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Bruce e uma garotinha de 4 anos em Oslo

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Os shows de Bruce Springsteen duram, invariavelmente, cerca de três horas… todas as noites desde os anos 70 (ok, um ou outro passou de quatro horas). E neste longo espetáculo, Bruce não deixa o palco um segundo sequer, nem na hora do bis, quando a banda toda sai e ele faz um ou dois números solo até a banda voltar. Há vários momentos que se repetem show após show: ele tira pessoas da plateia para dançar no palco com ele e com os integrantes da banda em “Dancing In the Dark” (repetindo a cena do clipe original com Courtney Cox), pega cartazes que os fãs fazem com todo carinho pedindo músicas (em São Paulo, um rapaz não só pediu a música “She’s The One” como também queria pedir a namorada em casamento, e Bruce os trouxe para o palco para que o pedido fosse realizado), vira o cartaz para a banda, e ela toca o que o fã pediu. Um dos momentos mais fofos, porém, acontece em “Waitin’ on a Sunny Day”, canção do álbum “The Rising”, de 2002, e talvez seu último grande hit single planetário (e nem foi tãooo sucesso assim, mas boa parte das pessoas conhece e canta com ele) – e olha que dos sete álbuns que Bruce lançou neste século, seis foram número 1 na Billboard. Bem, em “Waitin’ on a Sunny Day”, o teatrinho fofo se repete em todo show, seja em São Paulo, em Trieste, em Roma, em Manchester, em Los Angeles ou… Oslo, que recebeu na quinta-feira passada a E Street Band para as tradicionais três horas de show. No momento de “Waitin’ on a Sunny Day”, Bruce puxa para o palco uma garotinha de 4 anos, que dá o “pequeno show” que você assiste abaixo (Bruce fica tão impressionado com a doçura e determinação da menina que retorna a ela depois, no segundo vídeo, para presenteá-la com sua gaita. Ela termina o vídeo mandando beijos para o Chefão). É emocionante.

Leia também:
– Bruce Springsteen ao vivo em São Paulo: Inesquecível (aqui)
– Discografia comentada: todos os discos de Bruce Springteen (aqui)

julho 5, 2016   No Comments

Um novo olhar sobre Oslo

Na minha primeira passagem por Oslo, ano passado, a cidade não me seduziu. Dessa vez, porém, foi diferente, e um dos diferenciais foi ter visitado lugares obrigatórios que passaram batido na primeira viagem, e que tornam a cidade decididamente mais atraente. Claro, Oslo continua sendo uma das três cidades mais caras do mundo (Estocolmo está no mesmo nível e, dizem os amigos, Copenhague segue o cortejo), o que nos faz sentir saudade de São Paulo (e isso é assustador), mas é uma cidade bela e absolutamente admirável.

O Øya Festival foi uma surpresa agradabilíssima, um festival de line-up cuidadoso e produção impecável. Consegui voltar ao Mathallen, mercado charmoso que lembra bastante a paulistana Feirinha Gastronômica, mas com um prédio próprio numa das áreas revitalizadas da cidade, e fiz uma séria busca pelas melhores cervejas norueguesas nos principais Vinmonopolet (Monopólio do Vinho, um órgão semelhante aos Systembolagets suecos) de Oslo – sim, elas existem (algumas Nøgne Ø, HaandBryggeriet, Lervig e Ægir seguem na mala).

A primeira das “descobertas” deste ano foi visitar o bairro Aker Brygge, bairro luxuoso surgido em 1986 no local onde até 1982 funcionou o estaleiro da cidade. Reformado em quatro etapas (finalizada em 1998), Aker Brygge tornou-se uma interessante área de prédios futuristas (e apartamentos de cair o queixo). Um dos pontos de destaque do local é o Astrup Fearnley Museum, obra espetacular do arquiteto italiano Renzo Piano inaugurada em 2012, perfeitamente integrada ao ambiente (com direito a uma prainha artificial).

No ano passado, um dos motivos de visitar Oslo era assistir ao Manic Street Preachers no festival Norweggian Wood, que acontece na área das piscinas públicas do Parque Frogner. Só isso já era motivo para ter visitado a instalação Vigeland, mas deixamos a oportunidade passar e, após a visita deste ano, não pense em outra atração tão obrigatória de Oslo quanto ele (no mesmo nível estão escalar o teto da Ópera e visitar tanto o Museu Nacional quanto o Museu Munch, para se encantar com a melancolia depressiva deste excelente pintor norueguês).

A Instalação Vigeland se intitula como o maior parque de esculturas do mundo feitas por um único artista, no caso, Gustav Vigeland, que trabalhou no projeto entre 1920 e 1943, quando morreu – Vigeland também assina a concepção e o layout arquitetônico do parque. Ou seja, o sonho de qualquer artista: uma área de 320 mil metros quadrados para pirar a cabeça. Gustav Vigeland preparou 212 obras em bronze, granito e ferro forjado – a maioria, esculturas, mas vale prestar nos detalhes dos portões de cada ala, trabalhados em detalhes e personais.

