Entrevista com Dominik Moll
cedida por Pandora Filmes

Seu primeiro longa-metragem, o aclamado “Intimacy” era um romance. Harry é de um gênero completamente diferente!

“Intimacy” já esboçava a idéia de caráter, neste caso uma garota, que interferia na vida de um casal. Harry tem uma proposta similar, mas com ambientação voltada para o suspense. Tem muita tensão, humor negro, o susto e a diversão andam juntos.

De onde surgiu a idéia do personagem Harry aparecendo do nada? 

Quando comecei a pensar sobre a história, minha namorada e eu estávamos enfrentando as dificuldades da paternidade. A nossa rotina estava em constante “cheque”, devido às nossas obrigações com nossas filhas pequenas: uma infinidade de problemas práticos a serem resolvidos, pouco tempo de sono, irritação e exaustão... Sempre tem a hora em que você não agüenta mais e diz em voz alta: “Como é que fui me meter nessa fria?” Percebi que a maioria de meus amigos que tinha filhos pequenos estavam atravessando a mesma experiência. Isso me aliviou, e me fez pensar no que aconteceria se um personagem entrasse de repente na minha vida, que externasse todas as minhas dúvidas, frustrações e questionamentos, e que me confrontasse com as lógicas conclusões!

O roteiro tem muitas surpresas. Você brinca com o público. Somos confrontados com medo e riso ao mesmo tempo! 

Eu gosto de filmes que me assustam, mas que me façam gostar de sentir medo, como “O Iluminado” ou “Os Pássaros”. Os recursos de Harry são assustadores, e ao mesmo tempo entretêm. São assustadores, pois são criminosos, mas cativantes pelo poder de libertação. É muito importante não revelar o jogo antes do tempo. O papel de Harry, por exemplo, teria de ser interpretado por alguém que você goste e sinta que pode confiar. Sergi Lopez possui a afabilidade necessária para o personagem. Não gosto de filmes onde você sente o mau-caráter logo no início do filme e pressente coisas horríveis por acontecer. Não tenho a intenção de assustar a platéia. Quero capturá-la para dentro do filme fazer com que se divirtam, mesmo nas cenas assustadoras.  Só para constar, eu não estou incentivando ninguém a “dar uma de Harry” com os pais ou com a namorada! Recentemente, um ator me confessou que abandonou a esposa depois de assistir a “Intimacy”. Desde já, declaro que estou destituído de toda essa responsabilidade em relação a Harry!

O filme começa com o casal a passear de carro com as três filhas pequenas. A atmosfera de tensão aumenta à medida que a situação se deteriora é vista com muito humor. Em pouco tempo, o tom é estabelecido.

Todas as minhas memórias sobre viajar no verão são horríveis. Quando eu era pequeno, havia quatro crianças no banco de trás. Com trânsito absurdo e o calor infernal, sempre um de nós vomitava! Obviamente, que isso sempre contradiz a idéia que queremos ter de férias completamente prazerosas e relaxantes. Acho que todo mundo já passou por algo parecido, e vai se identificar com a cena e rir muito. Amo minhas filhas, mas sempre acontecem momentos em que você quer estrangular a sua prole! Como por exemplo, num momento em que você está preso no trânsito, e uma delas chuta seu banco sem parar e a outra não pára de chorar porque esqueceu a boneca Barbie em casa...

Michel e Harry freqüentaram o mesmo colegial há vinte anos. Quando se reencontram, parecem pertencer há mundos completamente diferentes.

Michel é um pragmático, com aquela atitude “viva e deixe viver”. Pensa que já faz sua parte suportando o dia-a-dia e não criando conflitos, estar com sua esposa, seus parentes e todo mundo.
Harry possui uma filosofia muito mais drástica: todo problema tem uma solução. Não só uma emenda, mas uma solução que erradica o problema. Harry está desapontado em achar o seu antigo colega de classe está entediado e cheio de problemas, e resolve ajudá-lo. A princípio, não pensei no comportamento tão extremo de Harry. No processo de criação, junto a meu co-roteirista, Gilles Marchand, me vi preso em meu próprio jogo.

Qual o aspecto da personalidade de Harry que mais te interessa?

A sinceridade. Foi a primeira coisa que disse para Sergi sobre o caráter do personagem. É o todo de um aspecto. É sincero em seu amor por Plum e seu desejo de ajudar Michel. Ele nunca age cinicamente ou de forma a querer manipular. Não há nada de perverso nele. No colegial ele desenvolveu um tipo de fixação sobre o “talento” de Michel como escritor. O que realmente quer é ver o amigo feliz. Ao contrário de Michel, Harry não é do tipo que se compromete. Acrescentando, ele age com um pouco de infantilidade. Faz tudo para conseguir o que quer.

Então esta fixação dos tempos de adolescência é o que liga Michel e Harry?
 
Sim. Chega a ser bizarro, uma vez que Michel e Harry, aparentemente, não tinham nada em comum no colégio. O que chamou a atenção de Harry foi um poema que Michel escreveu para a revista do colégio. Você nunca pode dizer o que vai conectar dois indivíduos dessa maneira, já que o poema não era algo extraordinário. 

