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Balanço: 17 dias de Estados Unidos

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Fotos (01 a 09): Liliane Callegari
Fotos (10 a 17): Marcelo Costa

Dezessete dias, quatro cidades. Acostumado a viagens mais longas, de 40 dias, uma viagem com a metade do tempo parece pedir mais e mais e mais. Mesmo nos Estados Unidos. Mudou a América ou mudei eu? “Vocês moram no Brasil? É um país muito bonito”, diz a senhora no ponto de ônibus. “Mas tem seus problemas”, comentamos. “A América também tem seus problemas”, ela encerra a questão. Embora o capitalismo desenfreado e a busca pelo milhão ceguem, meu olhar sobre a terra de Obama amaciou o julgamento.

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Bem provável que esse novo olhar seja devido às cidades que visitei nesta viagem. Da primeira vez, em 2011, foram São Francisco, Los Angeles, Nova York e Chicago. Agora, Nashville, Memphis, New Orleans e Nova York. Na primeira, Califórnia. Na segunda, extremo Sul. Lembro-me de um cara no show do Rush, no Madison Square Garden, dizendo: “Você vai pra Califórnia? As pessoas lá são estranhas” (risos). Não as achei estranhas, mas a pobreza latente e a sensação de falta de preocupação para com o outro me irritaram.

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O extremo sul, no entanto, é caipira. E para quem cresceu em uma cidade de 200 mil habitantes que parecia não ter mais de 100 pessoas, muda tudo. Nashville tem 600 mil habitantes e o desenho de uma cidade norte-americana clássica: o centro pequeno e recuperado por um bom prefeito pensando no marketing do turismo, e tudo o mais a uma distância que lhe obriga a ter um carro. O transporte público é usado apenas por pessoas de baixa renda, e, por isso, a espera é secular: passa um agora, outro daqui uma hora. E olhe lá.

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Ainda assim, Nashville vive o boom do country, uma música tradicionalista, vestida de babados, botas de couro e fivelas enormes de cinto. As ruas do centro são bonitas. Os bares que superlotam a Second Street e a Broadway começam a exibir candidatos a Garth Brooks e Taylor Swift logo de manhã, e a balada segue noitada adentro. Se você gosta de country é um paraíso. Se não, vale passar na Third Man Records, na Grimmeys, na Blackstone Brewery, no Museu do Country (e no Estúdio B) e, bora seguir viagem.

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Memphis é outra coisa. Memphis é mais… real. Também com mais de 600 mil habitantes, a cidade respira blues e rock, e blues e rock não está na moda (esqueça o Black Keys, hoje eles são pop de boa safra, mas pop não é blues). Há uma insegurança no ar. Um peso. Talvez o mesmo ou parecido com o que senti em Berlim. E apenas corrobora essa questão o fato de Graceland ficar em segundo plano no mapa da cidade. Ela está lá encravada na Elvis Presley Boulevard, quase 40 minutos de ônibus do centro da cidade. E a cidade só pisca o olho para Elvis.

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Aqui, uma visita ao Sun Studios e ao Stax Museum pode trazer lágrimas aos olhos enquanto o National Civil Rights Museum fará você entender melhor a cidade, os Estados Unidos, e você mesmo. Fará você sentir um pouco de nojo dos antepassados, mas é um nojo necessário. Como pudemos ser tão animais? Ainda assim, podemos argumentar que as pessoas são iguais, mas será que elas acham o mesmo? É terrível sentir-se minoria ao entrar em um ônibus. 2013. No fim, a grande questão: do que sentimos medo? De nós mesmos.

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New Orleans é uma paixão. Você precisa atravessar um enorme mangue em uma ponte interminável por dezenas de quilômetros (não confie no tanque de gasolina na reserva) até chegar à cidade que já foi colônia francesa, depois espanhola, e recebeu influencias dos países da América Central até ser comprada pelos Estados Unidos no começo de 1800. O dinheiro, no entanto, não apaga a história de uma cidade que é um choque constante de costumes, o que, óbvio, só poderia resultar em uma das melhores músicas do mundo, o jazz.

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Ao contrário de boa parte das cidades norte-americanas afundadas em fast foods (é impressionante a quantidade de réplicas do McDonalds), New Orleans tem uma cena culinária excelente baseada em influências cajun e creole, uma mistureba de influencias francesa, espanhola, portuguesa, italiana e africana. Comida rústica e saborosa tendo como base frutos do mar (muito camarão), arroz, cebola, pimentão, aipo, pimenta Cayenne, salsichas especiais (algumas com carne de cobra) e o que tiver na geladeira. Fiquei fã do Jambalaya.

