Não espere muito
por Angelika Bito
 
Coração de Cavaleiro é um filme fadado a ser um clássico da sessão da tarde. Tem todos os ingredientes para tal: romance, aventura, piadas engraçadinhas e o final feliz. Tem o mocinho bonito que desafia as convenções sociais para mudar seu próprio destino, a mocinha bonita que rejeita o casamento com um nobre, porém malvado, para ficar com o
mocinho. Clichês e mais clichês. Entretanto, Coração de Cavaleiro não é totalmente uma perda de tempo. Digamos que vale aquele ingresso da quarta-feira, se você paga meia-entrada.

A história se passa no século XIV, mais precisamente nas arenas onde duelos entre cavaleiros eram disputados. O australiano Heath Ledger é William Tatcher que, quando criança, foi deixado pelo pai aos cuidados de um cavaleiro para que ele pudesse aprender a ser um. Esse era o sonho do menino: ser um daqueles homens cobertos de armadura
que ele via nos duelos. Mas só os homens "com pedigree" podiam disputar aquelas lutas. Isso significa duas ou três gerações de nobres na família, coisa que William não tinha.

Mas ele não desiste: arruma uns títulos de nobreza fajutos e começa a lutar. Alguém imagina o resto? Ele ganha todas as batalhas, inclusive o campeonato mundial, ganha o duelo contra seu maior rival -  o Conde Adhemar -, ganha a donzela mais bonita e, de quebra, recebe do príncipe da Inglaterra, que adora um duelo, o título de nobreza necessário para continuar competindo. Não é maravilhoso como um homem pode de verdade mudar seu destino? Enfim, um pouco indigesto para quem tem mais de quinze anos.

Mas, você deve estar se perguntando o porque de eu estar escrevendo sobre um filme aparentemente tão esdrúxulo. Sim, ele é esdrúxulo, mas tem seus pontos positivos. Sempre tem que ter um ou outro, não? Os "fiéis escudeiros" de Tatcher são os que proporcionam as cenas mais engraçadas. Roland (Mark Addy) e o ruivo Wat (Alan Tudyk) estão sempre brigando, mas ambos depositam suas esperanças no sucesso de Tatcher. E tem um terceiro, o escritor Geoff Chaucer (Paul Bettany), responsáveis pelas hilárias apresentações do cavaleiro antes de cada luta.

Outro aspecto peculiar do filme foi a tentativa de dar ares modernos, com os quais nos reconheceríamos, a uma história passada na Idade Média. Os torcedores nas arenas, por exemplo, nos lembram os dos estádios de futebol. A massa enlouquecida torcendo por seu cavaleiro predileto, não importa em que lado ela estiver: no lado dos nobres ou no lado do povão.

Todos batucando as arquibancadas ao som de We Will Rock You, do Queen. No baile, mocinho e mocinha dançam ao som de Golden Years, do David Bowie. A caracterização e trilha sonora foram também escolhidos a dedo para que o antigo nas imagens tivesse referências modernas. Podemos ver isso por meio da trilha sonora e também da maquiagem,
penteados e roupas das mulheres, especificamente da mocinha Jocelyn (Shannyn Sossamon).

Como puro entretenimento, Coração de Cavaleiro costuma funcionar. Como todo filme, tem seus erros e acertos, mas não espere mais do que você esperaria ao assistir a um filme de sessão da tarde.


Heath Ledger muda o próprio destino
por Ana Cecília Del Mônaco
 
A intenção do filme Coração de Cavaleiro está no slogan: "Ele te conquistará" (nos EUA: He Will Rock You). Ou seja, lançar definitivamente a nova promessa australiana, Heath Ledger, ao estrelato. Para tanto, apresenta recursos nada é sutis, repleto de closes, aposta nos sorrisos carismáticos do ator. Além do que, o fato de contar a história "heróica" de um cavaleiro, já contribui para incendiar o imaginário, tanto das meninas, quanto dos rapazes.

O ator foi a revelação de as 10 Coisas Que Eu Odeio em Você, onde contracena com Julia Stiles, revelada no mesmo filme. Teve então, seu papel de destaque em uma grande produção, O Patriota, como filho de Mel Gibson. 

Coração de Cavaleiro se passa na Idade Média e apresenta  duelos de lança e espada entre cavaleiros, como as arenas modernas, incorporando vários elementos de lutas e competições da atualidade, com a diferença de que só os "bem-nascidos" poderiam participar.

William Tatcher (Heath Ledger) é um jovem escudeiro que sonha ser cavaleiro; é certo da própria capacidade, mas não possui linhagem nobre.

Quando seu mestre morre, ele decide, disfarçado, "tentar mudar seu destino" (frase repetida à exaustão durante o filme), competindo clandestinamente nos torneios que acontecem em regiões da França e  da Inglaterra.

Inicialmente, William viaja acompanhado de seus dois amigos, o ruivo "explosivo" Wat e o gordinho ponderado Roland. Como num "road movie", unem-se ao bando, um jovem escritor, Chaucer, e uma moça que trabalha forjando aço, Kate.

Geoff Chaucer, aliás, famoso poeta e escritor, foi tomado pelo diretor nesse período anterior à sua notoriedade, como porta voz das melhores falas do roteiro.

O diretor Brian Helgeland, ganhou o Oscar pelo roteiro de "Los Angeles Cidade Proibida", tenta aproximar o público com músicas contemporâneas, tais como We Will Rock You e We Are the Champions do Queen, a última na voz de Robbie Williams. Também fazem parte da trilha David Bowie, Eric Clapton. 

Assim como essas canções  algumas gírias e expressões que, provavelmente, não eram usadas no século XIV, foram incorporadas ao texto. O recurso mais incomoda do que inova.

A narrativa às vezes tenta despistar o espectador para uma surpresa, que não acontece. 

Ponto para a reconstituição de época, que também traz elementos modernos, como os trajes "pavonísticos" da musa de William, Jocelyn, e para a ótima atuação de Rufus Sewell, como o principal oponente de Heath, ops, William.

Coração de Cavaleiro tem ótimas seqüências de duelo medieval, muitas seqüências irônicas sobre a Igreja católica e prova que, em Hollywood, ao contrário da Idade Média, não é tão difícil mudar o próprio destino. 
 

CORAÇÃO DE CAVALEIRO (A Knight´s Tale, EUA, 2001)

Heath Ledger (William), Conde Adhemar (Rufus Sewell), Jocelyn (Shanynn Sossamon), Chaucer (Paul Bettany), Kate (Laura Fraser), Roland (Mark Addy)
Wat (Alan Tudyk)

Escrito, produzido e dirigido por: Brian  Helgeland.  Produzido por: Tim Van Rellim e Todd Black.  Diretor de Fotografia: Richard Greatrex, BSC.  Montador: Kevin Stitt