Indo
Até Depois do Fim.
por
hugo
Um
dos mitos que sempre é bem explorado pelo cinema americano, é
o da segunda chance. Alguém, que por qualquer motivo falhou em algo,
caiu em desgraça (ajuda bastante se nesta derrota o sujeito foi
injustiçado) e agora luta pela sua reabilitação.
E esse é sempre um tema simpático,
pois quem nunca viveu uma situação assim? Quem nunca desejou
uma chance de consertar um erro?
Bom, mas ... e se tivermos dois anti-heróis
desta espécie, e não um? E se eles forem grandes amigos mas
tiverem que lutar entre si por esta redenção? Nada mau não
acha? Por Uma Boa Briga tem todos estes ingredientes de um bom drama e
muito mais. Pena que esta idéia não foi levada a sério.
Pena que a opção foi em fazer uma comédia que, em
seus melhores momentos, consegue ser no máximo uma tragicomédia.
Cesar Dominguez (Antonio Banderas)
e Vince Boudreau (Woody Harrelson) são dois boxeadores que já
tiveram futuro, mas que hoje só têm passado. Tiveram as suas
chances de disputar o título mundial e falharam. Agora, por pura
sorte, e por ainda terem algum nome, são convidados a tapar o buraco
da luta preliminar de Mike Tyson, aparecer para o mundo e sonhar com uma
nova disputa do título para o vencedor. E para isso pegam emprestado
o carro de Grace Pasic (Lolita Davidovich) atual namorada de Cesar e ex
de Vince que coloca como condição, ir com eles. Durante quase
todo o filme (exceto a seqüência final, que é a luta
propriamente dita) é mostrada a viagem dos três até
Las Vegas onde acontecerá a luta. Durante o caminho eles vão
se conhecer melhor, vão se surpreender com descobertas sobre o passado,
confissões serão feitas, etc e tal, como teria que ser mesmo
pois se não fosse, não haveria história a ser contada.
Mas o melhor, é que, fugindo
(um pouquinho) do óbvio, o centro das atenções não
é Grace ou o triângulo amoroso que vivem/viveram, mas sim,
a amizade entre os dois pugilistas e a relação que eles têm
(praticamente de pai para filho, devido à imaturidade de Cesar).
É interessante, também, o modo como ambos são manipulados
por ela, que tem um jeito todo especial de ajudá-los ... O único
problema é o tom de sessão da tarde com que o filme é
levado. Tudo é bem leve e nada é um problema tão sério
assim, vai ...
A luta, que é o clímax
do filme, tem o tom dramático necessário (tá, tá,
é bem exagerada, na verdade. Bem no estilo de Rocky, em que os pugilistas
se matam no ringue, com sangue por toda parte. Mas e daí? Se eu
quisesse assistir a um documentário sobre boxe procuraria o Discovery
Channel e não um cinema), ficando realmente difícil saber
para quem torcer (se bem que no decorrer do filme, Banderas se mostre mais
simpático, além de convencer mais como lutador), apesar de
o resultado da disputa não ser assim tão surpreendente ...
Com certeza não é um
filme que vai mudar a vida de ninguém, mas que pode fazer você
pensar em algumas coisas. Por exemplo ... que talvez haja algumas coisas
pelas quais deva-se lutar, sim; que talvez a sua dignidade seja uma delas;
que talvez só o fato de se ter coragem para lutar, quando é
mais fácil desistir, já faça de você um vencedor;
e que talvez, só talvez, quando a vida é bem vivida, e não
esquecida devido a alguma obsessão, o prazer da luta em si, já
seja um objetivo.
E um prêmio, também,
é claro.
hugo
( hugolt@hotmail.com ) colabora
com este zine; não tem nenhuma ilusão e sabe que quando o
jogo é duro, só os duros jogam. |