Blog do Editor do Scream & Yell
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Posts from — Fevereiro 2009

O Leitor

“O Leitor”, de Stephen Daldry - Cotação: 2/5

Stephen Daldry sabe o que faz. Não que faça bem, isso ainda vamos conversar, mas chega a surpreender que seus três filmes lançados nesta década tenham feito barulho no Oscar: “Billy Elliot”, a estréia, deu a Daldry a oportunidade de concorrer na categoria de Melhor Diretor em 2001 (Steven Soderbergh levou pelo bom “Traffic”, que perdeu injustamente para o engodo “Gladiador” em filme) e “As Horas” ganhou um caminhão de indicações (inclusive Melhor Filme e Diretor) consagrando o nariz falso de Nicole Kidman. Agora é a vez de “O Leitor” (com cinco indicações) correr por fora como azarão. Qualé a de Stephen Daldry?

Primeiro de tudo: o diretor britânico tem jeito pra coisa. Ninguém é indicado três vezes (com seus únicos três filmes) ao posto de Melhor Diretor à toa. Muita gente acerta no primeiro filme, e depois enrola a carreira toda com a fama que conseguiu. Daldry não. Há estilo em seus três filmes, e embora quase todos resvalem na pieguice (principalmente na meia-hora final), Daldry consegue imprimir uma marca interessante seja pela obsessão em closes que excluem os personagens e dizem mais do que gestos, seja pela escolha acertada dos roteiros.

Rasteiramente: em “Billy Elliot”, um garoto de 11 anos descobre sua vocação para o balé enquanto o pai tenta encaixa-lo no boxe. Em “As Horas”, uma escritora descobre sua vocação para a morte enquanto o marido tenta encaixa-la em uma família. Em “O Leitor”, um garoto de 15 anos se relaciona com uma mulher de 40, e se vê obrigado a dividir sua dor pessoal com a social quando descobre que seu primeiro amor fez o coração de muita mais gente parar além do seu (que insistiu em bater mecanicamente por décadas, apenas por bater).

O tema é caro à Academia: os corações que a amada do garoto fez parar eram judeus, muitos judeus, mas Stephen Daldry pincela levemente o assunto em algumas cenas procurando focar sua câmera na relação de amor entre os dois personagens principais. Michael Berg (interpretado pelo bom David Kross quando jovem, e por Ralph Fiennes quando velho) se apaixona por Hanna Schmitz (Kate Winslet em bela atuação), que cria um código romântico entre eles: o rapaz lê livros para ela e depois ambos se entregam aos prazeres da carne. É uma paixão de verão que, como sempre, irá marcar ambos, mas existem outros complicadores na história.

Oito anos após uma brusca separação, Michael reencontra Hanna: ele é estudante de direito e está assistindo ao julgamento de pessoas envolvidas na morte de milhares de judeus em campos de concentração. Ela está no banco dos réus, e todo o passado de Michael volta à tona.  É neste momento, quando o roteiro abandona o pessoal e parte para o social, que “O Leitor” tropeça e perde o foco. A discussão é interessante, mas Daldry parece não querer focá-la. Ele namora a crítica ao povo alemão (um dos personagens chega a enfatizar a conivência do povo perante o regime de Hitler), mas não aprofunda a questão preferindo a saída comum dos romances óbvios.

O clichê é uma arma bastante interessante, quando bem usada, o que não é o caso. Daldry encaminha a vida de seus personagens para a vala dos comuns tentando ganhar a simpatia do público. Apesar de suas três indicações ao Oscar, falta arte ao britânico para se equiparar a, por exemplo, Pedro Almodóvar, que conseguiu o feito de tirar do público sentimentos de afeto por um personagem marginal (Benigno, o enfermeiro que abusa sexualmente de uma mulher em coma). A Hanna de Stephen Daldry não inspira paixão, e sim pena, e pena não é algo para se admirar.

Só mesmo uma safra tão fraca de filmes para permitir que Stephen Daldry entre novamente no séqüito de concorrentes ao Oscar. “O Leitor” se sai bem na primeira meia-hora, que rende algumas passagens boas que destacam a grande atuação de Kate Winslet (que ganhou dois Globo de Ouro neste ano: por sua interpretação aqui e em “Foi Apenas Um Sonho”, em que está ainda melhor), mas chega a soar desajeitado perto de “A Vida dos Outros”, o excelente filme alemão que levou o Oscar de Filme Estrangeiro em 2007, cuja temática remonta aos anos que se seguiram à derrocada de Hitler.

