“Macao”, Jards Macalé

É sintomático que Jards Macalé, Macao para os amigos, abra o décimo disco de sua carreira – de quase 40 anos de janela – com “Farinha do Desprezo”, parceria com Capinan circa 68/69 que abriu seu primeiro disco, homônimo, em 1973. Agora, mais ainda, os versos “já comi muito da farinha do desprezo / não, não me diga mais que é cedo / (…) Só vou comer agora da farinha do desejo” soam fortes e emblemáticos. Para uma versão a altura da original (que conta com Lanny Gordin e Tutty Moreno), Macalé sobrepôs quatro violões rebeldes – todos tocados por ele mesmo – e concentrou-se em uma interpretação arrepiante.
Na segunda faixa, “Boneca Semiótica” (gravada originalmente no segundo álbum de Macalé, “Aprendendo a Nadar”, de 1974), Jards incorpora à melodia de seus violões um sampler da orquestração de Wagner Tiso para a versão original, e ainda programação, prato e garfo, produção, mix e sampler do pessoal do Laptop&Violão, que atualizou a canção (que já era mais 2000 que 1970) de forma interessante (e com uma interpretação mais comovente). “O Engenho de Dentro”, parceria esquecida com Abel Silva, é uma das três canções inéditas de “Macao”, um samba que lembra Paulinho da Viola e destaca um bonito solo de flauta de Dirceu Leite.
“Se Você Quiser” (outra inédita, parceria com Xico Chaves) é um delicioso maxixe que Jards Macalé chama de “samba de berço” e segue o clima de “O Engenho de Dentro”. Já “Balada”, parceria com Ana de Hollanda, tem sotaque jazzy, com o clarinete e o baixo lembrando algo da bela trilha dos “Saltimbancos Trapalhões”, numa letra que procura encorajar novos compositores. “The Archaic Lonely Star Blues” havia sido gravada por Gal Costa no álbum “Legal” (1970), e tem seu primeiro registro na voz do autor numa belíssima versão meio jazz, meio bossa, meio samba-canção.
Entre os homenageados estão Jacques Brel numa versão voz e piano – e em francês – de “Ne Me Quitte Pas”; Lupicinio Rodrigues comparece cedendo a sua “Um Favor” numa versão voz e violões; Tom Jobim, de quem regravou o clássico “Corcovado” (dedicada à Johnny Alf no encarte); Paulo Vanzolini (e São Paulo – “pelo bem que a cidade me fez e nos faz”) na sublime versão de “Ronda”; e, por fim, Luiz Melodia, com “Só Assumo Só”, faixa que mais lembra o Macalé dos shows atuais, engolindo sílabas, violão dissonante em punho cujas notas ásperas acariciam a audição, emoção a flor da pele em uma letra riquíssima de imagens.
A idéia de Jards para “Macao” era gravar tudo voz e violão, mas ele acabou agregando outros instrumentos conforme as gravações corriam (apenas quatro faixas do álbum seguiram a idéia original). No encarte, ele se explica (e se desculpa sem se desculpar): “Neste disco, quanto mais buscava a perfeição, a voz e (principalmente) o violão sibilava, rosnavam; as cordas ruidavam entre o metal, o nylon e a madeira. Me lembrei de Baden Powell e Nelson Cavaquinho que não tinham pudor do ruído. Achei que a perfeição só existe quando você tenta aperfeiçoar o imperfeito… em vão. Deixei como está: humano”. A humanidade da interpretação de Jards Macalé encanta e crava no peito a verdade absoluta do violão: a beleza está nos ruídos.
“Macao”, Jards Macalé (Biscoito Fino)
Preço em média: R$ 30
Nota: 9






















1 comentário
Ma,
Fiquei feliz com essa volta do Macalé. Andei cruzando esse ultimos anos com ele pelas ruas do Rio e depois de tantos desencontros ver ele de volta é o máximo. Por que é que os mais talentosos são as vezes os mais dificeis ?
Vou escutar o disco com prazer.
bj
d.
Faça um comentário