A obra abrange uma área de 40 hectares dentro do Parque Frogner começando com uma passarela que remete a Charles Bridge, de Praga, e terminando no impressionante Monolito, que reúne 36 obras em granito além de um imenso totem. Nesses dias de verão, as crianças interagem com as obras neste que é um dos locais mais visitados da Noruega – além de ser um ótimo local para piqueniques. Há ônibus e metrô nas redondezas, embora tenhamos feito o trajeto do centro até o parque a pé, apreciando os detalhes do bairro.

Por fim, Edvard Munch. Ano passado dei sorte de estar na cidade nos festejos dos 150 anos do pintor. A mostra era dividida entre a National Gallery e o Museu Munch, que não conheci na oportunidade. Este retorno permitiu rever quadros emblemáticos como “Morning“, “The Day After” (meu preferido), “The Kiss” e “White Night“. No Museu Munch encontrei uma segunda versão de “O Grito”, em perfeitas condições (a versão da National Gallery sofreu danos após um roubo) e admirei a “Madonna” (só não comprei a camiseta porque não tinha M, só XL). Outro que eu não havia ano passado e me surpreendeu foi o macabro “Dance of Life” (abaixo).

O saldo final desta segunda passagem por Oslo é uma conta bancária no vermelho, mas também uma cidade apaixonante que se aconchega carinhosamente na memória. Não nego uma possível terceira vinda para estes lados, principalmente para esticar a viagem para Bergen e conhecer os famosos fiordes da região. Ainda que Estocolmo pule a frente como cidade escandinava favorita (por sua beleza natural), Oslo se destaca por dezenas de atrações que merecem uma visita atenta (difíceis de serem vistas em apenas uma única viagem). Até a próxima.

Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 14, 2014   No Comments

Festivais: Øya, em Oslo (Dia 4)

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari (veja galeria)

No último dia do Øya Festival 2014, um sábado, Oslo amanheceu nublada e com jeitão de chuva. Deve ter sido por isso e, também, pela escalação mais fraca, que o quarto dia do festival tenha sido o que recebeu menos público. Na noite de abertura, Queens of The Stone Age levou uma ótima plateia ao Tøyen Park; Outkast foi responsável na noite seguinte por garantir o maior público ao festival neste ano; a terceira, com dois eventos locais (o show de 30 anos de Mayhem mais o encontro entre Røyksopp e Robyn), não decepcionou, enquanto a noite de encerramento, com Brian Ferry e Todd Terje, ficou aquém da media do festival.

Focado nas mulheres (ao menos no começo), o sábado foi aberto com um bom show de Nadine Shah mostrando as canções de “Love Your Dum and Mad” (2013), que lhe valeram comparações (inevitáveis) com PJ Harvey. No mesmo palco, logo depois, a jovem Aurora Aksnes mostrou que pode existir muita melancolia na vida de uma garota norueguesa de 17 anos. Aposta do Øya Festival em 2014, a cantora de Bergen, que ainda não tem nem disco lançado, foi uma surpresa agradável do palco Vindfruen, com gestos que lembram Lordes e uma inquietude no palco que lembra a Tori Amos dos primeiros anos. Vale acompanha-la.

Já que o assunto é melancolia, a delicadeza cristalina e deliciosamente desajeitada de Sharon Van Etten combinou perfeitamente com a tarde nublada de Oslo. De cabelos curtos e toda vestida de preto, Sharon abriu o show com três (belas) canções de seu recém-lançado quarto disco, “Are We There” – “Afraid of Nothing”, “Taking Chances” e “Tarifa” –, mostrou velhas canções (“Essa é uma canção folk mais antiga”, disse ao apresentar “Save Yourself”, de seu segundo álbum, “epic”, de 2010), e, antes de tocar “You Love is Killing Me”, avisou: “Essa é uma canção de amor: não chorem”. Para fechar, a bela “Every Time The Sun Comes Up”.

No palco Hagen, vestindo uma camiseta com uma estampa de Elton John, Mac DeMarco se divertia muito numa jam session de uns 15 minutos na passagem de som, com apenas o retorno de palco levando uma galera para a grade. Quando foi autorizado a começar a apresentação, avisou: “Agora vamos tocar de verdade”. E seguiu-se um indie rock desafinado e divertido. Cada canção vinha com uma historinha introdutória: “Essa eu fiz para um amigo”… e assim se seguiram “Salad Days”, “Blue Boy”, “Cooking Up Something Good” e “Chamber of Reflection” culminando num stage dive (proibido no festival). Ponto para o canadense.

Na tenda Sirkus, um redivivo Slowdive fez os apaixonados por guitarras altas flutuarem no ar. “Slowdive”, a música, abriu a noite, com o vocal de Rachel Goswell (de vestido preto) sendo encoberto pelos riffs de Neil Halstead (bancando o modelo fazendeiro) e Christian Savill. A lisergia instrumental seguiu-se com as explosões climáticas de “Avalyn”, “Catch the Breeze” e “Alison”. A cena em “Machine Gun” foi idílica: o pau comendo entre bateria, baixo e as duas guitarras, e Rachel no centro do palco tocando pandeiro inabalável, curtindo o momento, como se tivesse esperado a vida inteira por toda aquela microfonia. Rolou até declaração de amor no gargarejo. Um dos shows mais aplaudidos do festival.