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Andar pelas ruas de New Orleans é andar sobre uma cidade condenada, que vive a custa de diques que seguram as águas do Lago Pontchartrain‎, e o Tour Katrina, mais informativo do que trágico (ainda mais com uma guia como a Carol, uma senhora que não poupa críticas ao governo, seja municipal, estadual ou federal), mostra que a cidade vive o fantasma da inundação, o que explica a população de quase 600 mil pessoas em 2005 ter diminuído para 350 mil em 2013. E por que essas 350 mil pessoas continuam aqui? Porque New Orleans encanta.

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Esse pequeno passeio pelo Extremo Sul foi decisivo para encontrar uma América que olha em seus olhos, conversa com você em pontos de ônibus e parece mais amigável. Ainda assim, um carro faz total diferença em Nashville e Memphis (um pouco menos em New Orleans, onde o ótimo transporte público atende a todos, a não ser que você queira esticar até a capital do Estado, Baton Rouge, ou queira fazer passeios exóticos), e, principalmente, na ligação entre as cidades (mas encarar um ônibus Greyhound é uma baita experiência também). Ah, e é um turismo de terceira idade. Lembre-se: o rock and roll já passou dos 50 anos…

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“Para onde vocês vão”, pergunta o atendente da Delta no aeroporto Louis Armstrong, em New Orleans. “New York”, respondo. “Ahhh, The Big Apple”, ele comenta com certo ar sonhador que parece exibir um sonho norte-americano de também conhecer a grande cidade. Se Nova York parece seduzir os próprios norte-americanos, o que dirá de mim. Difícil exprimir em palavras a sensação de caminhar por estas ruas, mas talvez o fato de querer morar aqui dimensione o imenso desejo que a cidade causa no individuo.

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Claro, a América atenciosa ficou para trás, mas para quem vive em São Paulo, Nova York é apenas uma megalópole que deu certo. Há problemas, sim, mas tudo parece funcionar. A correria, a busca desenfreada pelo dinheiro, a força do capitalismo, tudo isso está vivo e pulsando em Nova York, mas também há permissão para fuga em parques, museus, shows, restaurantes. Embora boa parte da população gaste seu tempo de translado em metrôs com joguinhos no celular, Nova York oferece muito mais, e quero voltar, de novo e de novo.

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O saldo final foi positivo, e até faz desejar outra viagem. Quero me aprofundar em Chicago (os três dias da viagem anterior apenas instigaram o desejo) assim como dar uma segunda chance para São Francisco. Quero conhecer St. Louis e Washington. Quero mergulhar na sensacional escola norte-americana de cervejas artesanais. Quero ver shows no Fillmore, no Terminal 5, no Bowery, no Music Hall Williamsburg. Quero ir ao Lollapalooza Chicago e ao Outside Lands, em São Francisco. Um dia. O diário com o roteiro detalhado está aqui. Até a próxima.

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TOP CIDADES
1) New Orleans
2) New York
3) Memphis
4) Nashville

TOP SHOW
1) Palma Violets no Music Hall Williamsburg (NY)
2) Mudhoney no Music Hall Williamsburg (NY)
3) Frank Black e Reid Paley no no Music At The Mint (NO)
4) Band of Horses no Ryman Audithory (NA)
5) Peter Murphy e Ours no Webster Hall (NY)

TOP CERVEJAS
On Tap
1) Yazoo Rye Saison, de Nashville (TE)
2) Brooklyn Fiat Lux, de Nova York (NY)
3) Turtle Anarchy Rye IPA, de Franklin (TE)
4) Rolle Bolle, de Fort Collins (CO)
5) Shock Top Belgian White, de Saint Louis (MI)

Em Garrafas
1) Brooklyn Silver Anniversary Lager, de Nova York (NY)
2) Flying Dog Gonzo Imperial Porter, de Frederick (MA)
3) Dogfish Head Immort Ale, de Milton (DE)
4) Old Rasputin, de Fort Bragg (CN)
5) Triple Exultation Old Ale, de Fortuna (CA)

TOP BREWPUBS / RESTAURANTS
1) The Flying Saucer, Memphis
2) Blackstone Brewery, Nashville
3) Snug Harbor, New Orleans
4) Sweet Water, Nova York
5) Local Gastropub, Memphis

TOP SODAS
1) The Wizard of Oz Cherry Cola
2) Zombie Brain Juice
3) Bacon Soda
4) Cream My People
5) Dr. Pepper

TOP LUGARES
1) National Civil Rights Museum, Memphis
2) MoMA, Nova York
3) Music Hall Williamsburg, Nova York
4) The Saucer Mission, Memphis
5) Chelsea Market, Nova York

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Leia mais: Diário de Viagem Estados Unidos 2013 (aqui)

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