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O Casamento de Rachel

“O Casamento de Rachel”, de Jonathan Deme – Cotação 2/5

Rachel vai se casar, e adivinha quem vem para a festa: uma ex-viciada que passou noves meses numa clinica de rehab e que geneticamente é apontada como sua irmã, Kym. O casamento pode ser de Rachel, mas as atenções estão todas voltadas para a irmã caçula, que retorna a casa em um momento de confusão extrema (festas de casamento são, na maioria das vezes, uma bagunça – quase – organizada), pouco silêncio e muita sociabilidade.

Kym (Anne Hathaway em grande atuação), a ovelha negra, é o centro das atenções em todos os cômodos da casa, mas esse é o dia de Rachel (a ótima Rosemarie DeWitt). O que se segue pelos 114 minutos do filme é uma grande lavagem de roupa suja que a roteirista estreante Jenny Lumet consegue desenvolver na medida certa distribuindo traumas familiares bastante reconhecíveis para muita gente (”Você sempre deu mais atenção a ela”, diz Rachel ao pai em certo momento).

O casamento fica em segundo plano em um primeiro momento. Kym está se sentido um peixe fora do próprio aquário, uma estrangeira dentro da própria casa, e tenta se readaptar a todo custo – para mostrar que está limpa e arrependida de tudo que fez. Toda família tem problemas, e o papel de Rachel – nessa data tão esperada e especial – é o de manter Kym na linha. O choque é algo natural e esperado, mas o cenário é completamente surreal (como grande parte das festas de casamento).

Rachel está se casando com Sidney (Tunde Adebimpe, vocalista do Tv On The Radio, que como ator é um ótimo cantor), e a união das duas famílias também é uma união de raças, credos e sons. Jazz, música irlandesa, funk, música indiana e até carnaval – com um pequeno núcleo de uma escola de samba – pontuam a looooooonga e surreal passagem da festa, momento em que Kym é finalmente deixada de lado e pode conviver com seus demônios bebendo taças de água tônica.

O diretor Jonathan Demme teve uma sacada genial para filmar: se o assunto é uma festa de casamento, que tal usar câmeras de mão como se todos fossem cinegrafistas amadores? A sacada tem um tom irônico e funciona no começo, mas enche a paciência – com suas dezenas de passagens tremidas e desfocadas – conforme a fita vai se desenrolando. Já experimentou ver uma fita de casamento filmada por amigos? Parece chato, não? A sensação causada pelo filme de Jonathan Demme é a mesma (tanto que o filme parece ter o dobro do tempo que tem).

O roteiro de Jenny Lumet é cuidadoso e apesar de não trazer nenhuma novidade, desnuda os personagens de forma convincente para mostrar que é sob pressão que podemos enxergar todas as cicatrizes de uma família. Por fim, Anne Hathaway, o grande nome do filme. Ela domina a tela e o público não tira os olhos dela. A jovem atriz consegue soar delicada e determinada em um papel que a Academia adora, mas está entre as cinco indicadas para cumprir tabela (e pegar experiência).

Tanto o Oscar quanto o Globo de Ouro só lembraram de Anne Hathaway em suas listas de indicações, e acertaram. “O Casamento de Rachel” soa um filme repleto de boas idéias que não foram desenvolvidas a contento. Vale pela boa atuação de Hathaway (e também de Rosemarie DeWitt, excelente como Rachel) e por um tocante momento musical em que, a capela, o noivo interpretado por Tunde Adebimpe canta “Unknowm Legend”, e o padre os abençoa em nome de Deus e de Neil Young. Para pedir nos shows do Tv on The Radio.

1 comentário

1 Drex { 02.16.09 at 11:27 am }

Eu gostei muito do filme, Mac.

Anne Hathaway está estupenda. Pensar que a Angelina Jolie ganhou um Oscar por aquela junkie caricata me faz acreditar que Anne merece três estatuetas ao invés de só uma.

Acho que o filme tem a competência da tratar questões já bem exploradas no cinema de uma maneira diferente, sincera, sem clichezões, sem platitudes, sem auto-ajuda barata, sem concessões. E acheu que a câmara na mão, aqui, só enfatiza a tensão e a sinceridade. Faz sentido.

Este, e o Lutador, são meus preferidos deste início de ano. Interessante ver que a tal câmera na mão (que, concordo, já parecia ser um recurso clichê de filme independente) voltou com força criativa ao cinema americano. Devem ter promovido alguma mostra retrospectiva do Dogma por lá… :-)

Abz,

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