Quando uma banda que você ama acaba
Se não fosse a música, eu não estaria vivo. É uma frase de efeito, mas é também a mais pura verdade. Foi a paixão pela música que me deu senso de direção em uma época da minha vida cujo futuro era incerto e o fim parecia estar sempre próximo. Sobrevivi, mas envelheci. E envelhecer é deixar de ser inocente para ser cínico.
Por isso, quando amigos me falaram do fim do Terminal Guadalupe, não me abalei. Já enterrei amigos queridos (três deles segurando uma das alças do caixão), já perdi familiares, e já vi pessoas que me inspiravam partirem sem motivo. Acontece. A vida é assim, uma grande e total merda, e já faz muito tempo que deixei de chorar pelo uisque derramado.
Isso não quer dizer que o fim de uma banda que eu admirava não tenha causado nenhum efeito em mim. Imagina. Fui “parceiro” de Dary em uma música e acreditava piamente que eles eram o futuro do rock nacional (principalmente após o grande álbum “A Marcha dos Invisíveis”), título que escrevi em um texto e que acabou se transformando em release do disco.
O anúncio do fim é marcante, diz um pouco sobre a ineficácia do cenário musical brasileiro atual, mas o lance é que hoje sei que você não pode colocar a sua vida nas mãos de ninguém (seja uma banda de rock and roll, seja um partido político, seja o seu primeiro amor). Como eu disse antes, envelhecer é tornar-se cínico, o que não nos impede de sofrer, sonhar e planejar. Apenas sofremos com menos transparência, sonhamos comedidamente e planejamos com mais cuidado.
Sem o TG, Curitiba fica semi-orfã de uma banda de ponta. Charme Chulo, Poléxia e Anacrônica tem tudo para representar bem a cidade, porém o grande problema de Curitiba nunca foi a qualidade de suas bandas, mas sim as diversas panelas que nunca souberam lidar umas com as outras. Há espaço em rádio, jornais e casas noturnas. Há espaço em veículos fora da cidade até, mas Curitiba luta ferozmente contra a vontade de crescer. Morre-se no parto.
Logo que foi anunciado o fim da banda, um e-mail de um amigo chegou. Num primeiro momento lembrei-me do texto que o André Forastieri escreveu após o suícidio de Kurt Cobain. Lembrei também da última parte da entrevista que a Legião concedeu à Bizz (dividida em três edições), um momento em que um Renato Russo descrente agarra o gravador e diz que uma banda de rock não vai mudar o mundo.
Por fim, lembrei de um garoto que, um dia, começou a rabiscar coisas em casa. Ele queria falar sobre música, queria descobrir as razões das coisas, queria entender a loucura da vida. Queria muito. Um dia ele fez um fanzine. E se a banda que ele amasse tivesse terminado, ele teria escrito um texto como este abaixo. Como eu disse na abertura deste texto, a música me salvou. Ela pode sim mudar o mundo.
Fiquei a tarde toda ouvindo Terminal tentando aceitar que acabou, entende? E estava indo tudo tranqüilo até agora pouco quando fui deitar e comecei a ouvir o Burocracia Romântica antes de pegar do sono. Mas o efeito foi justamente o oposto. Na boa, como eles podem fazer isso? Como eu - e mais uma dúzia de pessoas ficamos?
E Curitiba, como fica? Ainda temos bandas boas aqui, mas nenhuma chega se quer perto da carga emocional que a TG passava. E em termos de representatividade então? E que outra banda, no Brasil, consegue fazer músicas como De Turim a Acapulco? Pernambuco Chorou? Ou Burocracia Romântica?
Agora, até Lorena Foi Embora - no começo eu até torcia um pouquinho o nariz pra ela - me emociona. Na verdade, era como se eles falassem por você. Diziam o que você sempre quis dizer e nunca teve coragem - ou capacidade, que seja. E era tão reconfortante saber que você não precisava se expor, que existia alguém que fazia isso por você.
Burocracia já me fez ter vontade de chorar algumas vezes e isso não é pouco não. Está longe de ser algo efêmero - e é muuuuito diferente dos fãs chorarem em uma música do Nx Zero ou algo que o valha. Uma música é algo extremamente pessoal e é sim capaz de mudar uma vida - você, melhor do que ninguém deve saber disso
- e poucos conseguem fazer isso. Sério, é muito egoísmo isso… parece que quem você cresceu admirando, de repente, não se importa mais com você. Te derruba e quer que você continue andando. Como? Vai se lascar.
