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Quinze
Minutos de Fama...
por
Marcelo Silva Costa
No meio da noite, uma criança
chora. O pai vem lhe dar colo, e diz: "Marva, você será um
estrela". Essa frase é um resumo do excelente "Fama para Todos",
do diretor belga Dominique Deruddere, uma genial paródia sobre a
indústria do sucesso, a obsessão pela fama e as armadilhas
da mídia.
Jean (Josse de Pauw) é um simples
operário belga de uma fábrica de garrafas de vidro que passa
seus dias compondo canções flamencas para que sua filha,
Marva, cante. Marva, como a maioria das adolescentes em todo o mundo, quer
mesmo é ser Madonna. Mas a beleza de Marva está mais para
o pintor colombiano Fernando Botero do que para a popstar norte-americana.
A rotina de pai e filha é obsessiva.
O pai acredita cegamente no potencial da filha. A filha angustia-se com
a pressão paterna. Os dois caminham em um choque cujas faíscas
são apresentadas ao vivo, em concursos musicais que Marva é
constantemente ridicularizada e consegue sempre como nota máxima...
2.
Tudo muda da noite para o dia. Em
um golpe de sorte do destino, Jean seqüestra a principal cantora pop
do país, Debbie. Na negociação de resgate com o produtor
de Debbie, Jean não pede dinheiro. Ele quer uma canção
sua gravada. O produtor de Debbie, Michael Jansen (Victor Low), também
dirige um dos programas top da televisão local, e, num arremedo
de inteligência com falta de escrúpulos, manipula toda a situação,
de forma a conseguir maior audiência para o programa e uma venda
maior de cds de sua artista contratada. É
a indústria cultural apresentada em sua forma mais crua: a de manipuladora
de desejos. Os falsos Michael Jackson, Freddie Mercury e Madonna buscando
um lugar com suas imitações de quinta categoria que o digam.
O grande trunfo de Deruddere é
não levar toda essa história a sério. Desse jeito,
rindo de si mesmo, "Fama para todos" contagia e diverte, representando
uma pequena fábula dos tempos atuais. A ingenuidade da história
justifica-se. Tudo se encaixa perfeitamente e a "não violência"
comove. É tudo certinho demais, como nos melhores contos de fada.
Só que, se em um conto de fadas a garota está sempre a espera
de um principe encantado, aqui ela só quer ser a Madonna. Milagres
acontecem, toda hora, em sonhos.
"Fama para Todos" esteve na
24ª Mostra de Cinema de São Paulo e concorreu ao Oscar de Filme
Estrangeiro (o vencedor foi "O Tigre e o Dragão). É entretenimento
inocente e, por isso, divertido.
...mais
um pros comerciais
por
Ana Cecília Del Mônaco
O
filme de Dominique Deruddere, cineasta belga, quer ser uma comédia
que agrade o público acostumado com o cinema americano e que tenha
uma lição de fundo. Concorreu ao Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro, categoria onde o vencedor foi O Tigre e o Dragão
de Ang Lee.
A ação ocorre em ‘alguma
cidade belga’. Jean Vereecken, um operário que passa o dia conferindo
garrafas de vidro numa fábrica, sonha com o sucesso da filha Marva
no concorrido mundo dos espetáculos. Esta, uma freqüentadora
assídua de ‘shows’ de imitação, também sonha
em cantar e ser uma estrela como Vanessa Paradis e Madonna. Na família
Vereecken, a única pessoa que parece se conformar com a realidade
suburbana é a mãe, Chantal.
Jean decide apostar todas as fichas
no suposto talento da filha, quando a fábrica em que trabalha, ‘de
repente’ vai à falência, e ele perde o emprego. Eis que ‘de
repente’, ele cruza com a cantora de maior sucesso na Bélgica,
Debbie, e decide seqüestrá-la.
Pede cumplicidade ao jovem amigo ‘bonzinho’,
Willy van Outreve, que também perdeu emprego no fechamento da fábrica,
para que tome conta de Debbie, num cativeiro que ele alugou com nome falso
(putz, como é fácil na Bélgica!).
O plano segue com a chantagem ao empresário
da cantora, Michael Jansen, ‘malvado e sem-escrúpulos’ (Victor
Low, que aliás é a atuação do filme) a condição
é que ele faça de Marva uma estrela, para que Debbie seja
devolvida. Aí então, o roteiro começa a ‘pegar no
tranco’ e algumas situações funcionam muito bem. (Atenção:
a cena do primeiro encontro de Jean e do empresário é muito,
mas muito engraçada!)
O diretor faz uma ironia sobre os
bastidores dos meios de comunicação de massa, em específico
aqui, à televisão, que fabrica mitos muito mais rapidamente
do que o cinema os fabricava antes de seu surgimento; que constrói
notícias e as explora ao máximo, distorcendo informações
e dessa forma controlando o imaginário da sociedade.
Chama a atenção para
a fixação que as pessoas têm por se tornarem
conhecidas e terem a própria imagem projetada a milhares de outras.
Brinca com a idéia do que é capaz de fazer um ser humano
para alcançar esse sucesso, colocando a máscara exigida,
inventando a ‘persona’. Como se dá a manipulação por
meio dessa ‘máquina’ que mistura publicidade com notícia,
talento com fama e que abriga os ‘habitantes perfeitos do mundo artístico’,
como seus produtos.
Os atos de Jean são desmedidos
e os da filha também, sendo que ela não é bem sucedida
quando tenta imitar, outras cantoras. Numa cena do filme ela canta de forma
magnífica, mas escondida, em um teatro de fantoches, pois não
está preocupada com o que as pessoas podem pensar sobre sua aparência
(Marva é gordinha).
Quanto às ironias, o diretor
é muito bem sucedido, pena que a trama não se sustente. Temos
que assistir ao filme relacionando as ações aos ‘contos de
fadas’, em que para dar a lição de moral, o autor inventa
uma trama meio absurda mas passa sua idéia. Nos ‘contos de fadas’
o sonho da princesa era se casar, hoje é ser ‘superstar’.
Podemos também (forçando
um pouco a barra), fazer a relação em que o fato de Jean
ter como (ex-)trabalho, a rotina de conferir defeitos em garrafas de vidro
seja proposital à sua fixação pela imagem, perfeição.
Ao mesmo tempo que não enxerga as vias erradas pelas quais empurra
a filha ao ‘estrelato’, querendo que ela seja algo que não é,
nada transparente..
Fica a questão: Será
que estamos burocráticos e complicados demais para embarcarmos numa
história simplista?
Sugestão: Vale a pena assistir
Fama Para Todos!, e correr para alugar O Rei da Comédia de
Martin Scorsese. Dupla sessão em que, no segundo filme, a ótica
sobre a fixação pela notoriedade é mais pessimista. |