No palco principal (e já debaixo de chuva), Bryan Ferry posava de membro de sua própria banda, tocando teclados na lateral esquerda do palco enquanto a baterista Cherisse Osei dava um show. O repertório, caprichadíssimo, trouxe números do Roxy Music (da abertura com Re-“Make/Re-Model” passando por “Stronger Through the Years”, “Avalon” e “Virginia Plain”), clássicos da carreira solo (o cavalo de batalha “Slave To Love” foi a terceira da noite) e um cover de John Lennon, “Jealous Guy”, encerrando de forma especial um grande show, prejudicado por São Pedro, mas valorizado por uma banda excelente.

Ainda tinha Todd Terje encerrando a noite no Tøyen Park e Boogarins numa casa, mas a equação “quatro dias de festival” + “chuva” + “arrumar quatro malas” + “acordar às 7h da manhã para voar para Amsterdam” cobrou seu preço. O saldo final dos quatro dias de shows, no entanto, foi extremamente positivo. Øya Festival parece ter encontrado um formato e trabalha dentro dele da melhor maneira possível. A organização cuidadosa do line-up, com shows pontuais começando exatamente quando o do palco ao lado encerra, é um dos pontos altos de um festival que coloca a música norueguesa lado a lado com o melhor que o mundo tem a oferecer.

A mudança acertada para o Tøyen Park, devido à reforma da estação de metrô que atende ao local anterior do festival, mostra a preocupação da produção com a viabilidade de chegada dos frequentadores, e merece aplausos. Ainda que seja assustador para bolsos latino-americanos no quesito comida (no qual o primeiro dia do Lollapalooza Brasil saiu ganhando em termos de qualidade) e, principalmente, bebida (um copo de cerveja = R$ 30), o Øya Festival é um festival irrepreensível que oferece tudo aquilo que um fã de boa música necessita para aproveitar ao máximo a experiência de quatro dias de música em quase 100 shows. Que o modelo perdure e inspire festivais ao redor do mundo: esses sabem fazer um festival de música de qualidade.

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Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 10, 2014   No Comments

Festivais: Øya, em Oslo (Dia 3)

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari (veja galeria)

Terceiro dia do Øya Festival e a sensação em meio a maratona de shows é de que, a cada dia que passa, o sol está mais próximo da cidade – e consequentemente o festival. Se o público da quinta-feira (cujo headliner era Outkast) havia superado o do primeiro dia (com QOTSA à frente), nesta sexta-feira o ambiente pareceu lotar apenas no começo da noite, quando o sol deu um leve descanso. Ele só foi embora ali pelas 21h, e entre 16h e 17h estava em seu auge, castigando a pele branca da lourada e tornando as áreas de sombra bastante disputadas.

Então não foi só por ter substituído os britânicos do The Horrors (que cancelaram a vinda no meio da semana) na última hora que o guitarrista sueco Robert Hurula (acompanhado de um quarteto barulhento) encontrou menos de 100 ovelhas pingadas na plateia do palco principal quando começou seu show, ainda debaixo de um sol digno do Rio no verão. Mesmo assim, o rapaz fez uma apresentação pop noise na medida, uma cacetada seguida de outra, e a plateia foi se enchendo de curiosos conforme o bom show transcorria. Uma boa surpresa do dia.

No palco ao lado, fãs já aguardavam pelo Neutral Milk Hotel meia hora antes do show começar (algo raro por estes lados), e quando Jeff Mangum entrou sozinho em cena e atacou de “Two-Headed Boy”, todos se beliscaram. “The Fool” surgiu em seguida, já com a banda toda no palco, e a artilharia de punk folk descompromissado com jeitão de fanfarra do interior tocou boa parte do clássico “In the Aeroplane over the Sea” (1998) com metais, serrote e bateria encobrindo o violão e a voz de Mangum em vários momentos até mais da metade do show, mas nem isso tirou a beleza de um dos shows mais importantes do ano.

Defendendo a escalação (death) metal no dia mais importante para o estilo no festival, os franceses do Gojira empilharam uma dezena de amplis Marshalls no fundo do palco e sentaram o sarrafo sonoro na plateia com a galera do gargarejo jogando cabelos ao alto no pôr-do-sol. Com uma condução mais seca e compassada do que acelerada, o baterista Mario Duplantier (destaque da banda) fazia com que seus dois bumbos despejassem socos no peito do público, um misto de fãs fieis do estilo, curiosos e muitas crianças (algumas, inclusive, maquiadas).

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Dois momentos especiais aconteceriam na mesma hora na terceira noite do Øya Festival: no palco principal, a cantora sueca Robyn iria se juntar ao duo norueguês Røyksopp, e a turma da música eletrônica escandinava estava em polvorosa. Robyn entrou mostrando carisma de palco e ginga (bastou uma rebolada pra galera enlouquecer). Torbjørn Brundtland e Svein Berge vieram na sequencia e foram ovacionados pela plateia. O encontro dos dois artistas, no entanto, iria acontecer no terceiro bloco do show, que coincidiria com a entrada em cena do Mayhem na tenda Sirkus comemorando 30 anos de Black Metal. Partiu inferno.