Não é que Stephen Daldry seja um picareta – calma, não coloque palavras em minhas teclas, mas o britânico sabe o que fazer para conquistar a simpatia da Academia e algumas indicações com filmes medianos, que dividem público e crítica e parecem fadados a valorizar atrizes e tropeçarem na categoria principal. Com toda simpatia da Academia pelo tema do Holocausto, e auxiliado pela falta de criatividade do grande engodo do ano, “Benjamin Button”¸ Daldry corre por fora como azarão com boas chances de surpreender. Parece que estamos todos nas mãos de Danny Boyle, mas isso é assunto para um outro texto. Vou ali bocejar e já volto.

Fevereiro 11, 2009   4 Comments

Nuvens carregadas

Um amigo querido chega perto do meu computador, remexe e meus CDs e me diz:

“Eu tenho que te apresentar um cara. Ele gosta tanto de música quanto você, e vocês dois foram os melhores chefes que eu tive. Acho que vocês iam se dar bem”.

Das coisas boas de se ouvir em dias cinzas.

:)

Fevereiro 11, 2009   No Comments

Foi Apenas Um Sonho

“Foi Apenas Um Sonho”, de Sam Mendes - Cotação: 3/5

Qual o motivo de estarmos vivos? Qual o sentido em acordarmos todos os dias? Duas perguntas profundas que existem desde sempre e seguem sem resposta definitiva, afinal o máximo que conseguimos em milhares de anos foram um belo punhado de teses filosóficas e uma centena de religiões que, no fundo (bem lá no fundo), dizem a mesma coisa. Continuamos tateando em busca de alguma razão que de algum sentido a essa coisa toda que alguns chamam viver (e outros apelidam de inferno). Não é fácil.

Viver é uma tarefa árdua a qual somos submetidos diariamente tendo algumas suspeitas não provadas cientificamente (o que mais complica que explica) do motivo das coisas serem assim, e não assado, e de agirmos de modo x e não y. Daí escolhemos de que lado vamos ficar, agir, pensar e viver. E sentados sobre nosso próprio juízo julgamos todo o resto. É um trabalho sujo, mas alguém tem que faze-lô, afinal não estamos rodeados apenas por coisas belas (ainda bem) e o paraíso, como muitos desenham, deva ser um lugar pra lá de insuportável.

O diretor anglo-português Sam Mendes parece interessado nessa função de juiz, e já havia mostrado que tem jeito pra coisa no brilhante “Beleza Americana”, uma dura crítica a sociedade norte-americana agraciada com cinco Oscars (incluindo os cortejados Melhor Filme, Diretor, Ator e Roteiro Original). Com “Foi Apenas Um Sonho”, o diretor retorna ao tema, porém (quase) deixa de lado o cinismo apoiando-se na simplicidade de uma história que diz mais sobre o espectador do que sobre o próprio filme em si.

Logo na primeira cena do longa temos um encontro: April (Kate Winslet em grande atuação) conhece Frank (um Leonardo DiCaprio bastante correto). Ela tem sonhos de ser atriz. Ele é estivador, mas está pronto para subir na escala social, pois vai assumir um emprego de caixa em uma loja. Antes do beijo inevitável temos o corte e nos vemos alguns anos depois. April está no palco de uma peça ruim, e Frank parece não saber lidar com o fracasso da mulher, e o resultado é uma longa briga que coloca o mundo em seu devido lugar.

As peças começam a se encaixar no tabuleiro (dois filhos não planejados, uma casa bonitinha atolada em meio a um “cemitério social” de mortos-vivos, um emprego que não preenche os anseios da alma, uma vida que deveria ter seguido numa estrada, mas estacionou em um lugar qualquer entre o vazio e a falta de esperança) e conforme se juntam exibem o desenho cruel de uma classe média norte-americana atolada na monotonia, na apatia e no conformismo, uma série de adjetivos que ainda freqüentam a ordem do dia (seja nos Estados Unidos, seja no Congo, seja no Brasil).

