replacements) em "Nowhere Man"? Ou ainda Eddie Vedder solitário em "You’ve Got To Hide Your Love Away"? A lista ainda traz Ben Folds (exorcizando Paul McCartney dentro de si em "Golden Slumbers"), Black Crowes, Ben Harper, Wallflowers, Grandaddy, Nick Cave (refazendo "Let It Be"), Stereophonics, entre outros.  Obrigatório.