"25ª Mostra de Cinema de São Paulo" 
por Ana Cecília Del Mônaco
 
Pão e Leite (Kruh in Mleko, Eslovênia, 2001) 
Direção: Jan Cvitkovic 
Elenco:  Ivan (Peter Musevski), Sonja (Sonja Savic), Robi (Tadej Troha). 
68’

Filme de estréia de Jan Cvitkovic.  Ivan,  volta pra casa pouco antes de terminar seu tratamento numa clínica de reabilitação para alcoólatras, dispensado por seu displicente médico. A ação se passa em uma pequena cidade eslovena. 

Em casa, enfrenta o convívio com a esposa, Sonja, e o filho único adolescente, Robi. 

Silêncios constrangedores seguidos pelos atos corriqueiros mostrados de forma crua, ronco, tédio.  Imaginamos que o relato tem a chance de sair do clichê, mas não sai. A fotografia em preto e branco, e a ausência da trilha sonora carregam de angústia, o ambiente a que o (ex?) alcoólatra, tenta se integrar. 

O primeiro dia passou.

Na manhã seguinte recebe a ‘missão’ de comprar pão e leite, no caminho de volta encontra um antigo colega de ginásio que, ‘de cara’ o convida para uma ‘bebida’ no bar. Após um relato inesperado, a aflição faz com que Jean ceda à tentação da beber e desencadeie uma série de coincidências envolvendo sua já abalada família. Conclusão: “Desgraça pouca é bobagem...”.

O diretor conta que baseou toda essa ficção em uma visão da adolescência: ‘Um homem que ele conhecia de vista, andando completamente bêbado, perto da saída de um bar chamado Taverna (reproduzido no filme com mesmo nome) deixa cair uma sacola com pão e leite. Ficou bem significativa, a reprodução dessa cena, que poderia ser a última, mas não é, e o final acabou provocando risos. 


Lip Service – Um Mistério. (Lip Service – a mistery)
Direção, produção, roteiro, fotografia, animação e edição (uff): Ann Marie Fleming.
Elenco: Valerie Buhagiar, Paul Tedeschini, Maeve Mckee.
45’

Ann Marie Fleming fez este filme de acordo com as regras do Dogma 95, ou seja, sem iluminação artificial, em locações encontradas em seu estado natural, com fala captada em som direto (hum...), total naturalismo. 

Os efeitos de animação parecem recurso para esconder defeitos de atuação ou para tentar alcançar o mote do filme: Uma mulher de mais ou menos 30 anos, que perdeu o lábio num acidente, se torna detetive particular, na impossibilidade de encontrar outro emprego. Então, para conseguir o efeito da protagonista sem lábio, usa-se Photoshop (Dogma? Ah tá, mas é animado...), sem sucesso, pois ora o lábio está lá ora não está.

O filme de silhuetas, segundo Ann-Marie é um questionamento da identidade perdida, pois as pessoas, hoje em dia (?) julgam os demais pela primeira impressão. E sua personagem que trabalhava como modelo, torna-se uma aberração para os estranhos num primeiro contato. Mas descobrimos essas intenções somente ao ler as declarações da diretora, e não pelo resultado do seu trabalho. 

Produção caseira, com péssimos atores (e olha que são silhuetas), e a narração “coloquialíssima” da ação e de TODOS os pensamentos da protagonista, dispensaria as imagens, já que estas são ilustrativas, no nível de cartilha escolar.
Exemplo: “Estava ansiosa esperando meu primeiro cliente...” (silhueta da mulher na poltrona batendo os dedinhos)
“Ele estava realmente transtornado...” (silhueta de um homem andando loucamente de um lado para o outro)
“O cachorro  que me mordeu...” (cachorro).


CHEN BAO (China/Japão, 1999)
Direção Shinichi Nakada. 
Com: Takahiro Tamura, Hiromi Iwasaki e Xu Ke-Xim.

Co-produção entre China e Japão trata dos conflitos vividos entre estes dois países durante a 2a Guerra Mundial.  O assunto é um tabu para os dois povos. 

Um ex-soldado japonês, (Takahiro Tamura) viaja para a China com a neta, em busca do túmulo do sargento de seu pelotão, morto em solo chinês,  e de dois sobreviventes chineses, na época duas crianças camponesas.  

Acerto de contas. O ex-soldado se defronta com seus fantasmas na terra onde nunca mais havia pisado desde a guerra. Revive a dor dos camponeses assaltados pelas tropas e de seus companheiros de pelotão. Fome, renúncia e morte.  

Relembra que num desses assaltos, o pelotão leva um bezerro de duas crianças Chen Bao e Chen Hui, para servir de alimento, mas este era o animal de estimação dos dois.   

As crianças seguem e enfrentam os soldados em defesa do bezerro. O oficial, na época um jovem, fica dividido entre a obediência aos superiores e a tomada de atitude contra a injustiça que está vendo. 

Só mesmo um coração de pedra para não se render a Chen Bao e Chen Hui, as crianças do filme.  Crianças e armas não combinam. O garoto, desde pequeno o homem da família e sua grande coragem para defender o que restou dela, em contraposição à covardia dos soldados. E mesmo os soldados, como meninos que fazem o que tem de fazer...    

O enfoque ora de aflição, ora de ternura se intercalam e as atuações cativam.  

A brutalidade, inversão de valores, as perdas e a desumanização elevados ao extremo, são questões sempre discutidas em filmes de guerra, assim como a impossibilidade de se documentar e julgar os  crimes e barbaridades  cometidas, como se o todo já não fosse suficientemente condenável.