April percebe que está sendo consumida pelo mal-estar da vida sem sentido, e inventa – e se agarra a – uma viagem para tentar sacudir a vida do casal. Frank reluta em um primeiro momento, aceita no segundo, e acaba por fim escolhendo o caminho mais simples na terceira parte. O casal se enfrenta vorazmente em todas essas passagens, mas não consegue se entender. Diálogos são travados, silêncios são ouvidos, mas o único som que persiste é o do desespero da vida que segue sem sentido em direção a vala do esquecimento. Já cantava Neil Young: “melhor queimar do que apagar aos poucos”, mas quem impede alguém de sonhar além de si mesmo?

Não há nenhuma alegria verdadeira em “Foi Apenas Um Sonho”, e por isso o filme tem verniz redentor (ou revolucionário, como queira) e requintes de obrigatório. Apesar da história se passar nos anos 50 (o livro de Richard Yates, que deu origem ao roteiro, é de 1961) é fácil perceber que a sedução do dinheiro (que troca sonhos por papel moeda), a falta de planejamento familiar e o desconhecimento que os próprios casais têm de si próprios são temas tão atuais e universais quanto na época em que foram escritos. Vale tanto quanto uma sessão de terapia e meia dúzia de cervejas e desabafos com o melhor amigo (a) no bar.

A Academia ignorou solenemente o filme (apesar do prêmio para Kate no Globo de Ouro), e não que ele seja sensacional, só brilha timidamente em um período de franca decadência da sétima arte. Foram três indicações ao Oscar nas categorias Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator Coadjuvante para Michael Shannon, que interpreta (com generosas doses de cinismo) um louco que enxerga mais coisas que a média comum observa (quem disse que em terra de cego, quem tem um olho é rei, precisa ver o outro lado do ditado popular). Pena que o Oscar de coadjuvante já tenha dono, que a idiota tradução nacional do título mate boa parte do drama do roteiro e que Winslet tenha sido indicada apenas por “O Leitor”, e não por sua belíssima atuação aqui. “Foi Apenas Um Sonho” merecia melhor sorte… como todos nós.

Ps. A tradução do título original, “Revolutionary Road”, é a pior (no sentido de entregar a história) desde… “Cidade dos Sonhos”, casualmente outro filme com nome de rua.

Fevereiro 9, 2009   3 Comments

A bicicleta da Lili

Sàbado de madrugada, três da manhã, uma dezena (talvez mais) de doses de cachaça, muitas risadas e uma discussão da relevância de Beatles e Ramones para a história do rock sacodem a casa de um amigo na “zona” do Baixo Higienópolis. Só consigo pensar quando uma carona me deixa em casa: “Vou dormir o domingo inteiro”. Acordo quase às 11h da manhã, e Lili está toda sorridente com algum plano maquiavélico que eu ainda não percebi. Na primeira brecha da conversa sobre o que fazer à tarde, ela emenda: “Eu quero andar de bicicleta no Ibirapuera”.

Ela passou a semana inteira questionando o popular ditado “é como andar de bicicleta: a gente nunca esquece”, e está animada pois sua bike chegou debaixo de uma chuva torrencial na noite de sábado, trazida pela irmã Jeanne. A cunhada está bastante envolvida na história, e a reportagem que ela escreveu para a Época São Paulo (do ótimo título “Diários de Bicicleta” - leia aqui) explica mais sobre todo o assunto. O fato é que Lili queria descobrir se conseguia andar de bicicleta. E alguém teria que levar a bike até o Ibirapuera. Já sabe para quem sobrou, né.

Lili foi de ônibus enquanto eu descia a Bela Cintra, entrava na Antônia de Queiroz, subia a Augusta e a Peixoto Gomide, adentrava a Paulista (ah, se todos os dias fossem como domingo, sem tantos carros na Paulista), cortava pela Pamplona e Alameda Santos, e descia a toda a Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao Ibirapuera. Cheguei “morto” uns 15 minutos antes dela, e não lembro direito a última vez que havia andado de bicicleta. Acho que faz uns 20 anos, talvez mais. E foi extremamente divertido. E cansativo, mas valeu a pena.

Porém, nada mais bonito do que ver o sorriso dela ao sentar na bicicleta e sair pedalando - toda dura, mas sem cair - pelo parque. Lili parecia uma criança, e fiquei rindo enquanto ela quase causava alguns pequenos acidentes, mas descobria que a gente nunca esquece como andar de bicicleta. Mudei o roteiro na volta seguindo pela Brasil, subindo a 9 de Julho e entrando na Barata Ribeiro. Cheguei 20 minutos antes dela, o que me deu tempo de tomar um banho, deixar o episódio semanal de Lost prontinho para assistirmos e ainda baixar algumas coisas.