Naturais de Oslo e com uma história complicada marcada por dezenas polêmicas (um dos vocalistas se matou, o baixista fotografou o cadáver e colocou na capa de um disco; outro baixista esfaqueou 23 vezes um guitarrista – e foi condenado a 21 anos de prisão pelo assassinato; isso tudo sem contar a participação de integrantes no Inner Circle, grupo famoso por queimar mais de 100 igrejas no país), não deixa de ser surpreendente o Mayhem estar completando 30 anos na ativa, mesmo que com apenas dois integrantes da formação original.

Os locais se dividem quanto à banda. No mesmo momento em que mais de 15 mil pessoas dançavam ao som de Røyksopp e Robyn, cerca de 2 mil “admiravam” o palco do Mayhem, que mais parecia um açougue (com cabeças de porco e costelas de boi em meio a cruzes invertidas) iluminado por velas. E nem todos os presentes eram fãs: “Eles são uns idiotas fodidos”, comentou uma norueguesa. “O som é uma piada”, completou. Pode ser uma piada, mas uma piada beeem pesada, até mesmo ela (que “prestigiou” o show) precisa reconhecer.

Com o vocalista húngaro Attila Csihar à frente (após uma passagem pela banda no meio dos anos 90, Attila voltou ao posto em 2004, e permanece desde então) cantando abraçado a uma cabeça de caveira, o quarteto instrumental começou o massacre sonoro com a condução rápida do baterista Hellhammer passando como um trator sobre os presentes – muitos deles, crianças acompanhadas dos pais – mostrando que, 30 anos depois, o Mayhem segue firme como uma banda poderosa, barulhenta e demoníaca ao vivo. Amém.

Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 8, 2014   No Comments

Festivais: Øya, em Oslo (Dia 2)

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari (veja galeria)

O segundo dia do Øya Festival começou bem cedo: às 10h, a produção do festival colocou toda a imprensa estrangeira em um barco e os enviou para uma casa comunitária próxima de um pequeno fiorde. Ali, em meio a churrasco (de salsicha), cerveja e frutas, o pessoal do Øya promoveu jogos e debates interessantes além de liberar a galera para pular na água. A comitiva francesa não decepcionou, os ingleses se divertiram (e divertiram a galera), os japoneses ficaram olhando, os suecos não pensaram duas vezes, os norte-americanos fizeram que não era com eles e apenas metade da equipe brasileira (a fotógrafa) encarou a água fria.

Enquanto isso, dentro da casa, uma mesa formada por quatro franceses (dois bookings, um representante de selo e uma representante de major) e mediada por uma norueguesa discutia os rumos futuros da nova música escandinava. O ponto de partida era o sucesso da música local na França, um país cuja lei determina que 40% do que toca em rádio tem que ser cantado na língua francesa. Muito se discutiu, e algumas coisas valem para o mercado brasileiro: o pessoal ressaltou a importância das majors francesas investirem em novos talentos e, principalmente, das bandas encontrarem “sua família”, o seu verdadeiro público.

Já na área do festival, Bill Callahan (que começava aqui sua nova turnê europeia) surpreendia a todos ao abrir seu show com “The Wheel”, faixa de sua ótima estreia solo, “Woke on a Whaleheart”, de 2007, e emendar, para felicidade geral, com “Let Me See the Colts”, do último álbum do Smog, “A River Ain’t Too Much to Love” (2004). “Spring”, do ótimo “Dream River” (2013) apareceu em versão mais encorpada (Callahan surgiu acompanhado de uma segunda guitarra, bateria e baixo) e o set list caprichado ainda trouxe “Javelin Unlanding”, “Seagull”, “Winter Road” e “One Fine Morning” num belo show que lotou a grande tenda Sirkus.

No palco principal, uma multidão aguardava Janelle Monáe, e quando um MC de sua banda a trouxe amarrada para o palco (todo decorado nas cores branco e preto), a galera foi ao delírio. A menina é um estouro em cena: ela dança (muito), canta (bastante) e ainda faz alguns raps. Com o público nas mãos, distribui hits colados um nos outros, mantendo a adrenalina do público (muito maior neste horário do que no dia anterior) em alta. Uma pena que a guitarra estivesse inaudível (o baixo, por sua vez, parecia duas vezes mais alto do que o normal), mas ainda assim Janelle deixou o festival aplaudidíssima.

Um giro pelo festival permitiu descobrir o local em que as boas cervejas são vendidas: se o copo da Ringnes, a cerveja oficial do Øya (uma pilsen tradicional meio sem graça, mas que cai muito bem neste dia de sol de verão escandinavo), custa cerca de R$ 29, uma long neck de Brooklyn, Leffe ou Guinness sai por R$ 35. Melhor se hidratar com água, né mesmo. No quesito comida, hambúrgueres, fish & chips, tortilhas mexicanas, jambalaya e outros quitutes eram vendidos entre R$30 e R$ 40. Enquanto isso, o Little Dragon mostrava seu som genérico no palco Vindfruen e o Thulsa Doom fazia muito barulho por nada no palco Hagen.

