Dylan com café, dia 74: Crônicas

Bob Dylan com café, dia 74: O melhor livro escrito sobre Bob Dylan foi escrito por… Bob Dylan. Na verdade, esse livro ainda está sendo escrito. Planejado para ser lançado em três volumes, “Crônicas” só teve o volume 1 editado em um já distante 2004 (ficou 19 semanas na lista de best-sellers do The New York Times de livros de não-ficção), mas bastou para provocar tanto o leitor neófito quanto o fã de primeira hora, que se surpreendeu ao ver o homem abrindo o baú empoeirado da memória para relembrar momentos de seus obscuros primeiros anos (um quebra-cabeça geralmente montando no escuro por biógrafos) tanto quanto iluminar momentos escolhidos a dedo em uma carreira vasta e repleta de mudanças. “Crônicas” é um livro de Dylan a lá Dylan: não há uma sequencia cronológica, mas sim cinco longos (e deliciosos) textos divididos em 304 páginas, que mapeiam momentos particulares da carreira escolhidos a dedo por Dylan.

Na crônica de abertura, “Abrindo o Placar” (22 páginas), Bob relembra como era a cena do Greenwich Village quando chegou a Nova York (“O inverno estava de matar”) e pouco antes de gravar seu disco de estreia: ele conhece o estúdio em que foi gravada “Rock Around The Clock”, conta que John Hammond tinha ouvido duas canções originais suas e “teve a premonição que haveria mais”, relembra o ambiente do Café Wha?, do Café Bizarre e do Gaslight além de até falar um pouco de sua família. Mais longo, com quase 90 páginas, “A Terra Perdida” foca em literatura (“Havia romances de Gogol e Balzac, Maupassant, Hugo e Dickens. Geralmente eu abria um livro no meio, lia algumas páginas e, se gostasse, voltava ao começo”), música, formação cultural (com memórias da família e da vida escolar) e suas impressões de novo morador de Nova York, ou seja, é outro texto que permite ao leitor tatear o que fomentou a mente criativa do homem – num dos momentos mais interessantes ele relembra artistas que, como ele, não seguiam as regras, gente como Miles Davis (“Repudiado pela comunidade do jazz pelo álbum ‘Bitches Brew’) e João Gilberto, Roberto Menescal e Carlos Lyra (“Que estavam se libertando do samba infestado de percussão”).

A terceira história salta para o período de gravação do álbum “New Morning”, na virada dos anos 60 para os 70, enquanto a quarta crônica relembra as gravações do grande álbum “Oh Mercy”, de 1989 (desde o dia em que Bono, do U2, apareceu na sua casa e bebedeira noite adentro, o convenceu a mostrar músicas novas o conectando com Daniel Lanois, que seria importantíssimo na vida de Dylan nos anos 90). O conto final, “Rio de Gelo”, retorna no tempo e rememora artistas que o influenciaram assim como o dia da assinatura de seu primeiro contrato com uma gravadora: “John Hammond colocou um contrato na minha frente (…) e eu disse: ‘Onde eu assino?’. Eu confiava nele. Havia no mundo uns mil reis talvez, e ele era um deles. Antes de ir embora naquele dia, ele me deu dois discos que ainda não estavam disponíveis para o público, e que achou que poderiam me interessar. Um deles era ‘King of the Delta Blues’, de um cantor chamado Robert Johnson, que eu jamais tinha ouvido falar. Ele me mostrou a capa, um desenho incomum no qual o desenhista olha do teto da sala e vê aquele cantor e violinista furiosamente intenso. Que capa eletrizante. Quem quer que fosse o cantor da imagem, ele já havia me possuído”. Dai pra frente, Bob relembra como foi ouvir Robert Johnson pela primeira vez em mais um momento especial entre tantos de um grande livro. Essencial.

Especial Bob Dylan com Café

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