Pedalar em São Paulo é um desafio. A regra é não se intimidar perante os carros, mas quem diz que a gente consegue (na primeira vez)? No entanto, nada como sair da monotonia do ônibus lotado e descer um morro com o vento no rosto. Como a Jeanne escreve na reportagem da Época, ”a sua relação com a cidade muda. Você passa para a escala humana. Nota um monumento que nunca viu, um prédio bonito.  Você contribui para uma cidade melhor, com menos carros, menos poluição, menos barulho e menos trânsito”. A prefeitura de Paris aluga bicicletas para aliviar o trânsito. Vale muito pensar sobre o assunto.

Leia também:
- “Diários de Bicicleta”, por Jeanne Callegari (aqui)
- Prefeitura de Paris aluga bicicletas para aliviar o trânsito (aqui)
- Parisienses e turistas adotam novo serviço de bicicletas (aqui)

Fevereiro 9, 2009   10 Comments

Seven Ages of Rock

O pessoal da VH1 me mandou o primeiro capítulo do documentário “Seven Ages of Rock”, que estréia às 22h neste sábado, no canal especializado em música e cultura pop. Produzido pela BBC (o que já garante uma centena de imagens raras), o documentário abre focando na Inglaterra do início dos anos 60, e conta com entrevistas com Eric Burdon (Animals), Al Kooper (Blood, Sweat & Tears), Jack Bruce (Cream) e Robbie Robertson (The Band) além de trechos de apresentações de Bob Dylan, Cream, Kinks e Yardbirds. Não tive tempo de ver o programa inteiro (imagina, ainda nem vi o quarto episódio da quinta temporada de Lost - ahh, a falta de tempo), mas o que vi é altamente recomendável. Vou assistir com calma e depois comento, ainda mais que a série se estende pelos próximos seis sábados (no da semana que vem terá Velvet Underground). Dá uma conferida no link que tem uma coisas bacanas:

http://vh1brasil.uol.com.br/canal/7_ages/ 

Fevereiro 7, 2009   3 Comments

Sabe aquela vontade enorme de sumir?  Então…

Fevereiro 6, 2009   1 Comment

Você tem um violão ai?

“Poucos meses antes, em meados de 1957, (Roberto) Menescal estava em casa, na festa de bodas de prata de seus pais, no apartamento da Galeria Menescal, quando bateram à porta. Devia ser mais um convidado. Foi abrir e um rapaz que ele nunca vira perguntou:

“Você tem um violão ai? Podíamos tocar alguma coisa”.

O rosto de Menescal transformou-se num ponto de interrogação. Não sabia o que dizer. Descobriu imediatamente quando o rapaz se apresentou:

“Eu sou João Gilberto e quem me deu seu endereço foi Edinho, do Trio Irakitan”.

Para Menescal, se aquele era João Gilberto, o nome de seu ex-professor Edinho era dispensável como recomendação. Ele já ouvira falar em João Gilberto - e, no meio de jovens músicos cariocas nos últimos meses, quem não? Sabia que se tratava de um baiano meio louco e genial, fabuloso no violão, cantor afinadíssimo e que às vezes aparecia no Plaza. Convidou-o a entrar. João Gilberto atravessou as dezenas de convidados como se eles fossem feitos de vapor - da mesma forma, ninguém o viu - e foram para um quarto nos fundos. Não disse mais nada. Apenas examinou o violão, afrouxou uma ou duas cravelhas, testou o prolongamento das notas e cantou “Hô-ba-la-lá”, sua própria composição.

Era um beguine - um ritmo caribenho que, mesmo em 1957, já estava mais do que esquecido se não fosse por aquela canção de Cole Porter. Menescal não entendeu direito a letra, e ainda que ela fizesse muito sentido, ele, como a maioria dos músicos, não dava importância a letras. E quem queria saber de letras diante do que ele estava ouvindo?

