A Partilha
por
Marcelo Silva Costa
Qual o melhor modo de escrever sobre
um filme? Quando você, caro leitor, vai ao cinema, quer emoção
ou técnica cinematográfica? Sei, o ideal é que ambos
andem de mãos dadas, e quando isso acontece temos um clássico,
mas na grande maioria das vezes ou é um ou é outro. Se você
já leu algum texto meu já sabe que a passionalidade domina,
ok. Dito isto, me diverti com "A Partilha".
Sim, por mais que tenham propagado
por aí o caráter 'novela da Globo' que assola o filme. Não
é tanto assim, mas se você quer acreditar no que os jornais
dizem, outro ok.
"A Partilha" é a adaptação
cinematográfica da peça homônima de Miguel Falabella.
A peça estreou no teatro em 1990 e só agora chega ao cinema
pelas mãos de Daniel Filho. Conta a história de quatro irmãs
que se reúnem para vender um apartamento deixado como herança
após a morte da mãe. A obrigação do encontro
faz com que a partilha não fique apenas no campo material. Selma
(Gloria Pires), Regina (Andréa Beltrão), Lúcia (Lilia
Cabral) e Laura (Paloma Duarte) acabam promovendo um acerto de contas sentimental.
Uma irmã é diferente
da outra. Selma é casada com um militar (Herson Capri), e leva uma
vida – militar – classe média no bairro da Tijuca. Regina é
a liberada, esotérica e procura ter sempre uma visão alto-astral
da vida, embora sinta sempre falta de alguém. Lúcia abandonou
um casamento convencional e o filho para viver um grande amor em Paris,
muito embora a mãe tenha morrido achando que ela havia ido trabalhar
em um bordel francês (na verdade ela abriu uma boutique de carne
na cidade parisiense, sim, um açougue). E Laura é a eterna
caçula, aquela esquecida pelas mais velhas e que desconta esse lapso
dedicando-se aos estudos e tornando-se uma intelectual.
A partilha de sentimentos entre as
quatro revela o doce sabor da vida em família. Duas situações
ilustram perfeitamente. Na primeira, em meio a uma briga, Selma diz que
"isso não é uma democracia, é uma família".
Em outra, após uma longa discussão, flagra as quatro irmãs
procurando calmantes em suas bolsas. O chá para acompanhar o calmante
é bebido nos copinhos de brinquedo de infância, aquelas cozinhazinhas
miniaturas. O tempo passa.
E assim o filme segue. Está
longe de ser uma obra-prima, muito longe da concorrência, pensando
que possivelmente na mesma sala de cinema você encontre "Amores
Brutos" em cartaz. Não é uma obra-prima, mas diverte.
E cria um filão cinematográfico que, se por um lado não
é perfeito, pode atrair os olhos do público brasileiro para
o cinema nacional. Isso já vale, e muito.
Mas diga pra mim, caro leitor, o que
você espera quando vai ao cinema?

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