Isso é só o Amor
por Alexandre Petillo

Cool, hein? 
Viajar mais de cem quilômetros para assistir um filme europeu. 
The Million Dollar Hotel, direção de Win Wenders, sobre roteiro de Bono, o irlandês líder do U2.

A fauna na sala de exibição era como a arca de Noé: uma espécime de cada raça. Tinha um casal de lésbicas, um britkid com aquele corte de cabelo a la Noel Galagher, um casal de universitário metido a intelectuais – esses a gente reconhece pelo despojamento planejado com que montam seu estilo de vestir - , uma patricinha (que saiu antes do filme acabar) e eu, o crítico cinematográfico independente.

Cool, hein? 
As críticas em relação ao filme foram negativas em sua esmagadora maioria. Injustiça, existem filmes bem piores que receberam o aval da mídia. 
Win Wenders, Milos Forman, Martin Scorcese, Peter Weir, são exemplos de cineastas que a mídia convencionou em nunca mais reconhecer que fizeram grandes filmes. Eternamente serão lembrados por seus grandes êxitos, relegando, para sempre, os novos filmes, sejam bons ou ruins, ao purgatório da sétima arte.

Mas Wenders – assim como os outros diretores citados – teimam em continuar fazendo seus filmes da mesma maneira, gostem ou não. São remanescentes do "cinema orgânico", que lançam mão dos efeitos e recursos especiais para jogar na cara do espectador a vida real, aquela com que ele vai enfrentar quando sair da sala do cinema. Sem apelar para o riso fácil ou para o melodrama cínico onde o herói sempre vence, Wenders limita-se a fazer filmes sobre pessoas que estão a um passo entre afundar-se cada vez mais na lama ou cometer algum ato heróico. Personagens muito parecidos com aqueles que habitam as músicas de Lou Reed e do Velvet Underground . Não por acaso, "Satellite Of Love", de Reed, faz parte da trilha sonora do filme, e aparece duas vezes no disco, uma vez com a atriz Milla Jonovich solo, e depois num dueto com Bono.

O Hotel de Um Milhão de Dólares é apenas isso, uma história de amor, de gente estranha e esquisita, capaz de morrer e matar por uma paixão. A seqüência inicial é belíssima. A câmera passeia pelos telhados impávidos de Los Angeles, iluminados pelo nascer do sol, ao som de The First Time do U2. I Have a Lover/A Lover like no other/She got a sweet soul. É o cenário, da corrida de Tom Tom, o personagem central, rumo a percepção. Telhado abaixo ele, um retardado, percebe o quanto a vida é perfeita, afinal, ela é cheia de surpresas, sensações, momentos, sentimentos e televisão.

Ok, a história. O filho de um figurão da mídia norte-americana morre sob circunstâncias misteriosas, sendo destacado para apurar o fato e evitar um escândalo o agente especial Skinner do FBI, interpretado por um Mel Gibson ainda pouco a vontade com a atmosfera do cinema independente. Tom Tom (Jeremy Daves), melhor amigo do defunto e um dos principais suspeitos do crime, tem como único objetivo de vida tocar o coração de Eloise (Milla Jonovich), uma prostituta drogada, que segunda ela própria, nem mesmo existe, é apenas uma ficção. Os outros personagens, todos insanos, só buscam o amor, cada um a sua maneira. Tudo bem, no roteiro existem algumas situações dispensáveis e a câmera nervosa de Wenders – ora lenta, ora agitada - , já não é mais novidade .

Mas é tudo coisa de doido. Numa era, onde o hedonismo impera, que se realizam festas intermináveis de culto ao nada, num caos planejado e sem graça, de individualismo a qualquer preço, amar, indiscriminadamente, é só para loucos. 
O filme é Ok, não vai mudar a nossa vida, nem será um clássico instantâneo. O final também é belo, afinal, é só o amor no ano 2000, impossível e trágico, com Eloise, uma Julieta louca e drogada, vendo desaparecer sua única chance de ser sã. 
No cinema atual, no show-business, cada vez mais business do que show, o Hotel de Um Milhão de Dólares é um bom lugar para se passar a noite. 
Cool, hein?