A voz de João Gilberto era um instrumento - mais exatamente, um trombone - de altíssima precisão, e ele fazia cada sílaba cair sobre cada acorde como se as duas coisas tivessem nascido juntas. O que era espantoso, porque o homem cantava num andamento e tocava em outro. Na realidade, não parecia cantar - dizia as palavras baixinho, como Menescal já ouvira outros fazendo. Mas ele sentia que João Gilberto, se quisesse, seria capaz de se fazer ouvir lá na sala, com ou sem festa. João Gilberto cantou “Hô-ba-la-la” cinco ou seis vezes, com mínimas alterações, mas cada versão parecia melhor que a anterior. E que diabo de ritmo era aquele que ele fazia? Menescal não resistiu. Pegou-o pelo braço, com violão e tudo, e saiu com ele pela noite. Ia exibi-lo aos amigos.

Começou pelo apartamento de Ronaldo Bôscoli, na Rua Otaviano Hudson. João Gilberto cantou “Hô-ba-la-la” incontáveis vezes. Cantou também uma outra canção sua, esquisitíssima, chamada “Bim Bom”, e uma série de sambas que eles nunca tinham ouvido - e que João Gilberto ia identificando como tendo sido grandes sucessos desse ou daquele conjunto vocal do passado. Em apenas uma noite e quase todo o dia seguinte (ninguém dormiu), ele lhes abriu os ouvidos para uma música brasileira muito mais rica do jamais haviam imaginado. E, quando lhes falou de suas admirações - Lúcio Alves, Dick Farney, Johnny Alf, João Donato, Luiz Bonfá, Tom Jobim, Tito Madi, Dolores Duran, Newtom Mendonça, vários deles seus amigos -, eles entenderam tudo. Para Menescal e Bôscoli, naquela noite, João Gilberto era a realidade encarnada do que, até então, eles vinham procurando às cegas, meio pelo tato.

Da casa de Bôscoli, completamente insones, foram logo de manhã ao apartamento de Nara, onde a epifania se repetiu, e, de lá, à casa de Aná e Lu, na Urca. Menescal queria aprender aquela batida que João Gilberto fazia no violão - aquele jeito de tocar acordes, não notas, produzindo harmonia e ritmo de uma só vez. Durante essa perigrinação de quase dois dias, sem pausas, ele não tirava os olhos das mãos de João Gilberto. Particularmente da mão direita: Menescal observou que os dedos polegar e mínimo de João Gilberto se esticavam, formando quase uma reta, enquanto os três dedos do meio faziam a pegada e retesavam todos os músculos do seu antebraço. E ele, Menescal, se achava professor de violão!

E havia as coisas que João Gilberto falava enquanto iam de casa em casa e de volta ao apartamento de Ronaldo. Poesia, por exemplo. Carlos Drummond de Andrade era claramente o seu favorito, mas ele também recitou, de cor, trechos inteiros de “Cartas a um Jovem Poeta”, do alemão Rainer Maria Rilke. Literatura era uma preocupação remota dos músicos, inclusive cantores, e era inédito ouvir um deles citando escritores com tanto desembaraço. Em outro momento, João Gilberto começou a falar de técnicas de emissão de voz. Tinha admiração pela maneira como Dick Farney controlava a respiração ao cantar, conseguindo soltar quilômetrosde frases num único fôlego, “apesar de fumar dois maços de Continental por dia”. (Menescal observou depois que, durante todo o tempo em que estiveram juntos, João Gilberto não fumou e parecia resmungar quando alguém acendia um cigarro ao seu lado. E também não bebeu, o que era duplamente estranho. Poxa, todo mundo bebia ou fumava!).

Mas o que deixou Menescal atarantado foi quando João Gilberto explicou-lhe como exercicitava técnicas dos iogues para respirar, e como isso lhe permitia espichar ou encurtar as frases musicais, sem perder sílabas e sem se cansar. Os exemplos vinham uns atrás dos outros. Tudo aquilo repicava nos ouvidos de Menescal como pepitas douradas e ele percebeu, fascinado, que estava ficando preso àquele homem. A imagem que lhe veio à cabeça, para definir João Gilberto, foi a de uma aranha em sua teia, tecendo seduções ao redor de moscas. Precisava tomar cuidado. Pois não adiantou de nada saber disso: quando se despediu dele na rua e voltou pra casa, a fim de tentar dormir, já estava falando, pensando e se comportando como João Gilberto”.

