Um blog que eu gosto de ler
Eu leio muito poucos blogs. Mesmo. E não é por falta de vontade, mas por absoluta e total falta de tempo. Entenda: eu tenho dezenas (quase centenas) de coisas que gostaria de falar, escrever, dizer sobre o mundo, e com muita força de vontade consigo me expressar sobre umas três, quatro, no máximo cinco coisas. O mundo vai se acumulando dentro de mim, as idéias se esparramam pela alma e são atropeladas impiedosamente por outras idéias, novidades que surgem a toda hora, as quais não podemos de forma alguma impedir que continuem surgindo.
Muitos leitores e jovens jornalistas me escrevem pedindo para que eu passe para dar uma olhada no trabalho que eles estão fazendo, e eu guardo os e-mails na minha caixa de entrada esperando um momento de folga para olhar com a calma que eu acredito que eles mereçam, mas o momento de folga não surge, as coisas se acumulam, eu me perco em devaneios e em meio a idéias que, muitas vezes, não se concretizam. Sonhar, sonhar, sonhar. Não lembro onde, mas já escrevi certa vez que vivemos em um mundo sustentado pelo irrealizado (humm, acho que foi sobre “Magnolia” - e foi).
Um exemplo prático: essa semana fui rever “Não Sobre Amor”, a adaptação da Sutil Companhia de Teatro para o texto do escritor russo Victor Shklovsky. Desta vez, sentei na primeira fila. E fiquei completamente arrebentado. Revi a peça na terça, hoje é quinta, e meu estômago ainda sente pontadas de alguns momentos cruéis (e belíssimos) da encenação. Senti saudade de falar de amor, senti saudade do passado.
Não me entenda mal: sou futurista. Deixo as coisas para trás como cadernos do colegial. Parece cruel, eu sei, mas quero cadernos novos. O passado é um instante que se foi, e ama-lo, e quere-lo, é deixar de viver o presente. É viver em uma jaula. É estar infeliz. E estou feliz. Acordo todos os dias e olho a mulher que amo dormindo do meu lado, mas é tão difícil falar de amor quando se esta feliz.
É claro que essa dificuldade é fruto de tudo que li quando era um adolescente. Quando você devora os primeiros anos de Vinicius de Moraes ou decora a primeira página das “Elegias de Duíno”, de Rainer Maria Rilke, o mundo feliz não é a coisa mais esperada do mundo. Como diria espertamente Rob Fleming: “Eu sou triste porque ouço música pop ou ouço música pop porque estou triste?”. Eis a questão, mas na verdade ela é secundária. A tristeza tem sua beleza assim como os dias cinzas são muito mais charmosos que os dias de 40 graus de calor. Como os domingos. Everyday is lyke sunday.
“Não Sobre Amor” me levou para um tempo remoto em que eu escrevia cartas, poemas, discursos, teses e o escambau. Em guardanapos, cadernos do colegial e em uma velha máquina de escrever que minha memória desleixada me impede de lembrar onde foi parar. Foi uma viagem boa, mas estranha. É muito complicado para uma pessoa acostumada a viver pensando nos próximos dez segundos ter que lidar com o próprio passado. E, nada contra, eu amo todos os detalhes do meu passado - até os momentos de vergonha alheia -, mas o lugar do passado é em álbuns de fotografia, caixas com cartas e outros esconderijos (risos). Não posso negar, no entanto, que é um passeio interessante de se fazer, de vez em quando.
Bem, eu comecei esse post escrevendo no título sobre um blog que eu gosto de ler (embora leia bem de vez em quando) e, no fim, acabei falando sobre os blogs que eu gostaria de ler, mas não consigo, sobre coisas que eu gostaria de falar, mas não falo, sobre idéias e sonhos que eu gostaria de realizar, mas por algum motivo não realizo. Típico de mim. Minhas idéias são uma bagunça, mas é para isso - entre outras coisas - que serve um amontoado de letrinhas que se transformam em palavras e, de vez em quando, em idéias: para descarregar a alma quando as nuvens cinzas se dissipam. E se desculpar por qualquer coisa.






















5 comentários
É, Mac. Acho que essa é uma angústia comum a todos que gostam de ler, etc. Time is always against us…:)
Opa, mas que orgulho. Tão pouco tempo e ainda gasto com meu blog? É uma honra, obrigada
Realmente brilhante a peça. Vi nesta mesma terça e me deu uma vontande enorme de ter o roteiro dela.
Pena que acabou… pois das três peças que estavam no programa de 15 anos de companhia, foi a encenação que mais gostei. Ainda que Thom Pain seja boa, mas longa e em duas partes.
E Avenida Dropsie… é Will Eisner.
abraço
Maurício, uma das frases que estavam no texto e depois caiu era algo sobre sentir deja-vus. Às vezes parece que vivemos andando em círculos. De verdade.
Rodrigo, ce tava lá!
Que bacana! Eu também queria aquele roteiro.
Rachel, você devia escrever mais (hehe). Você tem uma combinação que adoro: bom texto e boas idéias.
Oi, Mac!
Vim aqui para ver suas impressões sobre o Radiohead ontem e acabei preso nesse texto, quase da mesma que me prendi em Não Sobre o Amor. Ou quase hipnotizado como fiquei ontem no show. A peça foi tão marcante que até ousei escrever uma “quase crônica” a partir das sensações que ela me despertou. Se tiver curiosidade: http://janiodias.blogspot.com/2009/03/sim-sobre-o-amor.html
Parabéns pela sutileza e forma que você indicou o seu blog amigo.
Abraço!
Faça um comentário