Quem Quer Ser um Milionário?

Um policial mal encarado dá uma longa baforada na cara de Jamal Malik. O rapaz havia participado na noite anterior do game show televisivo “Quem Quer Ser Um Milionário?” (equivalente ao Show do Milhão apresentado por Silvio Santos), e saiu da TV direto para uma delegacia acusado de ter trapaceado nas respostas. Jamal havia chegado até a penúltima pergunta, cujo prêmio somava 10 milhões de rúpias (cerca de R$ 1,9 milhões), e ainda tem – se conseguir provar que é inocente – a pergunta final no valor de 20 milhões de rúpias.
O que intriga a polícia e o apresentador de “Quem Quer Ser Um Milionário?” é o fato de que professores, médicos, advogados e outros concorrentes nunca passaram das 16 mil rúpias, e Malik, um jovem que nasceu e viveu boa parte de sua vida em uma favela (e que atualmente ganha a vida servindo chá em um companhia de callcenter) não só os ultrapassou com larga vantagem como também está perto de alcançar o prêmio máximo do programa. São quatro alternativas em questão: A) Ele trapaceou; B) Ele tem sorte; C) Ele é um gênio; D) Está escrito.
Desde que começou a bater asas ao estrelado, “Quem Quer Ser Um Milionário?” faturou sete Baftas (o Oscar inglês), quatro Globos de Ouro e recebeu dez indicações ao Oscar. Vem causando comoção por onde passa, atraindo duras críticas e fervorosos elogios – quase sempre na mesma proporção. É uma produção EUA/Inglaterra, com um diretor inglês, mas filmada na Índia, com atores e roteiro indiano e, grande detalhe para o cinema brasileiro: vem sendo constantemente comparado a “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. “Quem Quer Ser Um Milionário?” é tudo isso que dizem?
O diretor Danny Boyle começou a carreira muito bem quinze anos atrás. Ele pegou as melhores idéias que Tarantino havia apresentado ao mundo em “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” e as transformou em duas pequenas obras-primas do cinema indie britânico da década de 90: “Cova Rasa” e “Trainspotting”. Depois, derrapou com uma produção mediana (”Por Uma Vida Menos Ordinária”, “A Praia”, “Extermínio”) até despencar ladeira abaixo com “Caiu do Céu” e “Sunshine”. Em “Quem Quer Ser Um Milionário?”, porém, o Danny Boyle inteligente do começo de carreira está de volta.
Apesar do diretor britânico, irritado, dizer à reportagem da Folha de São Paulo que detesta “Cidade de Deus” (em outras reportagens, porém, o próprio se derrama em elogios ao filme de Meirelles), fica parecendo que, assim como fez com Tarantino no início de carreira, Boyle apropria-se de uma nova linguagem e dá um passo à frente criando algo instigante. Cores, edição, enquadramento e mesmo passagens aproximam “Slumdog Millionare” de “Cidade de Deus”, mas não dá para dizer que Danny Boyle (e o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, amigo de César Charlone, fotógrafo de “Cidade de Deus”) copiam o brasileiro. È mais uma apropriação que cria algo novo.
Tudo bem que o novo em “Quem Quer Ser Um Milionário?” não seja assim tão novo para os brasileiros: a miséria de Mumbai, cuja metade dos 17 milhões de habitantes de vive nas ruas ou em favelas sem saneamento básico, não é nenhuma novidade para quem habita debaixo da linha do Equador, mas Danny Boyle utiliza-se de tudo que cerca esse ambiente para criar um excelente conto de fadas moderno juntando elementos de humor, fantasia, emoção e até violência que, em perfeita sintonia, apresentam uma história que prende o espectador até o último segundo da trama.
Interessante observar que o dinheiro volta a ser tema forte de um filme de Boyle. Em “Cova Rasa”, o dinheiro corrompe a amizade. Em “Trainspotting”, acontece quase o mesmo, se der para dizer que drogados têm amigos de verdade. Em “Caiu do Céu”, no entanto, Boyle situa a trama naquela fase da vida em que a pessoa não sabe realmente o valor das coisas, cuja inocência é a marca da personalidade, defendendo que para uma criança, ainda não influenciada pelos males do mundo, dinheiro é apenas papel. Em “Slumdog Millionare”, dinheiro - mesmo uma fortuna - fica em segundo plano: o que importa de verdade é o amor.
“Quem Quer Ser Um Milionário?” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”, os dois grandes favoritos ao Oscar de Melhor Filme deste ano, mostram dois modos diferentes de fazer cinema, embora ambos tenham residência nos contos de fada. “Benjamin Button” tem um argumento genial (escrito por F. Scott Fitzgerald em 1921) que foi adaptado com um roupagem conformista (que atinge, principalmente, roteiro e fotografia). “Millionare”, ao contrário, tem um argumento batido (inspirado em um romance indiano) que foi adaptado com uma roupagem criativa que abusa das cores, da câmera frenética e de um roteiro extremamente ágil.
Os dois filmes, ainda, guardam semelhanças no modo em que derivam de outras películas. Enquanto “Button” repete cenas e opções de roteiro, mas pouca acrescenta ao filme que o originou, “Forrest Gump”, soando inferior, “Millionare” está em pé de igualdade com “Cidade de Deus”. Apesar de focar na genealogia do crime organizado, o brasileiro também tem seu q de conta de fadas (Buscapé sai da favela para virar fotógrafo de um grande jornal), porém “Slumdog Millionare” eleva isso ao mundo da fantasia com melhor qualidade final de cinematografia e muita personalidade de direção. Danny Boyle pariu o segundo filme definitivo de sua carreira. Se vai ser premiado por isso, não importa. Já basta ter feito grande arte.
“Quem Quer Ser Um Milionário?”, Danny Boyle – Cotação: 4/5

Arte: Folha de São Paulo (aqui)
Leia também:
- “Caiu do Céu”, de Danny Boyle, por Marcelo Costa (aqui)
Fevereiro 21, 2009 No Comments





















