{"id":1946,"date":"2009-08-08T02:10:28","date_gmt":"2009-08-08T05:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2009\/08\/08\/%e2%80%9cbrasileiro-o-que-brasileiro-o-caralho-o-caralho%e2%80%9d\/"},"modified":"2010-01-18T08:56:31","modified_gmt":"2010-01-18T11:56:31","slug":"%e2%80%9cbrasileiro-o-que-brasileiro-o-caralho-o-caralho%e2%80%9d","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2009\/08\/08\/%e2%80%9cbrasileiro-o-que-brasileiro-o-caralho-o-caralho%e2%80%9d\/","title":{"rendered":"Brasileiro o que? Brasileiro o caralho, o caralho"},"content":{"rendered":"<p>Desde antes de entrar no avi\u00e3o de volta ao Brasil que eu j\u00e1 sabia que a readapta\u00e7\u00e3o neste ano seria um tanto mais dif\u00edcil do que no <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2008\/08\/10\/resumao-de-ideias-confusas\/\">ano passado<\/a>. Voc\u00ea vai uma vez, v\u00ea que tudo \u00e9 diferente (muita coisa pra melhor), volta, readapta e continua tocando o barco. Repetir isso tudo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. Passei pelas mesmas coisas nesta viagem, visitei muitos lugares que j\u00e1 conhecia, mas reafirmar as id\u00e9ias do outro ano bateu mais forte desta vez.<\/p>\n<p>Passei a semana toda vagando a esmo at\u00e9 assistir na manh\u00e3 de sexta \u00e0 cabine de \u201cSe Nada Mais Der Certo\u201d, \u00f3timo filme de Jos\u00e9 Eduardo Belmonte que abre com uma cita\u00e7\u00e3o de Rousseau que eu tinha na minha mesa quando trabalhava na biblioteca de Direito em Taubat\u00e9: \u201cUma sociedade s\u00f3 \u00e9 democr\u00e1tica quando ningu\u00e9m for t\u00e3o rico que possa comprar algu\u00e9m e ningu\u00e9m seja t\u00e3o pobre que tenha de se vender a algu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma bela porrada, que eu vou tentar dissecar melhor quando fizer uma resenha dele mais perto da estr\u00e9ia, mas toca em coisas que me assustam bastante, a principal versando sobre a derrota do homem para o sistema simbolizada no ato de perder tudo, mas aos poucos: o cara perde o emprego, fica sem dinheiro para pagar a conta de luz, e ent\u00e3o cortam, e ele tenta uma maneira de se reerguer, e n\u00e3o consegue.<\/p>\n<p>Acredito imensamente no poder da manh\u00e3 seguinte. Nas minhas \u00e9pocas \u00e1ureas de crises violentas eu sempre me agarrava na id\u00e9ia de que precisava sobreviver \u00e0 madrugada, pois uma m\u00e1gica da vida \u00e9 que o dia morre toda noite para renascer toda manh\u00e3. Os problemas permanecem, mas quanto mais cedo voc\u00ea enfrent\u00e1-los, mais cedo surgir\u00e1 uma maneira de resolv\u00ea-los. \u00c9 uma rotina constante, a gente perde, mas tamb\u00e9m vence.<\/p>\n<p>L\u00f3gico que esse \u00e9 um pensamento voltado para o plano particular. O problema do Brasil \u00e9 maior, e mais intenso. Como sorrir com tanta gente sofrendo jogada nas ruas, nos sinais, dormindo ao relento, sem o m\u00ednimo necess\u00e1rio para viver uma vida digna. Dif\u00edcil. Como consertar? Sinceramente, n\u00e3o sei. As estat\u00edsticas dizem que o pa\u00eds est\u00e1 crescendo, e s\u00f3 o que vejo \u00e9 mais mis\u00e9ria, mais pobreza e mais falta de oportunidades.