Egos inflados me deprimem. E tudo bem, logo logo eu vou aceitar. E eu sei que eles podem até não estar mentindo, mas com certeza, estão bem longe de dizer a verdade. E eu merecia isso - quer dizer, pelo menos achava.
ps: Tudo bem, agora tô vendo que eu também fui extremamente egoísta - hehe
ps2: Tudo bem, eu sei que você está pensando “pobre cirança ingênua”, eu não ligo - haha
ps3: Desculpa, eu precisava vomitar essas idéias inúties que me atormentavam - hehe






















11 comentários
Marcelo, fiquei extremamente emocionado com os dois textos. Cheguei ao final do post com os olhos marejados. Manifestações como essas, somadas a inúmeros e-mails e telefonemas carinhosos que tenho recebido, especialmente de fora de Curitiba, me fazem repensar o fim do Terminal Guadalupe. Vou respirar um pouco, consultar meus “oráculos”. Não se fica impune após reação tão forte e intensa assim. De coração, obrigado. E agradeça ao seu amigo. Eu vou responder para pessoas como vocês - adaptando Beto Cupertino: “Que se fodam os ressentidos”. Não tenham pressa, mas me aguardem.
Please don’t put your life in the hands of a rock’n'roll band who’ll throw it away…..

Mac,
sei como é, com o Violins foi mais ou menos assim pra mim! E se acontecesse com o Vanguart seria pior…
=/
sempre grandes textos e mais esse que é um tanto quanto bem mais triste
“Não tenham pressa, mas me aguardem”. bem que poderia ser verso de uma música nova.
que venha TG 2.0!
Da minha parte, eu ainda quero escutar “De Turim a Acapulco” ao vivo. Eu preciso e mereço. É uma das músicas da minha vida. E isso não é pouco…
Qq perda mexe com a gente, até um copo que se quebra, num átimo, nos sentimos menor. Isso é fato: A materialização da alma. Estamos presos àquilo que nos sustenta. Já perdi Pixies, estou prestes a perder Morrissey. Logo vou eu. Abraços Marcelo.
Notícia triste, porém acontece, o importante é seguir e levar os momentos de alegria e emoção conosco.
Fiquei mal quando uma banda aqui de sampa, (Gram) acabou, desde o começo acompanhava, e o Violins também, as músicas deles sempre me lembram algo de um tempo importante. Agora saber do TG, foi também chocante, é, crescer é doer de dentro para fora.
acredito que tudo se encaixa mais para frente.
Grandes textos, abraço Mac.
Pois é, Mac. O egoísmo é uma merda, mas a gente precisa ser feliz, não é? Belos textos
Abraço.
Uma alegria, para mim, foi, em 2007, ter comemorado o meu aniversário no Bar do Zé (antigo Mondo 77), aqui em Campinas, ao som de Terminal Guadalupe. Após o show pude conversar com Dary e consegui uma entrevista para o nosso resistente Fanzine Descontrole. Iremos reeditar a entrevista no blog do zine, em homenagem a essa que foi uma das melhores bandas que já existiram nesse país.
Fizeram um show arrasador, abrindo a noite principal da primeira edição do Garimpo, em BH. Não consigo calcular quantos shows de bandas independentes (ou não) já assisti. Mas desse não vou me esquecer jamais. E, já sei, Dary. Estou lhe devendo a cópia do show e também não vou me esquecer disso. Parabéns, Mac, por tudo o que anda aprontando por aqui. Abs.
Achei o texto pelo twitter do Dary, li pela primeira vez hoje, pensando no show de Novembro em SP. Conheci a banda esse ano, e eu digo que eu era alguém que não escutava muita música, e nem dava crédito a música brasileira recente. Hoje as músicas deles mudaram meu modo de ver a cultura musical brasileira e suas músicas servem como muletas para vários momentos da minha vida (Chico Balboa é tudo agora). Tudo que eu quero, é pelo menos ver eles umas vez ao vivo. Eu nunca tive uma banda que significasse tanto assim, e sempre achei que fosse baboseira, hahahaha.
Curiosamente esse show será um dia antes de um dia crucial para a minha vida daqui em diante, coincidências.
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