Trecho de “Chega de Saudade”, livro de Ruy Castro

Fevereiro 5, 2009   7 Comments

Concorra a quatro livros de Bill Graham

Mais de 150 participantes enviaram um e-mail com o nome de três livros sobre música que a Editora Barracuda lançou no país e participaram da promoção que oferecia quatro exemplares do excelente ”Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock”. Abaixo o nome dos sortudos sorteados:

- Bruno Jamalaro, São Paulo
- Luiza C Miranda Garcia, Curitiba
- Marcel Ricardo Vicente, Bauru
- Maria Rita L Cortes, São Paulo

Os livros seguem via correio nesta semana.

*******

Leia também:
- “O livro obrigatório número 1 do rock”, por Marcelo Costa (aqui)

Fevereiro 4, 2009   5 Comments

Blur, Wilco, Bruce e… Killers (?!?!)

Mudanças de planos do primeiro para este segundo post sobre a viagem para a Europa em julho: Lili não poderá esticar até agosto, então vamos ter que viajar à partir de 01 de julho mesmo (ou seja, o mesmo período do ano passado). Sabe que fiquei feliz? Isso permite colocar no balaio de shows a serem vistos coisas como Blur no Hyde Park (02/07) e Wilco em Barcelona (04/07). E acabei de olhar o preço das passagens para Turim, na Itália, local em que Bruce Springsteen se apresenta no dia 21/07 (dois dias após o fim do FIB 2009): 26 euros. Acho que pode rolar. Primeiro rascunhão:

28/06 - Londres
29/06 - Londres
30/06 - Londres
31/06 - Londres
01/07 - Londres
02/07 - Londres (Blur)
03/07 - Barcelona
04/07 - Barcelona (Wilco)
05/07 - Barcelona
07/07 - Barcelona
07/07 - Madri
08/07 - Madri
09/07 - Madri
10/07 - Paris
11/07 - Paris
12/07 - Paris
13/07 - Paris
14/07 - Paris
15/07 - Paris
16/07 - Benicassim (FIB)
17/07 - Benicassim (FIB)
18/07 - Benicassim (FIB)
19/07 - Benicassim (FIB)
20/07 - Milão
21/07 - Turim (Bruce)
22/07 - Genova
23/07 - Roma
24/07 - Roma
25/07 - Roma
26/07 - Berlim
27/07 - Berlim
28/07 - Berlim
29/07 - Aachen
30/07 - Aachen
31/07 - Bruxelas
01/08 - Bruxelas
02/08 - Bruxelas

Eu ainda devo ficar mais uma semana na Europa, mas a rigor esse é o primeiro graaaande rascunho da viagem.

Fevereiro 4, 2009   4 Comments

Os 40 melhores discos dos anos… 90

Calma, calma, calma! A lista dos melhores discos dos anos 00 será publicada apenas em 01 de janeiro de 2010 com o apoio do enorme grupo de colaboradores que participa anualmente do Prêmio Scream & Yell. Mas que tal relembrar?

Fevereiro 4, 2009   20 Comments

Uma frase

“Tem dias que a vida parece coca-cola sem gás”
Maria Bacana

Fevereiro 3, 2009   3 Comments

Little Quail no CCSP: uma foto e um vídeo


Foto: Marcelo Costa

Não estou muito afim de escrever sobre esse show. Acho, sinceramente, que essa foto vale mais do que uns dois mil toques meus. Clica nela que fica melhor. Por fim, se não te der idéia, subi um vídeo com “Família Que Briga Unida Permanece Unida” no Youtube. Assista aqui. Mais dois vídeos devem ser upados e as fotos todas estão aqui. Você sabe: o amor é lindo, a vida é bela…

Fevereiro 2, 2009   3 Comments

As grandes baladas nacionais dos anos 00

A Wonkavision fecha o ciclo de um single por mês lançando a baladaça “1/2 Amor”, disponível para download na Last Fm, Reverbnation e My Space. “1/2 Amor” fecha com chave de ouro a coleção que trouxe as brilhantes “O Impar Perfeito” e “Superpoder”, e, ainda, “O Fora”, “Write a Note”, “A Farso Que Eu Fracasso em Ser”, “Paranôia”, “Pumadidas”, “Not For Me”, “Tanto Faz”, “Rebobinar” e “Double Dealing”, que podem ser baixadas em algum dos três endereços acima. Divirta-se

*********

E falando em baladas, já que “1/2 Amor” é daquelas bem tradicionais, lentas e apaixonadas, somei todos os cometários sobre o post “As melhores baladas do rock nacional nos anos 00 (leia aqui)” e por enquanto está assim:

