Do Inferno
por Ana Cecília
Del Mônaco
Inúmeras versões do
caso de Jack, O Estripador já foram escritas e também
produzidas para o cinema. Em 1888, cinco assassinatos brutais foram cometidos
em Whitechapel, Londres. Todos tinham as mesmas características
rituais e as cinco vítimas eram prostitutas.
Do Inferno é baseado
no homônimo livro ilustrado de Alan Moore. Quem é fã
de quadrinhos conhece, talvez os fãs do assassino também.
Justamente essa ironia é o mote do filme: uma mente doente, talvez
esquizofrênica, personalizando um inconsciente coletivo também
doente de sua época. A ciência estava ávida por descobertas,
a imprensa era o reflexo da Revolução Industrial, esta, por
sua vez, inflou as cidades, formando guetos, sujeira e podridão.
Podridão. O assassino foi uma
chaga exposta nessa nova sociedade que estava aprendendo a equilibrar poderes
com a imprensa. O filme é rico em detalhes de época e faz
questão de deixar à mostra a situação precária
em que as pessoas do gueto viviam Faz contraponto com a elite da Inglaterra,
impecável, mas corrompida.
Muita ênfase na horrenda rotina
das prostitutas, vítimas do Estripador, vítimas de preconceito,
da injustiça dos homens. Seria o assassino uma personificação
da voz coletiva, como um 'Anjo Exterminador', livrando a sociedade destas
'pragas transmissoras de doenças' e a elas próprias de seu
sofrimento?
David Lynch, com seu Homem Elefante
nos expôs ao nosso pior. Assistimos a seu filme com pena de John
Merrick, mas sempre querendo ver seu corpo e olhar para o seu sofrimento.
Uma passagem de Do Inferno, deixa bem clara a avidez humana pelo
"mundo cão": John Merrick, mostrado, de maneira muito mais aberta,
numa sessão para médicos e membros da sociedade, claro, com
fins científicos. A sensação é de alívio
por estarmos vendo, finalmente, como ele era. Lynch o disfarçou
intencionalmente. O sentimento seguinte é de vergonha.
Em um momento o Estripador, ainda
não revelado, diz ao seu cocheiro que eles estão (e também
a platéia) no terreno obscuro do inconsciente. À luz do dia
os corpos são descobertos e analisados pelo inspetor Abberline,
homem que também tem seu "segredo", viciado em ópio e absinto.
As pessoas olham. O assassino aqui é mais convicto do que
o matador de criancinhas do imbatível M., O Vampiro de Dusseldorf
, dirigido por Fritz Lang.
A qualidade estética e as intenções
reflexivas do filme não o salvam de ser apenas correto. Sua carga
de suspense é nula, e a tese proposta é totalmente óbvia.
Acrescento aos defeitos um péssimo Johnny Depp como o inspetor atormentado.
Seu sotaque é horrível e acaba por dispersar a densidade
que deveria ter o personagem.
Da História
por Marcelo
Silva Costa
Jack, o Estripador, está de
volta aos assuntos do dia. Do Inferno (From Hell), frase retirada
de uma das cartas do culto assassino, lança mais um olhar sobre
a enigmática história que causou furor na Inglaterra, em
meados do século 19. A hsitória, veridica, conta que cinco
prostitutas foram meticulosamente mortas por um assassino nada comum. Jack,
o Estripador, como ficou mundialmente conhecido, deixava com suas mortes,
um estilo inconfundível de quem sabia muito bem o que estava fazendo,
ou seja, não era um mero assassino, mas alguém da elite burguesa
londrina.
Mais do que recontar a história,
os Irmãos Hughes decidiram filmar uma versão muito discutida
pela população inglesa dos reais motivos e ligações
do estripador com a Realeza Inglesa. Teoria da Conspiração
das boas, ok.
Mas, se a idéia original convence,
todo o resto em Do Inferno soja deja vu.
Johnny Deep tem atuações
muito melhores em seu curriculo e seu Inspetor Fred Abberline acaba soando
por demais vago. A caracterização dos personagens e da vila
Whitechapel são o que o filme tem de melhor, e quando o destaque
de um filme é sua idéia original, suas roupas e sua locação,
algum problema há no quesito "conteúdo". Do Inferno
não empolga, ou, pior, o que deveria acontecer e não acontece:
não incomoda.
Por mais brilhante que seja a história
de Jack, e toda ligação com a realeza e com os a massonária,
o filme perde o foco por tratar toda situação de forma distante.
Mais, os personagens não prendem a atenção do espectador.
Mais, obviedades escorrem aqui e ali junto com as visceras das prostitutas.
É o velho caso do "poderia
ser melhor". O Estripador merecia mais cuidados, literalmente. :)
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