Entrevista
com Anne Fontaine
cedida
por Pandora Filmes
Lavagem à
Seco é forte. É um filme deixa a platéia sob pressão.
Você planejou “colocar o espectador contra a parede”, por assim dizer?
Sim, eu sempre penso que se o filme
tem que funcionar,que pelo efeito de scouring powder. O título
veio à mente muito cedo, e pode, obviamente, ser interpretado de
diversas formas. Acho que uma das grandes qualidades do filme é
a sua capacidade de pegar o público de surpresa, uma vez que, a
primeira reação é a imediata identificação
com o casal protagonista, que é muito comum. Eu queria fazer com
que todos fossem ficando inquietos, mas gradualmente, sem “forçar
a barra” em nenhuma situação. Acredito que os efeitos são
mais poderosos quando não são apelativos. Sinceramente espero
que Lavagem à Seco não seja visto como filme histérico,
mas sim como violento, de uma maneira sóbria e perniciosa. O filme
começa de maneira suave; o público deve ser cativado pelo
filme da mesma maneira com que o casal central se permite embarcar na improvável
aventura, o encontro entre duas pessoas muito tradicionais e um par de
“notívagos”. Jean-Marie e Nicole são extremamente "certinhos",
são pessoas comuns, que não contém um milímetro
sequer de contravenção em sua composição. A
idéia de que o correto casal acolha um travesti em seu lar é
realmente inacreditável. E a minha intenção foi exatamente
tornar a situação plausível.
A princípio, Loïc e
sua irmã inspiram mais curiosidade do que desconfiança.
Apesar de serem amadores, fazem número
de “cabaret” de primeira linha, o que penso ser importante para atribuir
uma justificativa à boa impressão causada em Jean-Marie e
Nicole. Quando chegam, em quatro, no quarto de hotel algumas horas depois,
ainda assim é uma situação convencional. Loïc
and Marilyn estão lá para cumprirem seu trabalho, e Jean-Marie,
para pagar a conta. É uma cena que, por si só, não
levaria a nada, mas provoca um misto de repulsa e atração
em Nicole e Jean-Marie e a ambigüidade é justamente o que principia
este desejo.
Nicole esta fascinada por este
mundo descohecido, onde a sexualidade é algo perturbador. Parece
fascinante para você também.
Eu acho que Nicole é mais convencional
do que eu, mas ela possui uma liberdade e imaginação, difíceis
de serem vistos hoje em dia, principalmente em se tratando de uma pequena
cidade como a que ela vive. Ela está quebrando barreiras;
é capaz de soltar o freio e pisar no acelerador sem temer mais nada.
Reconheço este meu lado nela. Sem a personagem Nicole nada seria
possível. Ela é o verdadeiro catalizador. Jean-Marie é
um homem de idade indeterminada que concentrou sua sexualidade em seu trabalho.
Normalmente, nada fora do comum aconteceria a ele. Não é
uma questão de inteligência, somente um lapso de imaginação
e curiosidade. A Vida a dois, com seu conjunto de hábitos, limita
inúmeras possibilidades. Quando Jean-Marie começa a se interessar
por Loïc, percebemos duas motivações para que isso aconteça:
o desejo de sua esposa deserta o próprio desejo. Se Nicole não
tivesse tido audácia, a sede por novas experiências, Jean-Marie
teria sublimado a atração por Loïc, ou poderia ter permanecido
inconsciente. Ele ama tanto a esposa que se deixa levar pelo desejo provocado
nela. Há intercâmbio.
A peculiar experiência de
Jean-Marie, passa a sensação de que você quer lutar
contra tudo o que é normal no campo da sexualidade.
O que o personagem de Jean-Marie me
faz refletir é o quanto a sexualidade é rotulada, e o quanto
as pessoas sempre são incluídas nas categorias homossexual
e heterossexual. Eu nunca entendi muito bem como heterossexuais conseguem
ser somente heterossexuais e passar pela vida toda seguindo sempre uma
linha psicológica e sexual. Lavagem à Seco não é
sobre homossexualidade, mas sobre os limites da heterossexualidade. A idéia
de uma pessoa mudar sua postura e enfrentar tudo o que está envolvido
sempre me fascinou. Sob esse aspecto a história é como eu.
Então eu não podia determinar barreiras seguras. Loïc
não se encaixa em nenhuma categoria. Ele é um homem, mas
tem a aparência andrógina. Ele não é gay, mas
possui uma ambigüidade marcante. Percebemos que ele é intrigante
como quando trabalhou como gigolô, mas sua homossexualidade só
se manifesta em relação a Jean-Marie. Lavagem à Seco
se situa na fantasia que alimenta a imaginação de todos os
casais: a fantasia de uma terceira pessoa, o elemento que falta.
Na história Loïc faz
papel de filho, amante, amigo e irmão. Todos esses papéis
parecem ter sido feitos para ele, pela virtude de seu charme e naturalidade,
e sua foca de atração cria uma permanente tensão no
filme.