08 votos
Bide ou Balde, Mesmo Que Mude
LosHermanos, Sentimental

04 votos
Pública, Long Plays
Skank, Dois Rios

03 votos
Ludov, Kriptonita
Titãs, Epitáfio
Wado, Deserto De Sal

02 votos
Autoramas, A 300 KM
Beto, Só, O Tempo Contra Nós
Cachorro Grande, Que Loucura
Gram,  Você Pode Ir Na Janela
Lestics,  Luz do Outono
Mombojó, Adelaide
Paralamas do Sucesso, Seguir Estrelas
Skank , Balada Do Amor Inabalável
Superguidis , O banana
Terminal Guadalupe, De Turim a Acapulco
Vanguart, Enquanto Isso na Lanchonete
Violins, Gênio Incompreendido

01 votos
Acústicos & Valulados, Deus Quis
Adriana Calcanhoto,  Sou Eu Assim Sem Você
Ana Carolina, Nada Pra Mim
Autoramas, Sonhador
Cachorro Grande, Sinceramente
Caetano Veloso, Não Me Arrependo-
Canastra, Volte Sempre
Canto dos Malditos na Terra do Nunca - Sinta Vontade de Ficar
Carolina Diz, Sobras
Cascadura , Mesmo eu Estando do Outro Lado
Cascadura , Queda Livre-
Cássia Eller, Relicário
Cerebro Eletrônico,  Dê
Céu , 10 Contados
Columbia - Amanha
Cordel do Fogo Encantado - Na Veia
Curumin, Vem Menina
Ed Motta, Outono No Rio
Engenheiros do Hawaii, Dom Quixote
Fábio Góes , Surfista
Forgotten Boys, The Ballad of
Frejat, Amor Pra Recomeçar
Fresno,  Cada Poça Dessa Rua Tem um Pouco De Minhas Lágrimas
Giancarlo Ruffato , Reza
Gianoukas Papoulas,  Cinza
Ira - Eu Vou Tentar
Ivete Sangalo,  Quando a Chuva Passar
Lô Borges, Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor
Los Hermanos, De onde vem a calma
Los Hermanos, O velho e o moço.
Los Porongas,  O escudo
Mallu Magalhaes - J1
Mallu Magalhães,  Get To Denmark
Marcelo Camelo,  Janta
Marcelo Nova, A Balada do Perdedor
Marisa Monte,  Infinito Particular
Mombojó, Nem Parece
Mombojó, O mais vendido
Monno,  21 Dias
Mopho, Não Mande Flores
Nando Reis, Relicário
OAEOZ, Dizem
Paralaxe, Santo Antônio
Pato Fu, Canção Pra Você Viver Mais
Pato Fu, Agridoce
Pato Fu, Sorte E Azar
Pitty, Equalize
Pitty, Na Sua Estante
Planta e Raiz, De Você Só Quero Amor
Relespública, Nunca Mais
Relespublica, Essa Canção
Revelação,  Talvez
Rodox, Quem Tem Coragem Não Finge
Sérgio Britto, Rachel
Seu Jorge, Tive Razão
Skank, Ali
Skank, Seus Passos
Terminal Guadalupe, 525 Linhas
Terminal Guadalupe, Como se fosse primavera
Tom Bloch, O Amor (zero sobrevivente)
Transmissor,  10 Segundos
Vanessa Da Matta,  Boa Sorte
Vanguart,  Last Time I Saw You’
Vanguart, Antes que eu me esqueça
Vanguart, Cachaça
Video Hits,  VO (C)
Violins,  Manicômio
Violins, Auto paparazzi
Wander Wildner, Eu Não Consigo Ser Alegre
Wander Wildner, Um Bom Motivo

Fevereiro 2, 2009   14 Comments

O show mais divertido do país

Texto: Marcelo Costa
Fotos: Lili Callegari

Na entrada do Sesc Pompéia uma placa avisa: “Ingressos esgotados para Fino Coletivo e Móveis Coloniais de Acaju”. Na longa fila para entrar na Choperia do Sesc, um casal de amigos conversa com um terceiro. O primeiro vira e diz: “Conheci uma banda muito legal essa semana: Radiohead”. O outro dá de ombros: “Acho que já ouvi, mas não gostei”. A namorada do primeiro olha um cartaz e diz animada para seu par: “Vai ter Vanguart em uma noite folk”. O rapaz que acha que não gostou de Radiohead não perdoa a banda cuiabana: “Vanguart é chato”.

