Dylan com café, dia 39: Time Out of Mind

Bob Dylan com café, dia 39: Após o lançamento de seu “Unplugged MTv”, Dylan seguiu estrada afora com sua banda na Never Ending Tour. Foram 115 shows em 1995 e 84 em 1996, com uma pausa entre novembro e fevereiro de 1997. Naquele inverno nevado em sua fazenda no Minnesota, Bob escreveu uma série de novas canções que, segundo ele, partilhavam de um mesmo ceticismo: “São canções mais preocupadas com as realidades duras da vida do que com o idealismo cor-de-rosa e cintilante tão popular nos dias de hoje”. Após sete anos sem material inédito, Bob entrou em estúdio em janeiro de 1997 escudado por Daniel Lanois para esboçar os arranjos do novo material. Eles não trabalhavam juntos desde “Oh Mercy” (1989), e o clima no estúdio em muito lembrava aquelas sessões, com Dylan e Lanois discutindo intensamente sobre o rumo de cada uma das canções, num processo de queda de braço criativo que, normalmente, terminava no estacionamento, com Bob e Daniel argumentando suas ideias longe da banda. No início das sessões, Dylan mandou uma declaração por escrito à sua gravadora: “Antes de gravar essas músicas, Daniel e eu conversamos sobre elas, sobre como deveriam soar longas. A música em si possui um efeito tão potente quanto às letras, e isso é proposital. Trata-se de um álbum performático, não poético, literário. Sentimos a música, mais do que pensamos nela”.

As sessões aconteceram entre 13 e 28 de janeiro de 1997, e a banda tocava o novo material ao vivo cerca de 12 horas por dia – o bruto de canções inéditas gravadas renderia facilmente dois novos discos. Lanois seguiu na produção enquanto Dylan dizia: “Acho que esse novo disco pode ser chocante por sua aspereza”. Então em maio Bob foi diagnosticado com histoplasmose, uma micose sistêmica que afeta órgãos internos (principalmente pulmão) e é causada por um fungo transmitido por aves e morcegos. O homem cancelou dois meses de shows da Never Ending Tour e, por muito pouco, “Time Out of Mind” (1997) não foi um disco póstumo. Em agosto, porém, Dylan já estava recuperado e de volta à estrada, e o novo disco, lançado em setembro, receberia os maiores elogios da carreira de Dylan desde “Blood on The Tracks” (1975). As críticas variavam de “73 minutos de genialidade” a “Dylan em seu ápice criativo” e “o álbum se atreve a tratar de mortalidade e é chocante em sua amargura”. A definição do biografo Brian Hinton para a esplendorosa faixa de abertura, “Love Sick”, é tão primorosa quanto à música: “Soa como psicodelia desacelerada, ‘I Put A Spell On You’ tocada em um hospício”.

Outra boa definição de Brian: “A canção ‘Dirt Road Blues’ é como se Charley Patton tivesse vivido o bastante para gravar nos estúdios da Sun Records nos anos 50”. Em “Standing In The Doorway”, uma suavemente desesperada canção de abandono anestesiada por melancolia, Bob canta: “Eu sei que a misericórdia de Deus deve estar próxima”. Já “Million Miles” é um blues em marcha fúnebre enquanto “Tryin’ To Get To Heaven” inspirou uma das melhores canções de Marcelo Nova. Especialista em “emprestar” trechos de canções de outros artistas (muitas vezes canções inteiras), Bob incluso, ao ouvir esta canção, Nova titubeou: “Eu estava traduzindo ‘Tryin’ To Get To Heaven’, em que o Dylan diz que está tentando entrar no céu antes que fechem a porta, e fiquei dias pensando nisso até concluir: eu não quero entrar no céu. Daí surgiu a poderosa ‘A Balada do Perdedor’”. No r&b retrô “’Til I Fell In Love With You”, Dylan canta que sua casa está em chamas, e lamenta: “Achei que choveria, mas as nuvens passaram reto”. O primeiro anti-single do disco foi “Not Dark Yet”, uma fantasmagórica e maravilhosa canção sobre a desintegração de um relacionamento. “E, vamos ser sinceros, com tamanho deleite sobre sua própria amargura”, pontua Hilton. Para Emmylou Harris, essa é a melhor música já composta sobre… envelhecer. Calma, há mais: A próxima, “Cold Irons Bound”, ganhou o Grammy de 1998 como Melhor Performance Vocal Masculina (outros dois Grammys foram concedidos ao disco: Melhor Álbum do Ano e Melhor Álbum Folk), e Daniel Lanois dá um show colocando a voz de Dylan milésimos à frente dos instrumentos, rebeldes, nervosos, e tudo soa puro farrapo: “É tão triste ver a decadência da beleza”, canta Dylan, concluindo: “Mais triste ainda é sentir seu coração sendo arrancado”.

Com a banda na mesma pegada desconstruída, nervosamente jazzy & blues, “Can’t Wait” trata o amor como uma condenação. Para encerrar, a mais longa faixa cantada por Dylan em um álbum de estúdio, e assim que terminou a sessão de gravação de “Highlands”, um cara da gravadora perguntou: “Bob, você tem uma versão curta dessa canção?”. E Bob respondeu: “Essa é a versão curta!”. São 16 minutos e 32 segundos (e ele não estava brincando: há uma versão de 27 minutos dessa mesma canção!) de um blues lento que vai num crescendo suave enquanto Bob narra acontecimentos nonsense, como estar ouvindo Neil Young e ter “que aumentar o som”, ou estar em um restaurante em Boston sem ter ideia do que quer comer. É a típica canção interminável (Bob já fez várias dessas), em que o verso atual puxa um próximo verso e assim por diante, encerrando um álbum grandioso, marcado pela dor, pelo desamor e pelo envelhecimento. Sucesso de crítica e público, “Time Out of Mind” foi o primeiro álbum de Dylan no Top 10 dos mais vendidos da Billboard em quase 20 anos (o último havia sido “Slow Train Coming”, em 1979) e inaugura uma nova fase na carreira do bardo. Assim como “Oh Mercy”, Dylan, no entanto, não ficou tão satisfeito com o resultado da produção de Lanois (ou, como alguém certa vez escreveu – sobre “Chaos and Creation in the Backyard”, o último grande disco de Paul McCartney, produzido pelo genial Nigel Godrich: um bom produtor tira qualquer artista de sua zona de conforto, mas poucos grandes artistas estão dispostos a esse exercício de caos e criação), e passará a produzir ele mesmo seus futuros discos de estúdio.

Ps. Segundo o amigo @garrasverdes (do Selo 180) no Instagram:  “Em vinil, teve uma tiragem pequena na época do lançamento e ficou anos fora de catálogo. Custava uma fortuna. Mas a procura era tamanha que pintaram umas prensagens piratas (em vinil colorido/marmorizado). Alguns anos atrás o selo Music On Vinyl reeditou o LP duplo oficialmente”

Especial Bob Dylan com Café

 

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