Grande atração do dia, e um dos principais nomes do line-up 2014 do Øya Festival (e uma das principais turnês do ano), o Outkast causou uma catarse coletiva no Tøyen Park, com a lourada escandinava (de crianças até senhoras) cantando e dançando hip hop como se tivesse nascido no Bronx. Ninguém reclamou dos 25 minutos de atraso. Assim que o DJ (o palco ainda trazia uma baixista e duas backings) soltou a base de “B.O.B.”, Big Boi (de bermuda e camisa colorida) e Andre 3000 (de peruca cinza, todo de preto com uma camiseta onde se lia: “Loners Get Lonely Too”) adentraram o recinto e tomaram conta da festa.

Com a maior parte das canções na ponta da língua, o público escandinavo não decepcionou acompanhando no gogo “Gasoline Dreams” quase inteira e arremessando copos de cerveja (de R$ 30 – para nós, brasileiros) para o alto. O clima seguiu quente música a música (o set list é exatamente o mesmo em toda a turnê) culminando no já tradicional momento de “Hey Ya”, em que dezenas de pessoas retiradas da plateia sobem ao palco para dançar com a dupla. O alto astral da apresentação fez a arena do Øya Festival viver um momento especial, um daqueles shows com pinta de inesquecível para o público local. Bonito de ver.

O festival segue nesta sexta-feira com mais de 20 shows. Bora!

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Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 7, 2014   No Comments

Festivais: Øya, em Oslo (Dia 1)

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Liliane Callegari (veja galeria)

Quem vê a grandiosidade atual do Øya Festival, em Oslo, não imagina que o maior festival da Noruega começou em 1999 com 1200 espectadores. No ano seguinte, o público pulou para 4 mil pessoas, em 2003 já somava 24 mil espectadores , em 2010, alcançava a marca de 85 mil pessoas no fim de semana (com os quatro dias alternando entre 20 e 25 mil pessoas, dependendo da atração), que vem se mantendo desde então. Esse público se divide em uma grande área que recebe (este ano) 96 atrações divididas em cinco palcos (um deles, uma tenda para apresentações intimistas, debates e discussões sobre os rumos da música norueguesa).

As atividades do festival não se restringem ao primeiro parágrafo, e muito menos ao ambiente do Tøyen Park, no lado leste de Oslo: em todos os dias do festival, 23 casas noturnas da cidade recebem bandas norueguesas em seus palcos. A programação para esta quarta-feira, por exemplo, vai do som minimal synthpop do Blå, passando pelo folk de Janne Sea, pelo alternativo de Fay Wildhagen e pelo pop do Pow Pow até chegar ao hardcore do Haraball, o post metal do Kollwitz, o doom metal do Tombstones, o thrash do Condor e o kraut do Astro Sonic. Definitivamente, tem shows para todos os gostos (e, principalmente, bolsos).

Quem não é cidadão escandinavo (nascido ou imigrante) pode levar um tremendo susto ao conferir os preços da região, e olha que já existiram festivais brasileiros que conseguiram superar os R$ 900 do passe para os quatro dias do Øya Festival. A coisa fica feia no quesito bebida alcoólica, taxadíssima na região: um copo de chope na área do evento custa nada menos que R$ 30 – um hambúrguer sai por R$ 35, um baldão de pipoca por R$ 20, um prato de nachos por R$ 35 e um fish & chips, R$ 40. As lojas de discos vendem vinis novos das atrações do festival com preços entre R$ 60 e R$ 80 e as camisetas oficiais custam, em média, R$ 80.

O público é o mais variado possível, e num primeiro momento surpreende a quantidade de pais de família com filhos pequenos (de 1, 2 e 3 anos – todos com fones de proteção de ouvido – até moleques) presentes no recinto. O Tøyen Park fica exatamente ao lado do Museu Munch (grande pintor norueguês, responsável pelo quadro “O Grito”, de 1893, entre outros) e parece ter caído como uma luva para o festival, que mudou-se para cá neste ano (a produção precisou mudar o endereço do festival após 13 edições no Medieval Park porque a área do metrô que o atendia está em reconstrução, e isso prejudicaria o deslocamento do público).

As atividades do Scream & Yell no dia foram abertas pelo combo norueguês Atlanter, que subiu ao palco acompanhado das compositoras Hanne Kolstø e Anne Lise Frøkedal, somando três guitarras no palco (e oito integrantes) e dando vida a um projeto que estreou ao vivo em fevereiro deste ano – e já ganhou um EP, “Temple”, lançado em junho. Ao vivo, a junção de três nomes badalados da cena musical local soa mezzo kraut rock e mezzo progressivo (Yes do começo) com vocais melodiosos (meio The Byrds), uma aparente salada sonora que, por incrível que pareça, não soa indigesta. Nada de novo, mas, ainda assim, um bom show.