O diálogo descrito no primeiro parágrafo serve para ambientar tudo que vem pela frente. E tem mais um ouvido no meio da pista, quando um amigo promete para o outro: “Esse ano eu vejo um show do Teatro Mágico”. Apesar da promessa, não é o Teatro Mágico que está no palco, e sim o Fino Coletivo, combo carioca/alagoano que abre a noite trazendo nos bolsos as canções de seu magnífico álbum de estréia, de 2007, e algumas inéditas de seu aguardado segundo álbum. A casa ainda não está totalmente lotada, mas um bom número de pessoas samba ao som charmoso do sexteto carioca.

“Hortelã” abre a noite com suingue e boa participação do recém contratado Donatinho, nos teclados e efeitos. O samba sai forte pelas caixas de som com Alvinho Cabral despejando estilo no violão com wah-wah. “Tarja Preta/Fafa”, o grande hit, vem na seqüência, trazendo consigo mais algumas pérolas do compositor Wado como “Se Vacilar o Jacaré Abraça”, “Uma Raiz e Uma Flor” e “Dragão”, que por mais que sejam parcerias divididas, trazem um cuidado poético que soa brilhante no trabalho solo do curitibano radicado em Alagoas, e que podem fazer muita falta no segundo disco do Fino.

Das inéditas, a boa “Samba do Príncipe” segue no nível da estréia enquanto “Lycra, Limão”, de Lucas Santtana, em arranjo reggae, parece não soar bem resolvida ainda. E uma terceira, de temática machista, que fala da imensa felicidade do rapaz em saber que é o primeiro de sua amada. Resta descobrir se a banda tem a mesma opinião do lado contrário, que o rapaz se guarde para a sua primeira, e provavelmente teremos uma ótima canção para ser tema de uma campanha anti-aids. O Ministério da Saúde deve aprovar.

Com um intervalo rápido e a Choperia do Sesc já bastante tomada, o Móveis Coloniais de Acaju subiu ao palco para apresentar o show mais divertido do país e fazer dançar e cantar o cara que descobriu Radiohead na semana passada, sua namorada que gosta de Vanguart, aquele que não gosta nem de um e nem de outro, e o quarto que prepara sua alma para um show do Teatro Mágico. E não só estes quatro personagens, casualmente dançando um ao lado do outro no centro da pista, mas mais 700 pessoas dispostas a chacoalhar diante da musicalidade contagiante dos candangos.

A força do Móveis ao vivo chega a impressionar. O som é potente e o grupo é extremamente entrosado. O vocal de André é forte, mas soa embolado boa parte da noite. Pouco dá para entender do que ele canta, mas o público não se importa, pois já sabe as letras de cor, e elas não fazem nenhum sentido mesmo. A boa da noite é dançar, dançar e dançar, e o som do Móveis ao vivo não consegue deixar ninguém parado. A banda apresenta algumas canções inéditas do segundo álbum, produzido por Carlos Eduardo Miranda, e que estará para download gratuito em março, abre a sua tradicional roda no meio do público e deixa todo mundo suado. Cita “Glory Box” do Portishead em uma faixa, e é “obrigado” a voltar ao palco para um bis consagrador.

Na volta para casa caraminholo idéias com o amigo e jornalista Tiago Agostini e com a namorada e fotógrafa Lili Callegari. Que caminho fez um ouvinte que não conhece Radiohead, mas sabe todas as canções do Móveis de cor? Qual o público de Móveis, Mombojó e Teatro Mágico, três bandas totalmente distintas, mas que têm um público fiel que provavelmente conhece mais canções dessas bandas do que Beatles? O que acontece com a grande mídia que não consegue absorver esses fenômenos culturais que poderiam tomar a massa, caso fosse bem divulgados? O público brasileiro presta atenção em letras? Se presta, qual o motivo do Creu e derivados fazerem sucesso? As questões são muitas. Deixo você responde-las enquanto troco minha camisa suada, ok.

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Leia também:
- “Idem”, do Móveis Coloniais de Acaju, por Marcelo Costa (aqui)
- “Fino Coletivo”, do Fino Coletivo, por Marcelo Costa (aqui)
- “Terceiro Mundo Festivo”, de Wado, por Marcelo Costa (aqui)

Fevereiro 1, 2009   12 Comments