Em Harry, assim como em Intimacy, você se aproxima de uma forma irônica das relações entre os seus personagens.

Eu me interesso muito pela complexidade das relações entre os seres humanos. Mas ao mesmo tempo, eu não focalizei de uma maneira tão terrível para haver espaço para o humor. Isto não quer dizer que eu descuide deles. Eles me tocam e eu os defendo e os compreendo. Se não, não estaria interessado em filmá-los. Gosto de personagens com mais de uma faceta.

Harry e Plum formam um casal estranho!

É um amor sincero. Plum faz o gênero estereotipado de “vagabunda” que é sustentada por um homem abastado. Gosto de brincar com os clichês, fazendo com que o verdadeiro interior surja à medida que a história se desdobra. Plum não é tonta. Na cena em que ela depila as pernas e pergunta: “Quando iremos a Matterhorn?", sabe o que faz. Ela sente que Harry está se derretendo por ela. É a cena pivô entre os dois sentimos Plum clamar por uma vida familiar normal, enquanto Harry ocupa sua agenda com Michel.

Harry não se conforma de Michel ser ainda tão influenciado pelos pais.

A relação com os pais é peculiar. Mesmo quando você é adulto, você continua sendo criança para seus pais, em todos os aspectos envolvidos. As pessoas encaram isso de formas diferentes. Ou rompem de uma vez a relação, ou convivem bem...

... Pegando o agasalho sempre que saem de casa!

Agora que sou pai, percebo o tamanho do poder que exercemos sobre nossos filhos. É atroz! Para algumas pessoas, a morte dos pais pode ser uma experiência libertadora. Enfim um adulto! Após assistir ao filme, um dos produtores me disse: “Me empresta o Harry, quero apresentá-lo aos meus pais!"

Harry também é um filme sobre a criatividade. Sobre ser capaz de escrever novamente. Michel teve que superar inúmeras provações: confrontar-se com o passado, suas dúvidas, a página em branco... O filme poderia ser um longo sonho de Michel, intercalado com pesadelos. Pode ser visto como metáfora? 

Eu não quero negar às pessoas suas próprias interpretações do filme. Pelo contrário, é divertido! O que mais me interessa é que a história fale por si. A partir daí, você pode seguir para outros níveis de interpretação. Através de Harry, a ambição adolescente de Michel volta para assombrá-lo. Quando adolescentes, temos milhares de sonhos que desejamos concretizar, e eles encolhem ou desaparecem à medida que a vida real toma todo o espaço. Todos nós abandonamos alguns sonhos de criança.

Há uma outra possibilidade de leitura de seu filme: Harry é o subconsciente de Michel, seu “id”, esperando para se manifestar sobre todas as urgências, sempre seguindo o princípio do prazer, enquanto o “superego” é Michel, inibido pelas regras e necessidades alheias?

Correto. Essa teoria me veio à cabeça enquanto eu estava escrevendo, mas não fiquei teorizando sobre isso. Harry realmente age como catalisador nos desejos e dúvidas de Michel. Você também pode imaginar Harry como uma “projeção” ou “invenção” de Michel, porque precisava dele justamente naquele momento. Há um quê de Dr. Jeykl e Dr. Hyde ali.

A poesia e humor do filme são enriquecidos pelos truques visuais: a visão de um macaco voador, ou um “close-up” de ovos parecendo dois seios fartos... 

Cinema também é uma arte de prazer visual. Adoro brincar com a imaginação. Esse aspecto da criação cinematográfica que me fascina, onde você cria efeitos bastante fortes com técnicas muito simples: um super close, uma tomada rápida, um som, uma fusão. Eu adoro explorar esse tipo de coisa, mesmo quando eu as uso como sobressalentes, quando elas funcionam para a história. Nos filmes de Hitchcock, meu cineasta favorito, você sempre pode sentir esse prazer da criação, a necessidade de experimentação.

Os seus filmes possuem uma incrível beleza plástica, eu sinto algo físico emanando deles. Você não mostra nenhuma violência física mesmo que ela esteja presente, sugerida de maneira camuflada, e o espectador a sente numa intensidade incomum. 

Somos acostumados a ver violência de todas as formas e tamanhos. Alcançou de tal forma a banalidade que perdeu todo o sentido. Cenas nojentas e grotescas, feitas para estarrecer a platéia, me deixam frio. É muito fácil chocar. Eu tenho muito mais entusiasmo em criar tensão sugerindo, do que espalhando um monte de sangue na tela.

Você dirige seus atores com a mesma contenção.

Não gosto de histeria. Se a cena já é forte, não vejo motivo.
Prefiro conter as atuações. Peço aos atores que mantenham o tom, ligeiramente sufocado, em vez de deixarem tudo “rolar”. Isso não faz das emoções menos intensas.
 

