Recomendado Para Crianças até 85 anos.
por hugo

Já li em algum lugar, que o segredo de escrever (ou compor, ou filmar) para crianças é respeitá-las e não tratá-las como idiotas.

Mas, advinhe, isso vale para qualquer faixa etária e por isso, se essa lei for respeitada o resultado é sempre o mesmo: diversão da melhor qualidade.

O Grinch vai na melhor tradição dos Simpsons, Pernalonga, Pica-pau, Papa-léguas, Tom & Jerry e O Anjo da Guarda. Todas essas, obras inteligentes e sensíveis que formam o caráter e divertem. E isso serve para crianças de todas as idades.

É verdade que o Grinch (personagem de livros infantis, que é sucesso há 50 anos ou mais, nos EUA) é coisa típica de americano, daquelas que eles fazem questão de enfiar goela abaixo do resto do mundo; mas agora é tarde para reclamar: há algum símbolo natalino genuinamente brasileiro (e isso, só para ficar no Natal)? Pois então, relaxe e ... ah, você sabe ...

Bom, a história é uma gracinha: estamos em Quem-lândia (Who-ville), que fica, acredite, em um floco de neve (não disse que era uma gracinha?), onde nasce o Grinch, que mesmo lá, onde todos são feios e esquisitos, é desprezado por ser feio, esquisito, verde e peludo. Depois de várias humilhações durante a infância, ele foge para as montanhas para viver isolado de todos. Mas, Cindy Lou (super-fofa!), uma das crianças da cidade, não se conforma com isso, pois acha que o Grinch, no fundo, é uma boa pessoa. E ela tanto insiste, que consegue convencer a cidade a convidá-lo, e ele a participar da festa de Natal. Só que as coisas não saem como todos queriam, e o Grinch, depois de arrasar a cidade, ainda jura vingança, por ver que todos ainda teimam em comemorar o Natal, apesar de tudo.

E aqui, faço uma pausa para falar um pouco mais dessa primeira metade do filme, que é a melhor. Jim Carrey, que interpreta o Grinch, simplesmente arrasa. Em alguns momentos, pela natureza do personagem (assim como em O Maskara), dá para matar a vontade de vê-lo no papel para o qual ele nasceu, o de Coringa (e pensar que há quem tenha se contentado com o Jack Nicholson ...); sem contar que ele está à vontade no personagem que ele faz melhor, o de desenho animado vivo.

Com exceção da seqüência que mostra a infância do Grinch (que é muito boa também), o filme é dele, e dele são todas as melhores cenas: quando Cindy vai visitá-lo para convidá-lo; quando ele, depois de expulsá-la, tenta decidir se vai ou não (e com que roupa) à festa, num show-solo espetacular; e já na festa, quando ele vira o rei da noite. As cenas em que o Grinch ganha (roubando, claro) uma corrida de sacos contra várias crianças, cruzando a linha de chegada em câmera lenta ao som do tema de Carruagens de Fogo e quando ele bate o carro (detalhe: de brinquedo) que dirigia, e tem que fugir desesperadamente, mas também em câmera lenta, enquanto o automóvel explode em uma bola de fogo atrás dele, são absurdas de tão inteligentemente engraçadas, na forma como satirizam alguns clichês.

Na segunda metade, quando o Grinch decide roubar o Natal, o filme perde como divertimento, saindo o humor algo cafajeste do início, e entrando a pieguice, pois está na hora da mensagem para as crianças, não é mesmo?
E aqui, vamos passar por cima dos apelos de mais autenticidade no Natal e contra o comercialismo da data, porque, mesmo há 50 anos atrás, nem a velhinha de Taubaté cairia nessa, quanto mais as crianças de hoje em dia. No entanto, também não vou ser chato, e falar que há uma mensagem subliminar e conservadora a favor do conformismo e contra a rebeldia; pois, como disse, é bastante sutil e, afinal, o filme é para crianças ...

Não, prefiro ser otimista e pensar que as crianças vão aprender a compreender e aceitar quem deseja ser diferente e que, por isso, não se encaixa em um grupo ou na sociedade.
Sei lá, deve ser o Natal ... mas fiquei imaginando que se tivesse um filho, eu pediria a ele para me levar ao cinema para ver esse filme. Ou será o contrário?

hugo ( hugolt@hotmail.com ) colabora com este zine e sabe que esse filme só é legal por que é com o Jim Carrey; pois se fosse com o Robin Williams, seria um porre!