<\/p>\n<p>Quando falo em morar fora do pa\u00eds n\u00e3o estou de maneira alguma negando que estes outros pa\u00edses sejam tamb\u00e9m imperfeitos. Todo pa\u00eds tem problemas assim como todas as fam\u00edlias. Alguns mais, outros menos, mas todos t\u00eam problemas. Os \u201cpobremas\u201d daqui, no entanto, me tomam cada vez mais e doem. Talvez eu v\u00e1, quem sabe, mas acredito que volto naquele velho navio e morra aqui na \u201cfavela onde eu nasci\u201d.<\/p>\n<p>Como escreveu Oswald de Andrade: \u201cO Brasil \u00e9 uma Rep\u00fablica Federativa cheia de \u00e1rvores e gente dizendo adeus\u201d. Por\u00e9m, inevit\u00e1vel, n\u00e3o podemos nos esquecer de nossas qualidades. \u00c9 f\u00e1cil reclamar, dizer que os outros s\u00e3o melhores nisso e naquilo sem levantar a nossa bola nas coisas que merecemos. Copo meio vazio, sabe. E foi isso que pensei ao assistir a mais um show do compositor Wado em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quantas vezes vi Wado ao vivo, e essa foi uma das apresenta\u00e7\u00f5es que eu menos esperava algo. Ouvi o disco novo essa semana, aquela coisa meio \u201cIvete Sangalo\u201d (hehe), como o pr\u00f3prio brincou comigo ap\u00f3s o fim do show, e gostei, mas fui sem expectativas para v\u00ea-lo ao vivo. E o show, caro amigo, foi um dos melhores que assisti dele nos \u00faltimos anos. O tipo de coisa que me fez ter alegria de estar aqui, agora.<\/p>\n<p>Wado fez um resum\u00e3o da carreira tocando tr\u00eas can\u00e7\u00f5es de cada disco em \u00f3timas vers\u00f5es roqueiras: \u201cUma Raiz, Uma Flor\u201d, \u201cBeijou Voc\u00ea\u201d e \u201cOntem Eu Sambei\u201d da estr\u00e9ia (2001); \u201cA Gaiola do Som\u201d, \u201cPo\u00e7o Sem Fundo\u201d e \u201cTarja Preta\u201d do \u201cCinema Auditivo\u201d (2002), \u201cTormenta\u201d, \u201cVai Querer?\u201d e \u201cAlguma Coisa Mais Pra Frente\u201d do cl\u00e1ssico \u201cA Farsa do Samba Nublado\u201d (2004); \u201cPendurado\u201d, \u201cTeta\u201d e \u201cReforma Agr\u00e1ria do Ar\u201d do \u201cTerceiro Mundo Festivo\u201d (2008) al\u00e9m de uma in\u00e9dita, \u201cN\u00e3o P\u00e1ra\u201d, que Maria Alcina gravou no excelente \u201cConfete e Serpentina\u201d (leia <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/05\/13\/mariana-aydar-tie-e-maria-alcina\/\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>Do disco novo, \u201cAtl\u00e2ntico Negro\u201d (2009), Wado s\u00f3 tocou a bonita \u201cPav\u00e3o Macaco\u201d, do verso instigante e emblem\u00e1tico: \u201cVem morar comigo neste apartamento, estamos um sobre os outros, temos satisfa\u00e7\u00e3o\u201d. Os cinco discos de Wado est\u00e3o todos para download no site oficial do artista (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www2.uol.com.br\/wado\/index2.html\">http:\/\/www2.uol.com.br\/wado\/index2.html<\/a>), m\u00fasica boa dada de gra\u00e7a, t\u00e3o f\u00e1cil, a um toque do mouse. Alimento para a alma.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o seja \u00e0 toa, mas no momento em que estamos fazendo a melhor m\u00fasica do mundo passamos por uma dura crise de falta de espa\u00e7os em ve\u00edculos de massa que d\u00eaem ao p\u00fablico o melhor de nossas artes. N\u00e3o sei se a qualidade dos discos est\u00e1 atrelada \u00e0 dificuldade de mostrar a m\u00fasica para a grande massa, mas vivemos um momento especial em nossa m\u00fasica, e algo inverso acontece nos EUA e na Inglaterra, locais em que nada novo e instigante acontece j\u00e1 h\u00e1 alguns bons tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>U2, Morrissey, Bruce, Bob Dylan, Wilco e outras lendas lan\u00e7aram discos no \u00faltimo ano pelo simples v\u00edcio de lan\u00e7ar um disco. N\u00e3o me entenda errado e deixe o fanatismo de lado: h\u00e1 coisas boas nesses cinco discos, mas todos estes nomes j\u00e1 fizeram coisas muito melhores em suas carreiras e est\u00e3o apenas rolando a engrenagem. Bandas novas? Nada comove. Por outro lado, o sangue ferve com facilidade neste pa\u00eds verde e amarelo.