Enquanto isso, a tenda Biblioteket, um projeto resultante da parceria da Biblioteca Pública da cidade com duas casas de shows, recebia uma palestra de Benedikt e Kristoffer Momrak, dois ex-integrantes da banda Tusmørke. Pelo que deu para (não) entender, o bate papo – que divertiu bastante a plateia e tinha como fundo o rock norte-americano dos anos 50 – era sobre ervas mágicas do Jardim Botânico (ou alguma coisa muito doida nesse sentido). Do lado de fora, uma barraca vendia sorvete e sanduíche de carne de alce desfiada. O dono, bastante solicito, não pestanejava em agradar o cliente: “Quer um copo de leite?”. Já que é de graça…

Quer ver o Rival Sons, grupo de classic rock dos anos 70 nascido em 2009 em Long Beach? Venha para a Escandinávia no verão. Ano passado eles se apresentaram no Norweggian Wood, aqui mesmo em Oslo, e dessa vez foram escalados para o primeiro dia do Øya. Noruegueses caíram na farsa, e consta que brasileiros também, mas a banda é datada, bocejante e mais apelativa no abuso dos clichês que qualquer Pearl Jam cover (ou melhor, Stone Temple Pilots cover) que já tenha pisado no palco do Café Piu Piu, em São Paulo. Jay Buchanan, o vocalista, é 10 vezes mais afetado que Axl Rose… sem um centésimo do talento. Tristeza.

No palco Vindfruen, exatamente ao lado do palco principal, o músico norte-americano Jonathan Wilson tentava provar que todo o blá blá blá sobre seu álbum “Fanfarre” (2013) era digno, e não fruto de sua carteira de serviços prestados no mundo pop (de produtor de álbuns de Father John Misty e Dawes a participações em álbuns de Elvis Costello, Autumn Defense e Erykah Badu, entre muitos outros), e o que pode se dizer é que ele sobrevive bem no palco, mas ainda precisa comer bastante sucrilhos para ser comparado a gente como Tom Petty, Graham Nash e Jackson Browne. Deixem o menino (de 39 anos) seguir em frente.

Voltando no tempo, ali pelos idos de 2008, quando excursionava pela Europa divulgando o disco “Boxer” (2007), um excelente álbum, ainda que uns dois degraus abaixo das obras primas “Alligator” (2005) e “Sad Songs for Dirty Lovers” (2003), o The National era então uma das melhores bandas no mundo sobre um palco. O epiteto não vale para os dias de hoje apenas porque o grupo de Matt Berninger colocou paletó e gravata nos arranjos a partir de “High Violet” (2010), e as canções outrora únicas pareceram, desde então, seguir uma fórmula óbvia de “silêncio + explosão” que foi se desgastando com o tempo e perdendo brilho.

Dói escrever isso, principalmente depois da aula de bom humor do obrigatório documentário “Mistaken For Strangers” (2013), mas seis músicas de “Trouble Will Find Me” (2013) e quatro de “High Violet” num set list de 14 canções soam um erro descomunal (ainda que das quatro de “High Violet”, duas sejam as pérolas “Bloodbuzz Ohio” e “Terrible Love”) num show que ainda depende da atuação arrepiante de Matt para ser salvo. É ele quem pula no meio do público e canta “Mr. November” carregando um garoto de uns 13 anos nas costas a canção inteira, e arrasa no vozeirão entoando “Fake Empire”. Por alguns minutos, parece 2008. Saudade.

Um dos shows mais esperados do dia (para os noruegueses) era o de Thomas Dybdahl, nome de bastante sucesso da música do país neste novo século. Já comparado com Nick Cave e Jeff Buckley, ao menos por este show pode-se dizer que as comparações são equivocadas e, principalmente, exageradas. Com boa vontade dá para pintar o retrato de um James Taylor nórdico breguinha da fazenda, e olhe lá. O público, porém, cantou boa parte das canções de forma apaixonada e aprovou o show, que teve lá alguns momentos interessantes embalados numa proposta feita e refeita um bom par de zilhões de vezes.

Fechando o palco principal, a segunda passagem da turnê “…Like Clockwork” por Oslo (a primeira foi em dezembro de 2013) começou a 300 por hora com Michael Shuman disparando no baixo a linha inconfundível de “Feel Good Hit of the Summer”. No tradicional break do meio da canção, em que a melodia vai sumindo, Josh Homme começou a cantar “Never Let Me Down Again”, do Depeche Mode, até puxar a fila de narcóticos novamente: “Nicotine, Valium, Vicodin, marijuana, ecstasy and alcohol: Co-co-co-co-co-cocaine”. Como num passe de mágica, a ligação com “The Lost Art of Keeping a Secret”, do álbum “Rated R” (2000), foi mantida. Festa.

Antes de começar a terceira, Josh avisou: “Essa é uma música bem velha”. E “Avon”, do primeiro disco do Queens (1998), surgiu no set list para delírio dos fãs mais antigos. O show, dai em diante, foi absolutamente impecável. “My God Is the Sun”, que estreou no Lolla Brasil de 2013, está ainda mais densa. “I Sat by the Ocean” perdeu um pouco de corpo e ganhou mais sujeira. Com Josh ao piano, “…Like Clockwork” foi um dos momentos de destaque na noite. O empolgante coro da galera antes de começar “Burn the Witch” pegou Josh de surpresa, e o vocalista não resistiu e brindou ao público… com uísque (na terra do álcool 4.7%).

Por duas vezes, Homme pediu: “Acendam as luzes: quero olhar para vocês! Que noite linda, hein”. O caminhão de hinos não ficou de fora: “Monsters in the Parasol”, “Little Sister”, “Make It Wit Chu”, “Sick, Sick, Sick”, “Go With the Flow” e “No One Knows” fizeram a festa dos 20 mil presentes, que puderam ver como Jon Theodore fez o som da banda crescer e ganhar inflexões (só ele consegue fazer a bateria de “No One Knows”, um momento mágico de Dave Grohl, soar no palco como no disco). O respeito que o músico conseguiu dentro da banda é tamanho que o show termina com uma versão cacetada de “A Song for the Dead”, com direito a solo de bateria de Theodore, após uma hora e meia de porrada. Impressionante. E perfeito. Que show.