Claro, é sobre um anjo. Sobre
a incursão de um anjo endiabrado e surpreendente. Há perversidade
em Loïc, mas ele nunca revela tudo, assim como os outros personagens,
que logo já são marionetes dos próprios sentimentos.
Loïc é um jovem sem família e sem raízes. Um
homem moderno, mas com nenhum dos vícios da juventude moderna. Durante
o filme, não sabemos de onde ele veio. Ele trabalha como transformista,
e depois se desintegra nesse ambiente pequeno burguês, que o faz
mais convencional do que o sensível casal que o acolhe. O personagem
que inicia a história como alguém transgressor acaba ficando
integrado, enquanto o casal “chuta” os padrões. Os papéis
estão invertidos e Loïc parece preparado para superar tudo.
Ele descobre o significado do sentimento amoroso com Jean-Marie, que também
é uma figura paternal, alguém com a consciência profissional
ele admira. Mas inconscientemente, já existe um sentimento homossexual
envolvido, o que colabora para a percepção do fato de que
Jean-Marie representa um verdadeiro Pigmalião para Loïc.
Os personagens estão em
terreno cada vez mais escorregadio. Você sugere esses deslizes com
pequenos toques. Como na cena em que, durante a noite, Nicole dança
com o vestido de Loïc dentro da lavanderia, ou a cena em que o movimento
das roupas virando na máquina, sugerem o mundo dos personagens virando
de cabeça para baixo.
Tudo começa com uma situação
muito real: Um vestido de lamê tem de ser limpo. Mas, rapidamente,
as coisas começam a degringolar para o lado mais inesperado. Apesar
dela não ter necessidade de fazê-lo, Nicole experimenta o
vestido que foi confiado a ela acaba se transformando numa metáfora
do que virá depois. Eles se entendem bem, mas a direção
sexual do casal se perde quando eles se deparam com o garoto travestido
como Sylvie Vartan e a garota como seu parceiro, Johnny Hallyday, exercem
efeito hipnótico que constrói um redemoinho do qual nenhum
dos personagens escapa.
A cena onde as roupas giram foi inspirada
por uma imagem mental: Jean-Marie vive em uma máquina de lavar.
Seu trabalho é sua vida. Como muitos homens, construiu sua vida
em torno do trabalho. Mas alguma coisa foge do seu controle. Lavagem à
Seco é um filme sobre a perda de controle. As pessoas ficam abaladas
quando enfrentam uma crise ou mudança de identidade.
Como você disse, a história
parece bem real.
Eu gostaria de imprimir verossimilhança,
mas com uma certa magia, sem o peso do realismo. Eu sempre imaginei o filme
como uma história real, nunca como uma ficção pura.
Eu bem poderia ter lido em algum pedaço de jornal “um casal, dono
de uma lavanderia a seco que...” Eu gostaria de escrevê-lo em Belfort
e tive minha inspiração de um casal dono de uma lavanderia
que nunca tiveram nada a ver algo desse tipo, mas me apresentaram à
sua arte e me passaram a impressão de como vivem. Graças
a eles, eu percebi que Jean-Marie e Nicole existiram em Belfort. Sabia
que a história teria de ser ambientada fora de Paris e teria mais
efeito se as mudanças ocorressem no dia-a-dia, no diálogo
coloquial entre um homem e uma mulher de moral rígida que nunca
revela o que está acontecendo em sua intimidade.
De onde você tirou a idéia
da lavanderia especializada em lavar a seco. – Esse mundo que parece estranho
a princípio, mas que se torna divertido com o passar do tempo?
Minha avó gerenciava uma perfumaria
em Creteil, então eu fiquei com a idéia sobre os pequenos
comerciantes com os quais convivi durante a infância. Quando entrei
na lavanderia em Belfort fiquei imediatamente inspirada pela atmosfera,
cinematograficamente falando. A maioria das pessoas que prestam serviço
de lavagem a seco é homem, mas o ofício em si é tão
feminino e sensível que chega a ser fascinante. . Estes homens
passam a vida tocando calças e tecidos, há sempre o vapor,
e o vocabulário é algo surpreendente: “assopre a braguilha”,
por exemplo. A idéia de Jean-Marie ser obcecado por manchas me agrada,
assim como muitas pessoas que eu conheci desse meio, o são. Branco,
nunca é branco o bastante para ele. Quando Loïc surge, traz
consigo uma bagunça para um mundo onde tudo tem que estar impecavelmente
nítido e limpo. Você pode imaginar o tamanho da fissura que
ocorre com esse casal, que sempre empregou muita energia aplicando as regras
da limpeza?
Como você selecionou seus
três atores: Charles Berling, Miou-Miou e a revelação
do filme, Stanislas Merhar?
Eu
escrevi o roteiro sem pensar em atores em particular. Logo pensei em Miou-Miou.
Ela é uma atriz pela qual tenho muita admiração, é
comovente e real e ao mesmo tempo, e tem um sentimento moderno e mundano
sobre si mesma que faz sua atração por Loïc totalmente
plausível. Ela acrescentou muito ao papel. Ela é extremamente
compenetrada e precisa na maneira de abraçar o personagem.