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode dizer que \u00e9 pouco, mas para mim n\u00e3o. Eu respiro m\u00fasica. Ela \u00e9 a minha liga\u00e7\u00e3o com o mundo. Ela me faz vivo. Eu quero mais, claro. Quero um pa\u00eds melhor. Quero que as diferen\u00e7as entre ricos e pobres diminuam drasticamente. Quero que a pessoa jogada na rua levante, sacuda a poeira e d\u00ea a volta por cima. E sei que o m\u00ednimo que eu quero j\u00e1 \u00e9 quase imposs\u00edvel, o que n\u00e3o quer dizer que vou deixar de querer, mas que aperta o peito, ah, aperta.<\/p>\n<p>Quando eu tinha 14, 15 anos, um dos meus sonhos (al\u00e9m de ser piloto de F\u00f3rmula 1 e ou jornalista) era escrever uma s\u00e9rie de livros nos moldes da cole\u00e7\u00e3o pocket da Brasiliense com pequenos tratados com dicas para consertar o pa\u00eds. O primeiro volume seria o \u201cComo reestruturar o setor educacional\u201d, que consistia basicamente em dar cultura ao povo, e n\u00e3o pass\u00e1-lo de ano como pessoas sem dinheiro passam por debaixo da catraca. N\u00e3o lembro os outros livros da s\u00e9rie, mas isso permaneceu na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00c9 duro demais ser brasileiro, mas eu nunca saberia ser outra coisa, e nem quero. Lembro da raiva de Arnaldo Antunes cantando o trecho de letra que d\u00e1 titulo a este post na vers\u00e3o ao vivo de \u201cLugar Nenhum\u201d (do \u00e1lbum \u201cGo Back\u201d) e entendo sua revolta, mas ela nunca me desceu bem. Nunca. Tenho vontade de encher um barco com uns 500, 900 brasileiros que fazem o pa\u00eds andar para tr\u00e1s, e mandar para o inferno gritando para eles: \u201cBrasileiro o que? Brasileiro o caralho, o caralho\u201d. A chance de outros 900 fdp surgirem, no entanto, \u00e9 imensa. O problema \u00e9 a m\u00e1quina, algu\u00e9m grita. E est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>Volto a repetir a cita\u00e7\u00e3o de Rousseau: \u201cUma sociedade s\u00f3 \u00e9 democr\u00e1tica quando ningu\u00e9m for t\u00e3o rico que possa comprar algu\u00e9m e ningu\u00e9m seja t\u00e3o pobre que tenha de se vender a algu\u00e9m\u201d. E s\u00f3 tenho uma certeza: estamos longe demais da democracia. Penso com dor na frase de Oswald de Andrade e no choque da lembran\u00e7a da tecla que sempre bato: somos exemplos. As coisas come\u00e7am a mudar dentro de casa, na nossa roda de amigos, no nosso trabalho. Por\u00e9m, tento fazer o melhor, mas j\u00e1 n\u00e3o sei se adianta. Cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ps. Perdoe a falta de foco e clareza. Eu tamb\u00e9m estou tentando me entender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde antes de entrar no avi\u00e3o de volta ao Brasil que eu j\u00e1 sabia que a readapta\u00e7\u00e3o neste ano seria um tanto mais dif\u00edcil do que no ano passado. 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