Terror Heavy Metal Sem Final Feliz
por hugo

Por vezes um bom ator pode até salvar um filme e compensar alguns problemas de execução. E justamente por acreditar nisso, fico até meio constrangido por ter que "falar mal" de um filme que tem Winona Ryder no elenco, mas infelizmente esse não é exatamente o caso aqui e ela só "quase" consegue essa proeza.

Em relação à Winona, acontece o de sempre quando ela pega um personagem difícil (no caso, a fanática religiosa Maya Larkin): sendo tão boa atriz, fica impossível simpatizar e torcer por uma "mocinha" tão louca e obssessiva, apesar de ela estar linda como sempre (juro que eu tive que me conter pra não sair e pagar o ingresso de novo, só por causa dela).

Quanto ao filme, na verdade o principal problema de Dominação é também a sua principal virtude: o anacronismo deslavado. Ignorando todas as mudanças e evoluções ocorridas no gênero de filmes de terror nos últimos vinte anos (desde Halloween até A Bruxa de Blair, passando por A Morte do Demônio e Pânico), ele espelha-se em O Exorcista, filme clássico dos anos 70. 

E o pior é que aqui, não só não se teme comparações, como elas são até estimuladas por uma campanha publicitária que o vendia exatamente assim: como um Exorcista moderno. O que, é claro, está longe de ser verdade. Excetuando os efeitos especiais, o capricho técnico (para fortalecer o clima sufocante, não só a fotografia mas também a iluminação foi preparada de maneira a deixar os ambientes sempre escuros) e a ambientação, não há nenhuma alteração significativa ou "moderna" na fórmula. Fórmula essa, que além de O Exorcista, mistura um pouco dos filmes de terror dos anos 80 que, por definição, são muito mais exagerados do que a fonte original.

Mas isso até que é saudável pois um filme de terror, pra ser legal, tem que ser como rock ou sexo: quanto mais sujo e barulhento, melhor! E da mesma maneira que o rock atual, os filmes de terror de sucesso estão cada vez mais limpinhos e inofensivos como Pânico, quando não (argh!) espertamente cínicos e "metalingüísticos" ("cabeças" mesmo, vai ...) como A Bruxa de Blair. Nesse contexto, e para continuar com a metáfora rock'n roll, Dominação soa como os Stray Cats e o disco rockabilly do Neil Young no começo dos 80, em pleno pós-punk; ou como ser fã de Nazareth hoje em dia. É como a piada do punk que era tão radical na sua vontade de ser "do contra", que arrumou um emprego de contador em um escritório quando percebeu que todos os seus amigos eram punks. É a saída que se encontra, quando ser moderno é tão cheio de regras e códigos, que a verdadeira liberdade é ser retrógrado ...

Mas deixando a viagem de lado e voltando ao que interessa: é claro que não só isso levou Dominação a ser mal recebido por público e crítica. Há também o roteiro confuso e cheio de detalhes, que só serve para esconder o argumento simples como uma canção de três acordes (outro item fundamental para um bom filme de terror): o demônio, que tem dia e hora marcados para dominar um ser humano e partir para a conquista do mundo, será combatido por desacreditados e esforçados guerreiros do bem. Fora isso, há também o final (que, ok, pode-se dizer que sofreu infuências de A Bruxa de Blair) totalmente curto e grosso, sem perdão mesmo e a falta de qualquer componente romântico, pois o óbvio seria os dois personagens principais, a religiosa Maya e o "escolhido" Peter Kelson (Ben Chaplin) começarem como rivais, chegarem a aliados e acabarem como casal. Mas não é isso que acontece, ainda bem.

hugo ( hugolt@hotmail.com ) colabora com este zine e, se não tem controle sobre como filmes e músicas são feitos, pelo menos cuida da parte que lhe cabe na tríade citada acima.