O Øya Festival continua nesta quinta com mais 23 shows. Nos vemos amanhã.

Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 6, 2014   No Comments

Ontem Estocolmo, hoje Oslo

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A primeira parada do dia derradeiro em Estocolmo foi no Museu de Arte Moderna da cidade, e Lili pode matar saudade de alguns de seus eleitos: Alberto Giacometti e Alexander Calder. Gostei do acervo, e ainda que não tenha me impressionado com muita coisa, valeu por descobrir a obra da grande pintora sueca Vera Nilsson.

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Aproveitamos o Hop On Hop Off, que aqui existe também em versão barco (que passeia pingando por várias pontos das ilhas centrais da cidade), para descansar e observar um pouco a cidade… de dentro do mar.

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O impressionante Vasa Museum, que apresenta o navio Vasa, que afundou em 1628 a um quilometro e meio da costa de Estocolmo, e foi resgatado do fundo do mar 333 anos depois (em 1961). Para mim, um dos museus mais espetaculares do mundo.

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 O Museu Nacional está fechado para reforma. Demos com a cara na porta…

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 Já o Abba The Musem estava aberto, porém, a entrada custando quase R$ 90 por pessoa nos soou proibitiva. Entramos na lojinha, demos uma fuçada rápida e fomos embora. Depois (olhando umas fotos no folder) me arrependi. Ah, o museu também dá acesso ao Swedish Music Hall of Fame (Roxette, Hives, Cardigans)…

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 Encaramos o hot-dog sueco… e aprovamos.

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Observamos a rotina da cidade no verão…

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E como despedida de Estocolmo, que definitivamente ganhou um lugar de destaque na lista de cidades especiais do mundo, fomos jantar e celebrar no ótimo pub (belga) Akkurat, com uma bela seleção de cervejas suecas, muitas belgas e algumas alemãs, inglesas e norte-americanas.

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Acordamos às seis da manhã para arrumar as malas, fazer check-out e partir para seis horas de uma ótima viagem de trem. Ainda deu tempo de dar uma caminhada em Oslo, mas temos mais quatro dias pela frente. A viagem segue.

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Europa 2014: Diário de Viagem

agosto 5, 2014   No Comments

Cinco fotos: Oslo

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Garotos


Piratas

Veja mais imagens de cidades no link “cinco fotos” (aqui)

março 8, 2014   No Comments

Três vídeos: Manic Street Preachers em Oslo

junho 20, 2013   No Comments

No trem de Oslo para Estocolmo

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Noite complicada de sono em Oslo. O sol da meia-noite, bastante comum por estes lados nórdicos nessa época do ano, chegou um pouco atrasado e, ali pelas duas e pouco da manhã, começou a invadir o quarto pelas frestas da cortina. Acordei assustado várias vezes durante a “madrugada” ensolarada acreditando que já era 9h da manhã e eu tinha perdido o trem que me levaria para Estocolmo. Desisti do sono às 6h (o trem só saia às 7h30).

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Na estação, a ideia era trocar as coroas norueguesas (uma nota de 200 que equivale a, tipo, uns R$ 75) que ainda tenho por coroas suecas. Há uma máquina ali exatamente para isso e você pode trocar o dinheiro que tiver (sendo euro, coroa norueguesa ou sueca) por um dos três disponíveis. É sensacional. Cada vez mais, as máquinas parecem tomar o lugar das pessoas, mas, neste caso em particular, a máquina não estava funcionando.

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Raramente escolho lugares quando compro passagens de trens e avião (nunca quando tenho que pagar um valor a mais para isso), mas desta vez decidi garantir um lugar na janela para admirar a paisagem. A planta do trem no site mostrava que todos os lugares pares eram na janela, paguei uns 40 krones a mais por uma vaga e não é que chegando no local, os lugares pares são no corredor? Nunca mais reservo algo assim.

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Tudo bem que o vagão está vazio e arranjei uma janelinha com tomada para carregar o computador enquanto escrevo e observo a paisagem. A Noruega, lembrando uma definição semelhante de Lili sobre o Chile, é um país alto e magro, desta forma, como a viagem é vertical, devemos sair rapidamente de seu território e adentrar a Suécia. A paisagem de casinhas é bonita e me lembra o quanto gosto de viajar de trem.

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Houve um tempo em que meu pai foi tentar a sorte numa cidadezinha do interior paulista chamada Bernardino de Campo, e várias vezes fiz o trecho “São Paulo / Bernardino” de trem (algumas à noite). É lamentável que a malha ferroviária brasileira esteja às moscas, e que o Governo não invista no setor. Adoraria viajar de São Paulo para o Rio de Janeiro, ou, quem sabe, para o Nordeste, em um trem observando a paisagem pela janela.