Você sempre está um passo atrás da realidade.
Não me interesso pelo naturalismo. Ainda que eu aprecie as obras baseadas nesse princípio, como as lindas obras de Cassavetes. Eu sempre prefiro manter o distanciamento e o humor. Eu me aproximo mais da escola Britânica de atuação do que o método Actors Studio. Eu adoro Marathon Man. Dustin Hoffman teve de aparecer ofegante, pois esteve correndo, então deu 30 voltas no quarteirão correndo e ficou arrasado. Sir Lawrence Olivier ficou abismado e perguntou o que estava acontecendo? “Estive correndo até perder o fôlego”, disse Dustin. Ao que Sir Lawrence, muito britanicamente, respondeu, “Por que você simplesmente não atuou?” 

A música é assinada por David Whitaker. É a primeira música para filme que ele compõem em dez anos.

Sim, ele fez muito sucesso compondo a música para o Vampiro Inglês e os outros filmes de horror da Hammer Films, entre outros. Depois ele seguiu produzindo arranjos para bandas francesas e cantores como Johnny Hallyday, Etienne Daho e Tanger. Um amigo do produtor me deu várias músicas, de diversos compositores, para escutar, inclusive as de Whitaker para a fantasia heróica, “The Sword and the Sorcerer”. Era uma trilha de estilo antigo com algumas peças bem ao estilo de “épico Romano” e alguns outros maravilhosamente orquestrados, com muitas passagens curiosas. Conheci Whitaker e entramos num acordo. Assim que ele leu o roteiro, na verdade, aliás, mesmo antes de nos conhecermos, ele escreveu a sonata no piano que toca no início, sobre os créditos e na cena final, em que as meninas trazem flores para o pai. Eu Adoro esta composição. É bem inocente, e também muito confiável! Depois da primeira seqüência, com as garotas ”bagunçando” no banco de trás do carro e deixando os pais malucos, a candura desta peça é a primeira discrepância, uma ironia de que eu gosto muito. Existem outras, diferentes, dramáticas ou estranhas passagens. A música foi gravada nos estúdios Abbey Road.
 
A versão de “Ramona”, de Dolores Del Rio, também é muito boa!

Eu procurava por uma música recorrente que se identificasse com Harry e pudesse lembrar o fim da cena idílica da família, como se Michel tivesse tomado consciência por si próprio. Eu prestei atenção nela numa compilação de músicas hollywoodianas a que escutava enquanto escrevia o roteiro. Era uma valsa nostálgica, oposta às drásticas soluções que Harry adota. Contando que a data de gravação é 1928, e Dolores Del Rio canta com sotaque fortíssimo, eu não consegui entender a letra. Finalmente, quando editamos, eu me fixei nisso, pude perceber “Alguém ao longe nas colinas, espera pacientemente, espera por mim!” Achei muito apropriado.

Conte-nos como escolheu seus atores.

Gostaria que Harry fosse mesmo carismático, e eu não consigo pensar em alguém mais carismático do que Sergi Lopez. Até hoje ele só fez “caras bonzinhos”, praticamente. Fiquei feliz em poder oferecê-lo um papel que vai além. Desde os primeiros testes de projeção, eu percebi que ele daria conta de ir ao limite da loucura, sem perder a sinceridade que eu precisava, o que faria do personagem ainda mais desconcertante.

O uivo que ele dá, dentro do carro pela noite é magnífico! 

Sergi estava bastante preocupado antes dessa cena. Depois que rodamos ele virou e, bastante surpreso, disse: “Não imaginei que pudesse uivar dessa maneira!”
 

Laurent Lucas também marca a presença.

Eu o havia visto apenas como coadjuvante antes, mas em todas as vezes fiquei surpreso com o seu trabalho. Laurent possui uma intensidade que busca nos detalhes. Gosto muito do seu estilo contido.

Tanto Mathilde Seigner como Sophie Guillemin representam mulheres muito contrastantes com os papéis masculinos.

Para equilibrar o introvertido personagem de Michel, eu precisava de uma atriz de forte temperamento para interpretar Claire. Mathilde Seigner tinha exatamente essa energia. Ela é a personagem! Eu acho que Sophie Gullemin estava perfeita em “O Tédio”. Ela é surpreendente, tem ritmo e traz a jovialidade de que Plum necessita. Sergi, Laurent, Mathilde, Sophie tem diferentes maneiras de construir os personagens. Quando os coloquei juntos pela primeira vez, estava com medo. Não tinha idéia de como seria a receptividade entre eles! Eu deveria ter notado logo que funcionaria como mágica. 

Harry é o primeiro filme inteiramente produzido por Michel Saint Jean. Como vocês trabalharam juntos?

Michel já havia distribuído “Intimacy”. Quando eu mostrei o roteiro de Harry para ele era para saber, primeiro, se ele gostaria de distribuí-lo. Não tinha idéia de que ele estava pensando em se voltar para a produção. Ele leu o roteiro e, daí em diante, seu entusiasmo e compromisso foram ilimitados. Nós temos uma relação extremamente construtiva. Claro, nós dois queríamos que o filme desempenhasse. Trabalhar com ele foi realmente divertido.