Os Anti-Heróis
Estão de Volta
por
Alexandre Petillo
Assim como alguns dos melhores filmes
da década foram protagonizados por anti-heróis (vide "Pulp
Fiction" e "Transpotting", só pra citar dois), dois dos melhores
deste ano não poderiam ser diferentes. O anti-herói, você
sabe, é aquele sujeito patife, com panca de durão, mas que
acaba se mostrando um tremendo sentimental. Ele abusa da violência,
utiliza de meios sórdidos e cruéis para alcançar êxito
em suas pretensões, mas mesmo assim fazem com que você torça
por eles no final. O anti-herói é de fácil identificação
com o público, afinal, não somos totalmente bonzinhos. Agora,
vai me dizer que nunca sentiu vontade de resolver tudo a sua maneira, custe
o que custar? Nega? Segue aí, então, dois anti-heróis,
distintos, cada um a sua maneira.
BUFFALO 66
Vincent Gallo, diretor, ator, modelo
de Calvin Klein, pintor e músico pegou um dos roteiros mais idiotas
dos últimos tempos e construiu uma das mais chapantes produção
cinematográfica da década. "Buffalo 66" arrebatou público
e crítica no festival de Sundance no ano passado, teve uma ultra
elogiado percurso pelo circuito cult americano e europeu e no Brasil, bem,
deixa pra lá. Ah, tudo bem, saiu direto em vídeo. Mas pelo
menos saiu, né?
Gallo conseguiu imprimir em Billy,
seu personagem no filme, toda a sua personalidade difícil, obsessiva
e neurótica. O filme começa com Billy, uma cara não
muito esperto que sai da cadeia e não sabe que rumo tomar. Primeiro,
ele tem que descolar um lugar pra fazer xixi ( a seqüência mais
hilária do ano ), depois decidir entre visitar os seus pais neuróticos
ou matar um ex-jogador de futebol americano dos Buffalo Bills que perdeu
um lance decisivo cinco anos antes, fato que, por a + b o levou pra trás
das grades.
No trajeto ele encontra a personagem
de Cristina Ricci, a gordinha mais sexy do cinema americano. Ricci, assim
como Gallo, leva às telas toda a sua personalidade perturbadora
e sinistra.
No decorrer do filme é impossível
não ficar totalmente envolvido com o dilema de Billy, afinal, ele
não tem muito a perder. Totalmente ignorado pelo pai, um maluco
que vive apenas para lamentar a carreira de cantor desperdiçada
e desprezado pela mãe, uma obcecada pelos insucessos do Buffalo
Bills (o Santos do futebol americano, ou seja, saco de pancadas), só
lhe resta recuperar a auto-estima que, pensando bem, ele nunca teve. Diante
desse rol de tragédias e desencontros, não pense que o filme
é um dramalhão, completamente ao contrário, é
um filme super divertido, fazendo daquele humor-negro-auto-depreciativo,
pérolas da tragi-comédia.
Esse clássico do cinema indie
americano, tem dois finais: um traz a melhor cena que Tarantino não
faz há anos e o outro, o melhor, mostra, que mesmo para um anti-herói-idiota-perdedor,
só o amor constrói .
O TROCO
Completamente oposto a "Buffalo 66",
"O Troco" (Payback EUA, 1999), é uma badaladíssima produção
hollywoodiana que passou com todo o marketing inerente a esses filmes de
grande orçamento mas, acabou não chamando muita atenção
do público e agora chega às locadoras. "O Troco" é
um thriller carregado de violência, onde Mel Gibson (claro, o anti-herói
mais cool dos anos 90) interpreta um vilão barra-pesada em busca
de vingança.
Familiar? Sim, o roteiro é
meio batido, mas o filme (?) sabe disso e assume todas as influências
e clichês próprios das aventuras policiais de antigamente.
Tanto é verdade que "O Troco" faz lembrar os filmes policiais dos
anos 60 e 70, sem cortes rápidos ou cenas curtas. Para adquirir
a atmosfera noir-underground, a fita de "O Troco" passou por um processo
especial de descoloração por uso de um solvente que fez com
que as cores originais se aproximassem ao máximo do preto-e-branco.
A impressão que se tem, assistindo, é como se tivessem derrubado
um copo de café no filme. Genial, resultado fantástico.
A história? Curto e grosso:
Gibson é Porter, um bandidão em busca de vingança
(eu sei que eu já disse isso, mas não custa lembrar) depois
que levou dois tiros nas costas após ser traído pela própria
mulher e pelo melhor amigo. No caminho Gibson sai matando como um louco
em seqüências de extrema violência que até os mais
chegados ao gênero correm o risco de sentir náuseas. No final,
mais uma vez, o amor...
"Buffalo 66" e 'O Troco" por razões
semelhantes são verdadeiras aulas de cinema, simples, empolgante,
marcantes, geniais. Vincent Gallo acabou se tornando o novo darling do
cinema indie norte-americano e Mel Gibson, bem, ele está rodando
"The Million Dollar Hotel", um policial futurista escrito por Bono, vocalista
do U2 e dirigido pelo alemão Win Wenders. Yessssss !!!!!
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