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No vagão restaurante não encontrei nenhuma Julie Delpy, mas sim um grupo de mineiros (imagino pelo sotaque inconfundível) de terceira idade se embananando para comprar o café da manhã. Uma das senhoras estava radiante por ter pego uma barra de chocolate suíço por 25 kr enquanto a outra se perdia numa confusão de notas norueguesas, suecas e de euros na hora de pagar. A senhora do caixa, atenciosa, explicava as diferenças.

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Voltei a ler algumas páginas de “Como é Bela a Puta da Vida”, livro novo do português Miguel Esteves Cardoso, presente do amigo Bruno Capelas. O livro, compilação de crônicas do autor publicadas em jornal, é uma declaração de amor do jornalista à sua esposa, e narra, na primeira parte, a descoberta de seu câncer, e o tratamento. “Logo Maria João poderá tocar as flores sem que estas fiquem azuis”, descreve Miguel ao fim da quimioterapia da mulher.

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Além da escrita emocional do autor, o que me comove é a maneira leve com que ele (e principalmente ela, que o ensinou a levar a vida com calma) narra o tratamento e a expectativa de que o casal saísse vencedor deste combate cruel. No último texto que li, Miguel conta que começou a valorizar o “tempo perdido”, mesmo em frente a semáforos. “Se somarmos o tempo parado em faróis esperando o verde, quantos verões daria?”, questiona.

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Aproveitar o tempo, ele faz questão de frisar, não é ligar para amigos no meio de um congestionamento, mas sim aprender a não fazer nada e admirar um jardim. Olhar a pessoa amada, saborear um café, escutar uma canção sem se preocupar que existam mais não sei lá quantos discos novos disponíveis. A velocidade do tempo, turbinada pela necessidade de estar atualizado a respeito de tudo e todos, está atropelando a calma. Precisamos combater isso.

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Oslo foi uma surpresa. Esperava (acho que todo mundo espera) um país de loiros e loiras, ruivos e ruivas nórdicas, e, claro, eles existem, mas a população (ao menos na capital) é bem dividida entre negros, indianos, turcos, japoneses e tudo mais. A cidade parece conviver bem com isso, embora em Malmo, na ponta do país, a diáspora racial ainda seja forte e latente. Algumas loiras são encantadoramente lindas, mas as norueguesas morenas não ficam atrás.

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A paisagem da janela do trem é verde e exuberante, e as casas são simples. Meu vizinho de poltrona sai do trem em toda parada para dar duas ou três baforadas em seu cachimbo, o que transforma esse fundo do vagão em um enorme cinzeiro. Logo fugirei e retornarei ao vagão restaurante para provar a cerveja de 2.1% de álcool servida no local. Segundo o garçom no Mathallen, a lei sueca é ainda mais rígida em relação á bebida. Sem muita expectativa.

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As cidades passam pela janela. Arvika, Kil, Kristinehamn. Todas muito charmosas e sedutoras. A vida parece calma aqui, e penso se conseguiria domar minha ansiedade morando em lugares assim. Sinto vontade, mas não de viver aqui, claro. O verão é algo único, mas o inverno me destruiria facilmente. Não sei o que seria mais difícil: conviver com o frio e a neve ou comigo mesmo e meus pensamentos trancado numa casinha de uma vilinha qualquer sueca.

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A trilha sonora da viagem é “Vazio Tropical”, novo disco do amigo Wado, aqui produzido por Marcelo Camelo. Eu já gostava de “Cidade Grande” na versão de Cris Braun, e a versão de Wado valoriza a boa letra. “Rosa” é Wado em seu melhor: “Os olhos dela ensinam estrelas a brilhar, vai doer / Os braços dela ensinam ondas a quebrar, vai doer / Vai doer, mas depois vai passar”. A dor está intrinsicamente ligada ao amor. Vai doer, mas depois vai passar.

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Há algo de Chico Buarque em “Flores do Bem”, talvez seja o vocal de MoMo, que engrandece a ótima letra. “Minha mãe me queria grande, eu preferi comprar minhocas, eu decidi pescar uns peixes / Meu pai me queria homem, eu preferi regar as plantas, eu decidi colher as flores / Minha mãe me queria santo, eu descobri que amava os vícios, eu precisei andar com as bruxas / Meu pai me queria impávido, eu preferi correr das brigas, eu aceitei levar uns socos”.

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Ainda não tenho uma opinião formada sobre o álbum, o mais sútil de toda carreira de Wado, com uma sonoridade despida que remete aos discos solo da carreira solo de Marcelo Camelo – aqui com a vantagem das canções terem foco e proposito, e não serem apenas rascunhos como nos trabalhos do ex-Los Hermanos. Além de Wado ando ouvindo muito “Antes Que Tu Conte Outra”, disco forte do Apanhador Só que cresce absurdos a cada nova audição.

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Terei apenas um dia e meio em Estocolmo, e terei que aproveitar ao máximo o sol se pondo quase às 23h. Na quarta, durante a madrugada (provavelmente ensolarada) estarei a caminho de Eindhoven, na Holanda, onde montarei meu quarto general particular para acompanhar o Best Kept Secret Festival. Dali para Bruxelas, na segunda, e dois dias depois estarei de volta a São Paulo. O segundo semestre promete mudanças, e que elas venham para o bem.

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É só nisso que consigo pensar…

junho 17, 2013   2 Comments