Beijando Jessica Stein
por
Marcelo Silva Costa
Direto: o que acontece quando duas
garotas que sempre gostaram de homens (essa coisa de heterossexuais é
muito politicamente correta para o meu gosto) se vêem apaixonadas
uma pela outra?
A resposta para a pergunta acima é
o enredo de "Beijando Jessica Stein" (Kissing Jessica Stein – 2001),
comédia romântica que arrebatou prêmios da crítica
norte-americana, fez um tremendo sucesso de público como também
colheu elogios das principais publicações ao redor do mundo.
A Jessica do título é
uma jornalista nova-iorquina sensível, mas completamente paranóica.
Trabalha em um jornal com um chefe chato e amargo, uma amiga grávida
e acaba de descobrir que seu irmão mais novo vai se casar. O que
ronda a cabeça de nossa amiga: ela vai ficar pra titia. Até
que o acaso (simbolizado em uma citação do grande poeta alemão
Rainer Maria Rilke) coloca o amor no caminho de Jessica. O problema é
que o amor não é ele e sim, ela: Helen, diretora de uma galeria
de artes, devoradora (ops) de homens e insatisfeita com os mesmos.
O acaso se dá via anúncio
de jornal, na delicada seção "mulher procura mulher". As
duas marcam um encontro, acabam-se dando bem e agora temos uma comédia
romântica deliciosa.
"Beijando Jessica Stein" começou
com uma peça Off-Broadway em 1997 e três anos depois já
estava sendo rodado nas ruas de Nova York sob cobertura da Fox Films. Praticamente
todo o elenco e produção vieram do teatro. O roteiro é
assinado pelas duas excelentes atrizes principais, Jennifer Westfeldt (Jessica
Stein) e Heather Juergensen (Helen Cooper), e toda obra respira independência.
O passado teatral da produção
por vezes torna o filme caricato, mas também funciona a favor na
principal característica: na apresentação dos personagens
o filme surge lento e monótono, já que a personagem Jessica
não é nada apaixonante. A maioria dos filmes atuais tem funcionado
assim: uma primeira parte excelente (a da apresentação dos
personagens e das idéias ao espectador) e uma segunda parte não
tão boa (o desenvolvimento da idéia). O roteiro extremamente
bem cuidado faz com "Beijando Jessica Stein" tenha uma parte inicial propositalmente
desapaixonada para conquistar o espectador no segundo trecho, que trata
do relacionamento das duas mulheres. E é exatamente neste ponto
que está o grande trunfo do filme. "Beijando Jessica Stein" retrata
de forma brilhante os medos de uma geração, encobertos por
dogmas religiosos, sem se apoiar em estereótipos e soando, ahñ,
educativo.
Quando Jessica, a certa altura, diz
que é "uma garota judia de cidade do interior", está permitindo
que toda sua doutrinação religiosa afugente aquilo que está
fazendo bem a ela. Por sua vez, quando Helen tenta explicar a uma amiga
como é beijar uma garota ("os lábios são macios, a
pele é macia"), está desenvolvendo um gosto totalmente particular.
Não estranho, o despertar da história se dá quando
Jessica está, martirizada, nos braços de sua mãe,
afinal, como todos sabemos, as mães, além de previsão
do tempo, nos conhecem melhor do que ninguém.
Mais do que heterossexual ou homossexual,
o relacionamento entre Jessica e Helen é passional e, porque não,
honesto. Nas palavras das roteiristas atrizes, "'Beijando Jessica Stein'
se tornou a história de duas mulheres que decidem tentar essa 'experiência'
pelos motivos errados: Jessica porque está desesperada e confusa.
Helen porque está entediada. E elas acabam descobrindo algo que
é mais profundo, mais verdadeiro e mais completo do que tudo que
experimentaram antes".
Do tempo em que homens arrastavam
mulheres pelos cabelos na idade da pedra até este, em que garotas
discutem a cor do batom e onde uma delas comprou um sapato tão bonito
para, minutos depois, estarem uma nos braços da outra, muita coisa
mudou. E muita coisa ainda vai mudar. Apenas um sentimento continuará
imutável: o amor. Independente de por quem você o sente, o
amor sempre será o mesmo. E, como diria Vinicius, que seja infinito
enquanto dure. Amem.

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