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Cinema Contemporâneo na América Latina

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Eu já devia ter contado isso na semana passada, mas quem diz que sobra tempo. O lance é que comecei na quarta-feira passada, na compania do Tiago Trigo e do Marco Tomazzoni, um ciclo de palestras sobre o Cinema Contemporâneo na América Latina, no Memorial da América Latina. A aula de abertura foi ministrada pelo professor da ECA Ismail Xavier, e girou em torno do cinema da argentina Lucrecia Martel, mais precisamente sobre seu primeiro filme, “O Pântano”, que eu ainda não tinha assistido.

Da Lucrecia eu só tinha visto “A Menina Santa” (2004), e após a aula cheguei em casa e baixei “A Mulher Sem Cabeça” (2008), mas ainda não vi. É incrível como essa mulher fascina tanta gente. Preciso assistir aos filmes dela com calma, para que a ficha cai. Gostei da idéia de “O Pântano” (mesmo assistindo ele entrecortado na aula) e fiquei ligeiramente impressionado com “A Menina Santa”, mas a cinematografia da Martel não bateu em mim da mesma forma que em tanta gente. Admiro, mas não me apaixono.

Já “Amores Brutos”, do mexicano Alejandro Iñarritu, eu amo. Um amor distante, diga-se de passagem. A única vez que o tinha visto tinha sido no cinema, em 2001, e sai dilacerado com uma violentíssima dor de estômago. Comprei o DVD na primeira oportunidade, mas nunca tive coragem de revê-lo. Assisti ontem, como esquenta da aula desta quarta-feira, e novamente fiquei impressionado com as imensas qualidades do filme.

O professor Ismail, que conduziu novamente a aula (de forma excelente, diga-se de passagem), mostrou certo incomodo devido ao moralismo da cena final, e uma certa rejeição à forma com que o roteiro trata o personagem do mendigo, que abandona a (suja, barulhenta e violenta) cidade do México em direção ao interior (o filme termina com o personagem caminhando na terra num simbolismo que representa uma negação da cidade e uma opção pela reconstrução da vida do zero).

Sinceramente não me incomoda. Até entendo. Iñarritu e seu (ex-)roteirista desenham um painel de famílias desestruturadas e caos urbano nas três histórias que se intercalam em “Amores Perros”, e opta pela saída moralista de acreditar que, a beira do caos que a sociedade vive, a saída é começar tudo de novo com base no perdão próprio como se dissesse: “Assuma seus erros, salde a divida consigo mesmo e tente ser uma pessoa boa”. Aceito, apesar de achar que a sociedade está condenada e que nem isso daria jeito nas coisas.

Como já escrevi diversas vezes aqui, uma das formas de tentar colocar o social nos eixos é colocar a própria vida nos eixos. Utópico demais esperar que governantes façam alguma coisa por nós. Utópico demais acreditar que uma revolução coloque as pessoas certas nos lugares certos (isso já foi tentando, e nunca deu certo). O negócio, pra mim, é arrumar as coisas dentro do núcleo familiar, dentro do núcleo de amizades, e partir de dentro para fora. Ok, utópico, mas vou continuar tentando fazer a minha parte. (risos)

O que fica disso tudo é que “Amores Perros”, 10 anos depois, continua sendo um filme excepcional. Para a aula da semana que vem, segundo a agenda do curso, teremos cinema uruguaio com reflexões sobre dois filmes que se destacaram bastante na cinematografia do país: “Whisky” (adorei e escrevi dele aqui) e “O Banheiro do Papa”. Prevejo bons debates. De qualquer forma é tão bom discutir cinema…

3 comentários

1 Argentino { 08.26.10 at 11:03 am }

Vale ressaltar que as metáforas são muito bem construídas e a mais óbvia acaba não sendo comentada: quando as pessoas perdem algo (o pai, a família, no caso de personagens do filme) tendem a agir como animais, por puro instinto, assim como os cachorros. A sociedade contemporânea (de consumo) está fadada ao fracasso por seus valores materialistas e supérfluos e age de maneira instintiva e violenta o tempo todo. E deu vontade de ver de novo, apesar de já ter visto várias vezes. :-) (Mas o final também não me incomoda, apesar de também achar que nada dará jeito na humanidade)

2 Adriano { 08.26.10 at 4:56 pm }

Também me recordo de ter visto o “Amores Brutos” no cinema e ter saído atordoado. É um belo filme com cenas memoráveis, sem contar a trilha sonora! Depois desse filme o diretor (Iñarritu) e o roteirista (Guillermo Arriaga) mantiveram a parceria em “21 gramas” e “Babel”, mas o trabalho de “Amores Perros” é sem dúvida único! Depois do “Amores Brutos” lembro de outro filme mexicano interessante, do Alfonso Cuarón, chamado “E sua mãe também”! Com certeza, discutir cinema é muito bom rs…traga suas reflexões da próxima aula!! Abs

3 Fábio Shiraga { 08.26.10 at 11:34 pm }

Eu gostei muito mesmo de Amores Brutos, e recentemente um amigo me emprestou os 3 para poder ver na sequência. Aí estou numa discussão com a namorada aqui. Eu chamo isso de trilogia. Acho que li uma resenha tua aqui, há tempos, falando da trilogia da dor. Ela diz que estes três filmes não podem ser chamados de trilogia porque não tem uma sequência de histórias. O que você me diz disso? Ou o que diria o teu professor? =)

Tenho saudades de uma oficina de documentários que fiz aqui em Limeira há uns anos. Passei várias tardes de sábado vendo muita coisa boa que eu nem sabia que exisitam. Eduardo Coutinho era um nome estranho para mim ainda. A oficina foi tão bacana que acabou rendendo a produção de dois curtas que pude participar. =)

Faço coro com o Adriano: traga suas reflexões da próxima aula.

Abraço.

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