Uma
Granja do Tamanho do Seu Mundo
por
hugo
Peter
Lord e Nick Park, a dupla reponsável por A Fuga das Galinhas, e
que já fazia um certo sucesso marginal até agora (têm,
em conjunto, cinco oscars, sempre na gategoria curta de animação),
chegam finalmente ao estrelato.
Assinaram com Spielberg um contrato
de cinco filmes, sendo que este (depois de dois anos de trabalho) é
apenas o primeiro a chegar às telonas, um pouco antes de Wallace
& Gromit de Nick (série - advinhe! - de animação
de massinha que tem dois dos três episódios "oscarados") chegar
às telinhas brasileiras via TV a cabo, pelo canal Locomotion, com
apresentação no dia 18 de fevereiro às 20 h e representação
dia 21 de março às 22 h.
E se você não está
a par do que se trata, e por "animação de massinha" conhece
só aqueles simpáticos filminhos que passavam na Cultura há
alguns anos atrás, saiba que a coisa evoluiu assustadoramente. Com
movimentos complexos e sutis, além de cenários detalhistas
e grandiosos (além de uns retoques por computador, é claro,
que ninguém é de ferro), esta técnica de animação,
atualmente, demonstra com A Fuga Das Galinhas, ter chegado às raias
da perfeição. Tanto que é fácil se esquecer
do que se trata, e embarcar na história como se fosse um filme de
verdade.
Mas ... ôpa, peraí: é
um filme mesmo! Um anacrônico e bem-humorado filme de prisioneiros
de guerra, como há tempos não se fazia, da mesma forma como
há tempos não se faz um filme de gladiadores. A granja em
que vivem as galinhas, no interior da Inglaterra, tem todo o clima (e clichês)
encontráveis em um filme de campo de concetração da
2ª Guerra. Os donos da granja, com as suas experimentações
alternativas para se ganhar dinheiro, são perfeitos médicos
nazistas e o destino final escolhido por eles para as galinhas, é
tão assustador quanto uma câmara de gás.
Simplesmente
não há como não gostar de A Fuga das Galinhas.
Se você
for, ou quiser se divertir como uma criança, há todas as
piadas para isso, aquelas mesmas que há em todo desenho animado.
Da parte dos seres humanos, há a granjeira durona que domina o marido
burro e passivo, e entre os animais, há os ratos malandros que são
enganados; há a galinha esperta, a intelectual, a idiota, a idealista
e a cínica e há o galo velho, orgulhoso e bravateiro, bem
como o seu rival forasteiro (tão americano, que é dublado
no original pelo Mel Gibson), jovem, bonito, covarde e mentiroso, mas que,
é claro, vai se redimir no final; e há os animais colaboradores:
cães, é claro.
Diversão
com um pouco mais de cérebro? Tem também: no quesito citações
cinematográficas, só para ficar em uma certa implicância
com o Harrisson Ford, tem gozações espertas com Indiana Jones
e Força Aérea 1.
Agora, se você
é um chato, quer um pouco mais de conseqüência e está
resmungando alguma coisa sobre a oportunidade que se perdeu para se fazer
um A Revolução dos Bichos atual, saiba que tem isso também.
Além dos paralelos óbvios (uma granja situada no interior
da Inglaterra, administrada por humanos malvados e ambientada vagamente
nos anos 50), vale lembrar que a história é, sobretudo, a
respeito de liberdade e de como sempre tem alguém querendo tirá-la
de você.
E sobre isso,
nesses tempos de fóruns anti e pró globalização,
é legal ouvir em um filme infantil, duas galinhas (as mesmas que
foram, junto com as ovelhas, transformadas em símbolos de alienação
política por George Orwell) discutirem sobre as vantagens de uma
fuga; e enquanto uma diz que acha que terá uma vida honrada se viver
e morrer para servir aos humanos, a outra sustenta que prefere arriscar
uma fuga impossível que a levará para o mundo desconhecido
que há por trás dos morros que cercam a granja. Muito romântico,
mas é disso que precisamos.
hugo
( hugolt@hotmail.com ) colabora
com este zine e considera que sacanear o patrão é um dever
básico do trabalhador. |