“Vicky Cristina Barcelona”

“Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen – Cotação: 4,5/5
Se Nova York é jazz e Londres é ópera, Barcelona – para Woody Allen – é flamenco e chanson latina com sotaque jazz como a de Giulia y Los Tellarini, cuja música “Barcelona” (ouça no My Space aqui) abre com suavidade o mais novo grande filme do diretor, filmado na Catalunha e oportunamente chamado “Vicky Cristina Barcelona”, com a nova musa do cineasta, Scarlett Johansson, novamente no elenco e, ainda, Penélope Cruz e Javier Bardem. É o segundo filme com F maiúsculo do diretor nos últimos dez anos.
O título do filme joga as cartas na mesa: Vicky está noiva e vai para a Espanha para finalizar seu mestrado, que tem como tema a Catalunha. Cristina está perdida na vida, não sabe o que quer, ou melhor, sabe o que não quer. Já Barcelona é a cidade de Gaudi e Miro, e várias cenas trazem obras dos dois artistas ao fundo como a magnífica igreja Sagrada Família, o Parq Guell, a Casa La Pedrera, o Aeroporto e as famosas Ramblas (estas duas últimas com obras de Miro).
Mais do que qualquer coisa, porém, Barcelona está representada por Juan Antonio e Maria Elena, um casal de artistas que se consome pela arte que os consome. Juan Antonio (Javier Bardem) transpira sensualidade, e não a toa sua primeira frase no filme já soa um clássico dos cinemas 00. Ele chega até à mesa de duas americanas em um restaurante e, sem conhece-las, dispara um convite direto: “Vamos para Oviedo. Lá comeremos pratos deliciosos, beberemos vinho e faremos amor”. Uma das duas garotas pergunta: “Quem fará amor?”. E ele responde: “Se tudo sair bem, nós três”.
A outra metade de Barcelona é Maria Elena (Penélope Cruz), uma mulher à beira de um ataque de nervos. Maria Elena ensinou a Juan Antonio tudo que ele sabe sobre o amor e a arte, mas eles são daquele tipo de casal que se ama e não pode ficar junto (nas palavras do próprio). O último episódio da história dos dois acabou com uma facada, mas ninguém sabe ao certo quem esfaqueou quem. Cristina se sente atraída pelo homem. Vicky tem vontade de sair correndo ou, no mínimo, jogar a taça de bom vinho espanhol na cara do rapaz. Corte na cena e, quando vemos, lá estão as duas em direção a Oviedo.
Woody Allen brinca com a profundidade de seus personagens com toque de mestre, e por mais que jogue as situações do romance para lá e para cá, não perde o fio condutor da história nem deixa o espectador se perder nela. Mais: ele dança com o espectador como se estivesse balançando uma bandeira vermelha para um touro. E por mais óbvio que seja o destino do touro, sempre ficamos apreensivos pelo toureiro, o que já permite ao diretor manipular com destreza seu manual de desencontros românticos (que já rendeu um bom número de obras primas).
Por mais que as notícias sobre o filme se fechem no romance e nos beijos de Cristina (Scarlett) em Maria Elena (Penélope), a chave do filme é Vicky (Rebecca Hall), o que por si só já demonstra a genialidade do diretor. Enquanto todos os olhares são sugados pela enorme sensualidade de duas grandes musas do cinema mundial, a graça do roteiro está no confronto interno da terceira protagonista, que além de não ser uma artista de renome também não traz a sensualidade à flor da pele de Scarlett e Penélope. Rebecca é a típica garota que todo mundo conhece, e por quem todo mundo se apaixona. É seu personagem que vive o maior drama do filme.
O drama, porém, não se expõe logo de início. Woody Allen conta a história com calma e deixa o público se apaixonar pelos personagens e por Barcelona. Quando se percebe, lá está a vida parada diante de uma rua que bifurca: Qual caminho seguir?, é a grande questão. Como de costume, o diretor não faz dramas com o drama de seus personagens. A sutileza é um dom que o cineasta raras vezes usa, e o trecho final de “Vicky Cristina Barcelona” é perfeito para perceber isso, com as duas amigas em um café conversando sobre as férias de verão na Espanha, e tocando a vida em frente, como se pudessem voltar no tempo com a vidinha que tinham.
Assim como Newland, o personagem de Daniel Day-Lewis em “A Época da Inocência”, de Scorsese, ou a Francesca (Meryl Streep) de “As Pontes de Madison”, de Eastwood, o personagem de Woody Allen também está condenado a amar em silêncio enquanto vive uma vida de fachada para satisfazer os anseios da sociedade. A crueldade desta situação, porém, é jogada em forma de palavras no ar como se joga fumaça após tragar o cigarro. O que está visível não é realmente o que interessa ver. As palavras soltas caem na mesa, escorrem pela toalha de papel manchada de café, adentram a calçada e caem na sarjeta. É lá que os verdadeiros amores se encontram. É lá que o personagem de Lou Reed em “Baton Rouge” (do post anterior a esse) vai tentar esquecer a garota que nunca teve. E é lá que “Vicky Cristina Barcelona” vai parar, mas poucos vão perceber.
A vida, meus caros, imita a arte. E quer saber: somos todos artistas de quinta-categoria. Acostume-se.

Leia também:
- Woody Allen de 0 a 10, por Marcelo Costa (aqui)
- “As Pontes de Madison”, de Clint Eastwood, por Marcelo Costa (aqui)
- Antoni Gaudi, Tom Waits e Barri Gotic, por Marcelo Costa (aqui)
Novembro 13, 2008 9 Comments
“And the girl I never had”
Baton Rouge, Lou Reed
When I think of you baton rouge
I think of a mariachi band
I think of sixteen and a crisp green football field
I think of a girl I never had
When I think of you baton rouge
I think of a back seat in a car
Windows are foggy and so are we
as the police asked for our I.D.
So helpless
so helpless
Ooohhh, so helpless
ooohhh, so helpless
Ooohhh, so helpless
so helpless
Well I once had a car lost it in a divorce
the judge was a woman of course
She said give her the car and the house and your taste
or else I set the trial date
So now when I think of you baton rouge
and the deep southern belles with their touch
I wonder where love ends and hate starts to blush
in the fields in the swamps in the rush
In the terra-cotta cobwebs of your mind
when did you start seeing me as a spider spinning web
Of malicious intent and you as poor, poor me
at the fire at the joint, this disinterred and broken mount
in the bedroom in the house where we were unmarried
So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless
When was I the villa in your heart
putting the brake on your start
you slapped my face and cried and screamed
that’s what marriage came to mean
The bitterest ending of a dream
You wanted children and I did not
was that what it was all about
You might get a laugh when you hear me shout
you might get a laugh when you hear me shout
I wish I had
So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless
Sometimes when I think of baton rouge
I see us with two and a half strapping sons
One and a half flushed daughters preparing to marry
and two fat grandsons I can barely carry
Daddy, uncle, family gathered there for grace
a dog in a barbecue pit goes up in space
The dream recedes in the morning with a bad aftertaste
and I’m back in the big city worn from the race of the chase
what a waste
So thanks for the card the announcement of child
and I must say you and Sam look great
Your daughter’s gleaming in that -
- white wedding dress with pride
sad to say I could never bring that to you that wide smile
So I try not to think of baton rouge
or of a, of a, of a mariachi band
Or of sixteen and a crisp green football field
and the girl, and the girl I never had
So helpless, so helpless
so helpless
So helpless, so helpless
so helpless
Baixar aqui (botão direito e salvar como)
Novembro 13, 2008 No Comments
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Novembro 13, 2008 2 Comments





