Escolher alguém para Jean-Marie
foi o maior problema. Não gostaria que fosse interpretado por um
total estranho porque achei que a platéia daria mais crédito
e se identificaria com um ator conhecido, mais prontamente. Encontrei
muitos atores e todos mostraram interesse no projeto, mas todos empacaram
diante do personagem Jean-Marie, então tocou em algo muito íntimos
deles. Eles tentaram me persuadir a mudar o final do filme. Fiquei muito
surpreendida com este medo de um ataque à própria identidade
sexual. A idéia de colocar Charles Berling veio a mim meio do nada.
Eu já havia visto seu trabalho em Ridicule, mas não tinha
ainda percebido meu Jean-Marie nele, imediatamente. Quando o conheci pessoalmente,
algo nele de repente aflorou para mim. Então, me dei conta de que
ele era um verdadeiro camaleão. Senti que poderia deixá-lo
do jeito que eu queria, mas ele também possuía charme e enorme
sensibilidade que serviriam perfeitamente ao personagem de Jean-Marie,
que eu não gostaria que fosse simplório interiorano, nem
rude.
Para o papel de Loïc, vi muitos
rapazes, mas nenhum deles realmente me inspirou com o sentimento de desejo
que eu tinha que transmitir quando o filmasse. Quando encontrei Stanislas,
que Dominique Besnehard e Sylvie Meyer viram passar, por sorte, na rua,
eu fiquei encantada pela frágil, indeterminada peculiaridade que
ele mostrou. Ele dourava madeira, na época, e atuar em um filme
era algo que nunca havia ocorrido a ele até então.
Ele nem demonstrou certeza sobre sua vontade de faze-lo. Eu tinha vertigens
quando pensava em sua falta de experiência, só então
percebi o quanto era natural e verdadeiro. Trabalhei muito com ele antes
de começar as filmagens e tentei direciona-lo sem prejudicar sua
óbvia presença em cena e seu dom natural para a atuação.
Você permite ao público
um certo conhecimento prévio dos personagens: Logo percebemos o
perigo iminente a que eles desconhecem, mas o filme nos surpreende do começo
ao fim.
Eu queria que o público tivesse
esse amparo, e fosse surpreendido e tragado para a história acompanhando
a natureza dos personagens. Teria sido injusto e muito fácil fazer
com que a platéia ficasse de sobreaviso o tempo todo. Mesmo que
eu que soubesse que os três personagens estivessem em direção
a algo mais forte que os arrastava, eu estava me sentindo arrastada junto
com eles. Nunca encarei nenhum dos três de uma forma satírica,
pitoresca e moralista. Eu realmente me afeiçoei a eles. Gilles Taurand
e eu nos certificamos que as emoções seriam sentidas profundamente.
Acho que o público não imagina o fim da história.
O final é de grande impacto.
A atitude de Nicole é particularmente desconcertante. Como você
a interpreta neste momento?
Nicole não condena o marido.
Ela transcendeu julgamentos morais. A única coisa que ela pode fazer
é ir adiante com a situação em que todos os três
já estão envolvidos. Ela “limpa a bagunça”, já
está em estado de transe. Ela foi completamente tomada. Acredito
que a verdadeira loucura está atrelada às coisas materiais.
Quando você é confrontado com um evento desta magnitude, um
repente de violência até parece convencional. Você já
ultrapassou o estágio da violência. Você está
mergulhada em si mesma, apesar de ter um turbilhão na mente. Este
é o estado que Nicole se encontra. Sem esta volta final, não
acho que a história funcione. Não se trata de um jogo. Tem
que ser encarado diretamente até o final. É um testemunho
de ambos, que permanecem unidos em uma situação anormal,
o que transfigura os personagens.
Lavagem à Seco surge como
uma surpresa depois de seus filmes anteriores. Eles também primam
pelo incomum, mas desta vez você foi muito além.
Antes de começar a dirigir,
eu era atriz. Mas não tinha idéia do que seria a direção
e nem possuía a cultura cinematográfica. Eu estava preparada
para mergulhar em um poço de ignorância!
Quando fiz Augustin, que também
é um filme sobre contrapor as barreiras, mas sob um registro completamente
diferente, Lavagem à Seco já estava na minha cabeça.
Sabia que este seria um filme sobre o mundo dos adultos a que precisava
de um pouco mais de experiência antes de assumir um trabalho dessa
potencialidade. Fui muito feliz em poder trabalhar num clima de perfeita
harmonia junto a Gilles Taurand e Caroline Champetier, que também
inspiraram o trabalho de câmera, cuja complexidade já é
uma performance. Talvez todos os meus filmes tenham em comum o fato de
terem sido iniciados de uma observação. Sou interessada em
pessoas e personagens em primeiro lugar, antes de eu me interessar pela
forma. Contudo sou uma pessoa cada vez mais apaixonada pela mise-en-scène,
gostaria que fosse notada pelo desempenho dos atores.

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